Coimbra  17 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

A lucidez do indignado…

2 de Março 2019

A lucidez comunicacional, a frescura de ideias, o adiantado da mentalidade, a argumentação desempoeirada e a revelação da crítica – não de «software», mas a do homem, do cidadão, do técnico, do profissional e do empresário – foram a expressão maior que a intervenção de Gonçalo Quadros conteve no “Dia da Universidade de Coimbra” e, também, quando recebeu o prémio dessa instituição.

Disse estar e ficar indignado com o preço (classificação minha) do ordenado mínimo nacional e, também, com o diferencial dentro das empresas, muitas vezes entre empregados e empregador, aqui podemos incluir administradores e quadros superiores.

Posicionado muito para a frente, numa demonstração objectiva e clara que tem cultura empresarial – um deficit de todo o tamanho que diminui e estrangula o sector, em Portugal – Gonçalo Quadros carregou na ideia de que se deve ir para além do lucro, estabelecendo uma dimensão sonhadora, mas que deveria manifestar-se efectiva, ao sublinhar que as empresas se devem posicionar como “cidadãs”.

Este conceito radica numa dimensão maior de sociedade, de relacionamento empresarial, de correlação de esforços entre entidades/instituições e o tecido produtivo, e de intervenção, em atitude colaborativa, que deve presidir na vida das universidades com as empresas e destas com os poderes autárquico, político, partidário e governativo.

Sem esta osmose – diria – porque não é preciso muita energia, mas conhecimentos, experiências e a actividade da vida, o mundo empresarial, todo ele, mesmo o público, daria um pulo na melhoria da prestação de serviços e assistiríamos a uma transformação de todo o tecido produtivo, seja do primeiro, do segundo ou do terceiro sector.

O laureado com o Prémio Universidade de Coimbra / 2019 não poupou nas palavras e nas ideias que havia transcrito para o seu discurso.

Invocando o centralismo de Lisboa, acabaria por o afirmar um “buraco negro”. E mais: “Tem atraído tudo e mais alguma coisa, o que tem ajudado a que uma espécie de deserto prospere numa parte importante do país”, advertiu, considerando “dramática” a concentração de pessoas na área da Grande Lisboa, enquanto outras cidades deixam de ter “as condições mínimas para interverter este ciclo”.

Acertou crítica à Universidade, o que deu nota da sua independência, o que me congratula e regozija, porquanto vivemos numa sociedade, a nossa, carreirista e conservadora…

Referindo-se ao facto de a Universidade de Coimbra praticar a endogamia académica, ou seja, ter 80 por cento dos seus docentes de carreira, doutorados na própria instituição, Quadros não deixou de dizer que isso é limitador da capacidade de escolha. Ora é este egocentrismo académico que – digo eu – compromete o futuro e não permite que outras opiniões se acerquem da vetusta Universidade, tonando-a um feudo.

É desta aragem e desta circulação de ideias que estamos pobres. É de uma e de outra atitude que precisamos para renovar, reagrupar, redimensionar, reorganizar e redescobrir o empreendedorismo dos que se pretendam instalar na região de Coimbra, que tem perdido dimensão, peso, força e expansão. Está menorizada. Ficou ultrapassada. Encontra-se representada por meia dúzia (força de expressão) de empresas e de empresários com aptidão e queda para a “coisa”, como este Quadros. Radicou-se no público…enforcando o presente e comprometendo o futuro.

Coimbra tem de se adaptar aos tempos modernos, operando com outra desenvoltura e dimensão as suas capacidades, alavancadas na Universidade e no Instituto Politécnico, que lhe possam dar fôlego para implantar empresas co-relacionadas com os ensinamentos que se produzem nas suas escolas. A saúde está por explorar, no bom sentido da palavra.

Mas não podem as escolas e a autarquia andarem de costas viradas com a vida privada, nos seus mais diversos sectores, sob pena de se continuar a gerir este actual oásis de investimento, de posicionamento de empresas e de criação de emprego, para que Coimbra não perca massa crítica, jovens, projectos, gente com visão e cérebros que lhe podem dar caminho de e com futuro.

A Critical Software, assim como outras empresas que teimam em ficar, em expandir-se e em trazer “cidadania” para o tecido produtivo, são verdadeiros combatentes de uma causa que Coimbra deixou de abraçar pós-25 de Abril de 1974, ao ver morrer potentados empresariais criados no tempo da «outra senhora»… é evidente que as mudanças trouxeram desafios que, e sei bem, acabaram por «assassinar» uma ou outra dessas que se espatifaram. Umas por falta de saber, outras pela força do sindicalismo e de se terem renovado. Mas com uma gestão eficaz e uma reconversão ajustada, poderiam ter reiniciado um novo ciclo.

Gonçalo Quadros diz bem e traça uma visão estrelar quando, e em jeito de apelo e de crítica, promove este recado: as empresas têm de ir para além do lucro, devem afirmar-se como empresas cidadãs. Expressão enfática e reveladora de que a estática não faz parte da sua dimensão pessoal e profissional. Mais: trata-se de gente com dimensão humana.

A lucidez do indignado Gonçalo Quadros ficou latente e patente nesta sua intervenção no “Dia da Universidade de Coimbra” e na entrega do prémio da instituição a ele próprio.

Parabéns pelo galardão e pela mensagem. Que esta última faça jeito aos poderes, apresentando-se como mote para os investidores e empresários…

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