Coimbra  15 de Junho de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A Odisseia de 2020

18 de Janeiro 2021

Nada dura para sempre. Os anos também findam e quem diria, há um ano, que ficaríamos contentes pelo esgotamento de mais um período da nossa existência. Foram 10 meses estranhos num universo de 12. E como tudo pareceu difícil durante este reinado de trevas em que vivemos sob a influência de um vírus que apavorou e condicionou o funcionamento do planeta, ferindo os padrões evolutivos das sociedades modernas.

A Odisseia de 2020, anormal e variada, não deixará saudades. Fica na História pelos piores motivos, mas talvez tenha servido como exemplo ou lição do Criador, perante a sede de poder dos homens que disputam na sombra e na luz o controlo económico, social e político.

Impôs, a uma escala global, máscaras, distanciamento social, confinamento e recolher obrigatório, testes, zaragatoas, quarentenas e protocolos. Relembrou a importância de organismos como a OMS ou a nossa DGS, a existência de vacinas e medicamentos e, quiçá o mais importante de tudo, recordou a nossa frágil condição humana.

Numa espécie de ensaio nunca visto, a humanidade abrandou o seu ritmo, ficando à mercê do controlo dos estados quase policiais. Vários sectores de uma economia mundial fundamentada na perpetuidade suspenderam ou reduziram actividade, famílias inteiras experimentaram novas fórmulas como o teletrabalho enquanto outras medidas, bem conhecidas, como o lay off, readquiriram importância.

O mundo não mais voltará a ser o que era, pois, os efeitos pandémicos estão para durar. A China, a quem se imputa a maior responsabilidade pela porta que se abriu, qual caixa de pandora, nunca mais será vista da mesma forma no tabuleiro do jogo das potências mundiais – de confiável e parceira estratégia foi desclassificada para a categoria da desconfiança, que começa logo nas pequenas lojas que se disseminaram pelo mundo ocidental com os produtos «made in China».

Jogou-se muito alto do ponto de vista comercial: o negócio de máscaras e gel, a industrialização do processo farmacológico das vacinas, o investimento em testes de diagnóstico, em laboratórios, em construções e adaptações de unidades de saúde.

Um ano que causou sofrimento, angústia e perdas irreparáveis, sobretudo humanas mais do que materiais, mas que também teve a sua faceta positiva: passámos a dar valor ao que não temos, ao que vivemos e nos foi retirado, evidenciando a resiliência e capacidade de resposta das pessoas que fazem as organizações.

O planeta, a base de toda a nossa existência, e que tão maltratado tem sido, pôde respirar um pouco melhor. As cidades, vilas e aldeias ficaram desertas, é certo, mas a vida animal recuperou fôlego.

Para mim, investigador, qual rato de arquivos e bibliotecas foi um ano quase para esquecer. Serviços de pesquisa e espaços públicos a funcionarem de forma reduzida, acesso a informação e conhecimento demorado, obrigatoriedade de quarentena dos exemplares consultados, reuniões de trabalho sujeitas a número restrito de pessoas. E essa imposição acima de todas as outras: ter de trabalhar com máscara roubando capacidade de concentração e necessitando de adaptação constante.

O ano saiu, outro entrou. Que seja de paz e de retoma da normalidade. Mas o caminho será duro…

(*) Historiador e investigador