Coimbra  15 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Carlos Albuquerque

A importância dos valores em desenvolvimento económico

15 de Março 2024

Há uns anos, o Rotary Club da Figueira da Foz convidou-me para uma das suas actividades regulares, que incluía uma comunicação minha sobre o tema “As Pessoas nas Organizações” e uma outra parte de debate com questões colocadas pela audiência. A sala estava bem composta, com uma boa afluência de rotários e outras pessoas interessadas no tema. No balanço desta actividade em que pude descrever e prestar testemunho sobre a mais-valia de termos as nossas organizações pessoas motivadas, enquadradas e justamente geridas em função das ferramentas legais de que dispomos. Quando fazia a apologia dos meus colegas, que na altura integravam o Departamento de Obras Municipais e Ambiente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, surgiu um episódio, com uma das pessoas mais inspiradoras, que conheci nos últimos tempos, o meu conterrâneo Dr. Nogueira Santos, Administrador da Celbi SA. A circunstância relata-se em poucas palavras, dado que este rotário, pelas funções que desempenhava na sociedade, tinha um peso muito importante em cada palavra que pronunciava. Pelo seu prestígio pessoal e profissional, uma questão colocada por ele, tinha a pertinência que podem imaginar. Questionou-me então em termos semelhantes a isto: “ Como é que consegue estar a falar assim dos seus trabalhadores, por quem parece ter um orgulho imenso, se a generalidade da opinião pública não tem essa percepção. Pelo contrário, acham que os seus trabalhadores não têm essa qualidade? Gostava de o convidar a promover comigo o eucalipto, que julgo ser uma enorme mais-valia na sociedade, na empresa e também na economia. É que eu tento, mas não consigo afirmar essa ideia, porque as pessoas têm dificuldade em acreditar naquilo que parece ser uma situação bastante desfavorável. Você dava-me um jeito enorme”.

Com a presença na sala, de alguns destes trabalhadores, e com todo o carinho, imenso respeito pessoal e profissional, respondi ao Dr. Nogueira Santos, que se eu conseguisse acreditar no eucalipto da mesma forma que acreditava naqueles trabalhadores, que não haveria nenhum problema em o ajudar onde e quando ele entendesse. Ele entendeu perfeitamente o que eu lhe estava a transmitir e ainda hoje com muita frequência nos encontramos e continuamos a ser amigos e eu tenho nele um extraordinário exemplo de cidadão e profissional.

Mas o que é que esta história tem a ver com desenvolvimento económico? Tudo.

Muitos de nós sabem que a cultura do eucalipto está enraizada no nosso país, com vastas áreas, e que a produção desta árvore encerra nela mesma algumas contradições difíceis de sanar. Por um lado, se a cultura de eucalipto for correctamente executada, com a métrica certa, os cuidados com todos os nutrientes, em especial a água, bem administrados e se tivermos o cuidado de proteger as outras espécies da voracidade do mesmo, temos boas condições para podermos obter algum valor económico num período curto de vida. Normalmente em 7/9 anos, em situações como a descrita atrás, o eucaliptal produz efeitos e gera mais-valias comerciais. Por outro lado, se não fizermos as coisas como deve ser, isto é, se o eucalipto crescer sem preocupações com as espécies que estão à sua volta, todos sabemos que este vai efectuar uma busca egoísta de nutrientes, secando tudo o que está à volta. É o designado “efeito eucalipto”. Existe, ainda, uma outra consequência na cultura dos eucaliptos, que ocorre quando se rega demasiado o mesmo. Diz quem trata destas coisas, que o eucalipto quando é regado em demasia aumenta demasiado rápido de volume e, normalmente, é precocemente utilizado em matéria-prima diversa, acabando por não cumprir verdadeiramente a sua função. Enfim, coisas da natureza.

Em desenvolvimento económico é particularmente importante que as acções decorram sob a égide de valores inequívocos de equilíbrio, seriedade e homogeneidade. A articulação entre todos os parceiros do ecossistema é uma tarefa fundamental. Cada território tem o seu ecossistema, com as instituições intrínsecas, os privados que existem e todos aqueles que o querem integrar. As pessoas e as instituições que integram o ecossistema, não devem ter comportamentos que nos façam lembrar o designado acima, “efeito eucalipto”. Torna-se absolutamente nociva a presença deste tipo de situação e o resultado normalmente não é bom.

Alguns dos valores de quem está nesta área são de partilha constante, resiliência, cumplicidade, capacidade de diálogo, articulação de posições e sobretudo seriedade constante de todos e para todos.

Com excepção da expressão que “o segredo é a alma do negócio”, não há lugar a protagonismo fútil nem o ecossistema necessita dessas coisas. O sucesso é sempre efémero, perante uma nova oportunidade de negócio.

Por isso não há lugar para “eucaliptos hipercuidados” que aumentam de volume precocemente, nem para os “sem regras e falta de respeito pelas outras espécies”.

Em Coimbra, valorizamos muito todos: as instituições públicas como a Câmara Municipal, a Universidade, os Institutos, Empresas Municipais, Incubadoras e Aceleradoras, Associações de Empresas e de Empresários, Privados e todos os que se interessam por este território, seja para investir, trabalhar ou apenas desfrutar.

(*) Doutorando e investigador