Coimbra  12 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A luta política em Coimbra

19 de Março 2021

Quando devia estar chegando a hora da definição dos objectivos das forças políticas concorrentes às eleições autárquicas, uma reflexão colectiva e a análise da situação política actual, a caracterização do perfil e práxis dos candidatos, a concepção, elaboração e apresentação dos programas políticos eleitorais, afinal… chegou a hora da apresentação dos protagonistas, vindos do Olimpo ou oriundos de Satanás, um com rótulo de D. Sebastião que descobriu a política, outro com etiqueta de malfeitor com obra e sem crimes mas porque sim.

Ficaram para trás, a ideia consensual que não dá votos no cacifo iluminado, a diferença no pensamento que estimula a criatividade, o diálogo que não interessa a quem faz promessas enganadoras, a dialética que traduz verdade confundindo-a com retórica, a unidade na acção porque afinal também não interessa a regionalização se não for em espelho meu.

Avançou o ataque desenfreado a toda a obra porque é obra feita pelos outros, tudo tem defeito porque em vez de cozido é assado, a independência fica num emaranhado de duvidosa autonomia e acurada subjugação, há espectáculo com show-off de vedetismo sem estrelas, atira-se para o caixote do lixo quem vive a cidade e é reconhecido pelos seus pares, impõe-se figurante e descuida-se projecto, e até a iliteracia política vai atarracando a noção de sociedade civil.

Sou defensor da luta política, em que os adversários não sejam inimigos a abater, a discordância não seja enxovalho em redes sociais, o debate seja a apresentação de ideias em espaço público, o não entendimento seja uma outra oportunidade, as críticas sejam motivo de reflexão e quiçá reavaliação, a vitória não seja espezinhar quem não venceu, a derrota não seja o fim do mundo nem o mundo sem fim.

A luta política deve ser feita com atitude de donaire, civilidade e primor, com discurso de respeito, cortesia e desvelo, com propostas esmeradas, realistas e exequíveis, prometendo e não denegando, fazendo e não desfazendo, criticando e não insultando, apoiando e não bajulando, assumindo sem subserviência nem pesporrência.

A luta política não deve ser feita com figurinhas residentes nas redes sociais, atirando em tudo o que mexe, julgando quem não conhecem, denegrindo pela suposta piada fácil, com brejeirice de alcoviteira e pontapés na gramática portuguesa, acirrando opiniões subjectivas, extremando posições pessoais, visionando ilacções ilegítimas, ipsis verbis.

O povo tem sempre razão. E não se iludirá. Distinguirá o Estado liberal do Estado social, que não é um slogan, mas uma forma de gestão, também autárquica, de respeitar os mais velhos, de promover a natalidade e suas condições, de apoiar os desfavorecidos, os grupos de risco e os grupos vulneráveis, e de melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas porque são pessoas.

Quando vier ao de cima a fragilidade dos sectores supracitados após a crise pandémica, o Estado social é imperioso e viável, rodeando-se de pessoas competentes mais que tudo, com ideias pragmáticas, mas abrangentes e inclusivas, nas instituições democráticas representativas do povo e da razão e na sociedade civil participativa sem subterfúgios nem megalomania.

Coimbra tem mais encanto e mais terá, para quem a quer acrisolar e não para quem a quer deslustrar.

(*) Médico e membro do PS na AM de Coimbra