Coimbra  19 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

A matança das “repúblicas” de Coimbra

15 de Março 2018

Leio com tristeza e desgraça que umas três “repúblicas” de estudantes de Coimbra podem ter de ser despejadas – melhor, desaparecerem -, porque os respectivos prédios/casas vão ser vendidos no mercado imobiliário.

Vontade e andamento dos tempos – diria eu. Força dos euros e do especulativo meio das operações de venda e compra de bens imóveis – concluo eu. Sinais dos tempos – argumento eu.

Fazendo um exercício mental e de reflexão terei de afirmar que as “repúblicas”, o conceito, não se desactualizou na sua total dimensão.

Eram casas arrendadas por um grupo de estudantes da Universidade, para, em solidariedade comum, se promover habitação, alimentação e congregação de académicos em repartição de meios e de capacidades financeiras. Era um espírito conceptual, puramente académico e estudantil.

Depois, contratava-se uma senhora, do meio futrica da Cidade, para varrer o chão, tirar poeiras, lavar a roupa e confeccionar as refeições do dia. Dividiam-se, assim, todos os gastos da casa que era partilhada por uma dúzia ou mais de “repúblicos”.

Vivemos hoje, sem felicidade e por conjuntura, tempos com alunos em dificuldades para pagar propinas e fazer frente a outras despesas, a fim de conseguirem viver e estudar, alimentando-se e banhando-se para se apresentarem capazes de cumprir com os seus deveres de estudantes e sem manchas de odores…

As bolsas universitárias e as de curadores amigos não chegam para ajudar a lista de alunos que concorrem a ajudas ao ensino superior, todos os anos. As propinas pastilharam-se de uma época de negócios, porque estudar passou a ser um comércio… Onde param os impostos do nosso povo para isentar os alunos de, e nas Universidades públicas, pagarem a recepção de ensino, de instrução e de cultura ?

Ora, e sendo assim, as “repúblicas” – o conceito mais vigoroso de vivência e de fraternidade e subsidiariedade – continua de pé e actual.

Daqui deveria sobressair a necessidade urgente de, e entre a Universidade, a Câmara Municipal e o próprio Poder Central, numa recorrência a fundos comunitários – e devem existir – se arquitectar um projecto com vista a preservar estes “monumentos” históricos da vida estudantil, alguns dos quais foram habitáculo de figuras gradas da nossa vida pública que, e enquanto alunos em Coimbra desta nossa velha Escola Superior, tiveram como alcofa uma das muitas “repúblicas” da cidade.

Não pode aquela instituição cimeira de ensino, aquela entidade autárquica e o Governo menosprezar e esquecer tão instante quão grave tema que pode comprometer o futuro de uma ou de outra, as mais emblemáticas e antigas “repúblicas” da cidade, verdadeiros postais da história da Universidade e de Coimbra que devem constituir-se como pólos turísticos, como centros de estudo de movimentos estudantis da mais variada ordem: sociológicos, políticos, académicos, citadinos e de tradição/espírito.

De mãos dadas têm de saber, as diversas entidades locais e nacionais e as instituições na nossa região, com destaque para a Universidade, saber defender a causa das “repúblicas”, ou seja, dar-lhes a continuidade, no e para o tempo.

 

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