Coimbra  7 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A Matemática na Política

19 de Março 2021

Na tarde da passada sexta-feira, dia 12 de Março, terminou, parcialmente, um dos processos mais curiosos da história política autárquica de Coimbra do pós 25 de Abril. O independente José Manuel Silva foi confirmado por Rui Rio como candidato à presidência do Município, encabeçando uma plataforma alargada de Centro-Direita.

As opiniões têm-se dividido entre os simpatizantes do movimento de cidadãos Somos Coimbra e os militantes do Partido Social Democrata, adversários em 2017 e agora unidos numa lógica puramente matemática, onde Nuno Freitas foi “queimado” pelo centralismo e outras contigências, face à reduzida margem de manobra dos dirigentes locais.

Dizem-me, nos bastidores, que este processo dava um excelente romance. Não duvido, até por que, segundo sei, Freitas havia sido o primeiro a sugerir, internamente, a plataforma que agora se desenha, disponibilizando-se para ser número dois. E menos dúvidas tenho do excelente enredo que esta história daria, quando a forte gente se faz fraca – mansa, diria – e vem, com hipocrisias, lamentar no mural apetecível das redes sociais a queda do anjo e a ascensão do diabólico ex-bastonário.

Como escrevi no início deste artigo, defendo que na semana passada apenas terminou uma parte do processo, numa aparente concórdia que vai ser testada nas listas e, sobretudo, nos nomes a apresentar. Não fui o único a constatar que Rio disse uma coisa e Silva outra sobre quem apoia o quê. Uma primeira divergência de discurso que anuncia tempos difíceis, para o equilíbrio necessário àqueles que desejam ser uma verdadeira alternativa ao poder socialista e comunista.

Penso, na verdade, que mais do que ideologias ou ódios de estimação, pesou nesta decisão uma lógica matemática: a soma dos votos das duas forças em 2017 suplanta o total de votos do PS pelo que a união foi vista como o melhor caminho para a desejada vitória, reforçada por algumas sondagens que apresentam vários cenários, entre os quais a disputa taco a taco pela cadeira de sonho do município de Coimbra.

Porém, a História ensina-nos que em política a matemática nem sempre funciona e muitas vezes é a ilógica que dita vitórias. Recordemo-nos do que se passou em 2013, em que Barbosa de Melo, perante sondagens e movimentos de base, parecia possuir todas as condições para triunfar, tranquilamente, perante a sucessão tranquila que lhe ofereceu Encarnação e o regresso de Machado.

Será, pois, uma tolice, não levar em consideração o posicionamento de muitos sociais-democratas, com pensamento crítico, ou os fundadores do movimento independente, perante uma nova realidade: manterão as suas convicções ou cedem a outros interesses? Envolvem-se em prol do projecto comum, ou ficam distantes e fiéis ao pensamento de fundadores como Sá Carneiro? Concordam com a matemática aplicada na política? Perguntas que lá para Setembro ou Outubro terão as desejadas respostas, não passando por agora de interrogações ao destino.

Coimbra vai ser, de qualquer forma, um espaço político muito curioso de acompanhar. Imaginemos, por exemplo, que o Chega tem um bom candidato, ou que o BE apresenta uma figura aglutinadora. Um jogo de xadrez político de desfecho imprevisível e que torna Coimbra um caso especial no todo nacional.

(*) Historiador e investigador