Coimbra  16 de Junho de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Lino Vinhal

À Inês e à Lígia, a última lágrima

14 de Dezembro 2016

Aqueles infindáveis instantes em que os párocos de Montemor-o-Velho tiveram de explicar àquela gente toda – família, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e revoltados –, explicar e justificar, a morte tão violenta daquelas duas jovens, terão sido dos momentos e tarefas mais difíceis do munus sacerdotal dos padres Lucas e António Domingues. Sim, é verdade que a Igreja tem, e utiliza, escapadelas quando a razão é curta para entender o obviamente errado: refugia-se nos textos bíblicos, lê-os à luz da vela da tolerância, amplia as virtudes do criador e apela à aceitação contida dos crentes. E reconheça-se que aqueles sacerdotes até fizeram um bonito e reconhecido esforço para bem cumprir tão difícil missão. Disseram o que podiam dizer, calaram o que não podiam dizer, disfarçaram como puderam a incapacidade de compreender que por vezes, também a eles, lhes atravessará o peito quando a natureza reage com tamanha violência perante seres cujo pecado não foi além de não preverem o que lhes poderia acontecer quando se meteram linha férrea além.

Foi toda uma região a chorar. Foi todo um Baixo Mondego caído aos pés de uma mágoa enorme. Não vi olhos enxutos, não vi sorrisos, não vi outra coisa que não fossem sinais encobertos de perguntas não respondidas: porque morreram aquelas jovens, assim tão sem jeito e sem razão, quando o único pecado que possam ter cometido foi terem ido dar uma volta dezenas de quilómetros adiante do seu chão de todos os dias? Foi o comboio que as matou? Foi o vento ferozmente deslocado? Foi o quê?

Claro que foram projectadas a velocidade de bala contra as vedações que lhes desfizeram parte do rosto, lhes rasgaram o corpo. Mas que importa isso agora? Morreram caídas aos pés de alguma imprevidência quando decidiram meter-se à linha e corrigir o desvio que o comboio enganado lhes provocara? E depois? Quantos de nós não se enganaram um dia na linha errada, na estação trocada, na opção traiçoeira? Quantos de nós, adultos feitos, não calcularam mal distâncias a percorrer, convencidos que ali, ao virar da curva, estamos em casa e no aconchego da tranquilidade? Todos o fizemos. Isso e muito mais.

Podiam ter feito doutra maneira, chamar os pais, pedir ajuda, sei lá o quê? Claro que podiam. E tê-lo-iam feito se lhes passasse pela cabeça o que poderia acontecer e aconteceu. Mas o depois é sempre mais seguro que o antes. Mais seguro e mais sabido. Elas, jovens normais, fizeram o que gente normal, com a sua idade e a sua falta de experiência, faria. Nem mais nem menos. A Lígia e a Inês – lindas de verdade, tanto que nem a violência da morte lhes conseguiu esconder o traço da juventude bonita – fizeram o que de momento lhes pareceu melhor. Escolheram o caminho que acreditaram as levaria a casa. Não sabiam que estavam longe nem supuseram que um outro comboio as mataria. Mas acreditar no melhor é pecado desde quando?

Não eram aos milhares as pessoas que as choraram, sobretudo nesta última terça-feira quando os seus corpos desceram à terra do nada. Não eram aos milhares mas eram milhares. Alguns. Todos em lágrimas. As minhas puxam as tuas, as tuas e as minhas chamam as dele. Como que em rede, todos soluçam. Momentos em que nem um sequer votaria no Deus que as não salvou. A Lígia e a Inês levaram com elas para a cova o lamento do país inteiro, a dor de todo o Baixo Mondego. Em peso, ali. Chorando.

Elas, pelo que eram – novitas, ingénuas, bonitas, cheias de vida e esperança – e pelo que não eram – doidivanas, cabeças no ar, más filhas, más colegas – geraram na região uma tal onda de sofrimento colectivo que mexeu, e mexeu bem, com os peitos mais endurecidos. Onda que provocou, com tantos abraços de solidariedade e incompreensão entre uns e outros, conhecidos e não conhecidos, embaraços emotivos a quantos ali foram – a Reveles e a Meãs do Campo – e aos que por ali andavam. Tinham ido ao funeral? Alguns. Outros foram até lá. Ver, tentar saber, tentar compreender. Foram. Às vezes vai-se sem ir. Mesmo em dias de semana e de trabalho convém levar algures o que não nos cabe no peito: a dor, a incompreensão, o lamento, o reconhecimento da nossa própria incapacidade. Foram. E cedo souberam, se não as circunstâncias da morte, as circunstâncias da partida rumo ao cemitério, agora casa fria das miúdas. Tanta gente a chorar… Tanta gente a não ser capaz de entender. Todos aceitando em silêncio sofrido a injustiça que cala a voz mas não cala a razão. Fica, pois, o nosso Deus a dever-nos, a todos, uma explicação deste porquê. Não impedir uma tragédia desta dimensão – em dor, covardia e sem razão – é imperfeição a mais para um só Deus. Que saiba ao menos minorar a dor daqueles pais, avós e irmãos; que lhes alivie a mágoa que se aloja no peito e nela açapa como carraça teimosa; que lhes explique, mesmo que em sonhos seja, que a natureza se rege por regras onde por vezes a justiça não faz ninho. Que esse Deus, Criador ou Universo se lhe chame, não se resguarde na alegada e infinita pureza da sua existência e deixe de pousar a sua mão, pela calada da vida, no ombro daqueles pais sofridos. Faça-o que não lhe fica mal. Faça-o porque a humildade também fica bem aos deuses.

Que lhe poderei dizer mais, caro leitor, destes funerais tão chorados porque tão sofridos? Que o reencontro com as famílias das jovens – já frias, esfarrapadas na carne que as vedações da linha não pouparam – foi algo de pungentemente comovente, muito próximo do insuportável? Foi. Muito. Não era aquele o regresso prometido, naquela quarta-feira à noite. Mas foi o regresso possível. Eventualmente desproporcionado para fazer ver a outros jovens que não devem trocar ao desbarato a sua inocência pelo entusiasmo. O tempo tem tempo. Espera sempre por nós. É justo que também esperemos por ele.

Uma coisa é certa: aqueles pais nunca mais vão ser felizes, nunca mais vão esquecer. Carregarão vida inteira o fardo da injustiça. Que os alivie a consciência de que as suas filhas não cometeram pecado para tão grande penitência. Perguntem, pergunte-se antes, se estando Deus em toda a parte, não iria e(E)le também naquele comboio. Ficámos a saber que não. Afinal sempre é verdade que Deus às vezes apanha o outro comboio, o que vem lá atrás. Compreende-se agora porque chega atrasado tantas vezes ao seu local de trabalho que é exactamente aí: onde é preciso que esteja. Fosse em Alfarelos, Vila Nova de Anços; fosse Montemor ou Verride… era lá que deveria estar. Até porque tem a obrigação de saber, melhor que ninguém, que pegar na mão de uma criança perdida ou de uma jovem desorientada em percurso errado, é dos gestos mais sublimes com que a natureza prendou o mundo dos homens.

Também eu chorei. Contra o dever de isenção, contra a indiferença feita objectividade, a desfavor do dito rigor emocional. Eu sei disso. Mas quero lá saber… Chorei porque sofri. Sofri porque não entendi. Chorei e sofri porque não tenho no peito a armadura da indiferença.

Um abraço aos pais. Um obrigado à Escola que tão bem se comportou. Um beijo aos colegas e amigos.

À Lígia e à Inês, a última lágrima.

Lino Vinhal