Coimbra  18 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Manuel Rocha

A guerra à porta de casa

12 de Março 2022

Nestes dias de guerra no Continente as palavras são como minas. É, por isso, preciso medir cada uma delas, antecipando os vários entendimentos que o que for escrito venha a provocar em quem ler, ou tresler. É o que vou tentar fazer.

A Rússia invadiu a Ucrânia, fazendo explodir, logo no primeiro míssil, todos os tratados que regem as relações entre Estados soberanos. Juntou-se, lamentavelmente, e não foi só agora, ao clube dos países para quem a ingerência é um procedimento natural, apenas dependente do nível de gula e da força militar (ou económica) disponível.

Procuro deter-me na pouca memória que reuni no tempo em que o meu país cumpria todos os requisitos de uma ditadura a sério: polícia política, proibição de partidos, presos políticos à margem de qualquer sistema de justiça, subdesenvolvimento económico e cultural, censura, repressão de movimentos reivindicativos, proibição de greves e manifestações, política colonial a enquadrar uma guerra dizimadora da nossa juventude. Um país da NATO, assinale-se. Estou capaz de garantir que nenhum dos antifascistas mais reprimidos daquele tempo terá desejado que a democracia em Portugal se conquistasse através de uma invasão, fosse de quem fosse. Os Estados são de quem lá vive, e só esses são capazes de movimentar a História nos vários sentidos para que a correlação de forças conduz os destinos. Sempre que houve intervenção estrangeira, o que restou da saída das tropas foi o ódio contra os “libertadores” – todos.

As invasões só doem aos invadidos. Já as emoções do público em geral dependem quase só das chamadas “narrativas” mediáticas, capazes de angariar adeptos de uma invasão, do mesmo modo – e com os mesmos argumentos – que fabricam abominadores da invasão do ano seguinte. Por isso é que as reações das “opiniões públicas” à guerra dependem mais da mensagem do “seu” guerreiro do que da urgência em evitar vítimas. A verdade é que tenho visto pouca gente indignar-se perante a escassez de iniciativas promotoras da paz, do cessar-fogo. Em contraste, é feroz a animosidade que se abate sobre os que, como eu, consideram que a invasão da Ucrânia é “apenas” um episódio numa confrontação mais geral entre a Rússia e os EUA.

As redes sociais converteram-se num campo de batalha alternativo: há raiva – ódio até! – à solta nos “murais” ainda há pouco pejados de “gostos”. Acolhe-se ali algum contraditório, divulga-se alguma imprensa escrita cada vez mais encurralada pelo “fogo” da televisão. Mas não é fácil, nas “redes” como em qualquer lado, distinguir a verdade da mentira. Com efeito, o cidadão bem-intencionado orienta-se mal num mundo em que a informação é usada como arma letal (como no caso, desmentido tarde demais, das “armas de destruição em massa” do Iraque); e argumento de ampliação da guerra (como no caso do bombardeamento, logo desmentido, da central de Zaparojets). Há imagens da TV capazes de converter em superficial emoção, em aviltante banalidade, aquilo que não passa de um crime contra a Humanidade no quadro real de crianças ucranianas empunhando armas.

Nem todos vemos o mesmo quando olhamos para o ecrã. A mim condoem-me as imagens de destruição das ruas que percorri na Kiev e na Kharkiv ainda inteiras. E as imagens (que só circulam nas redes sociais russas e ucranianas) de prisioneiros russos e ucranianos convertidos em troféu, obrigados, à vez, a vitoriar o inimigo. Como também me condoí nas ruas de Sarajevo e nas estradas da Bósnia ainda em guerra. E fui solidário com a angústia da minha colega Rim Banna, quando (longe de casa) soube que o seu irmão de 15 anos tinha sido preso pelo exército israelita. Custa-me, por isso, compreender solidariedades-inflamadas-de-momento, muito mais disponíveis para o ódio que fomenta a guerra do que para exigir aos “nossos” políticos o abandono de posições que acrescentam fogo ao fogo. No barulho da azáfama mediática talvez seja difícil perceber as vozes que, todos os dias, clamam pelo alargamento da guerra. Queremos mesmo que esse dia chegue às nossas vidas?

(*) Eleito da CDU (PCP) na Assembleia Municipal de Coimbra