Coimbra  7 de Outubro de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A grande decisão

14 de Janeiro 2022

Aproximadamente metade dos portugueses vai ignorar as eleições legislativas a 30 de Janeiro, optando pela abstenção, invectivando os políticos e as forças políticas de todas a cores e feitios, desiludidos com a sua situação pessoal e a não satisfação das suas necessidades ou tão simplesmente as suas pretensões de ascensão.

Quem se abstém claramente faz mal, pois embora se compreendam as suas desilusões, demitem-se da acção cívica, deixando para os outros as suas decisões, remetendo-se ao seu labor e circunstância, à (falsa) sensação de protecção e segurança da sua família, à crítica de desdém a tudo o que mexe, enredados numa redoma de vidro.

Não há ídolos na política, embora uns sejam mais iguais que outros, tal como não há beneméritos que ofereçam almoços grátis, nem cai uma chuva de dinheiro fácil ou euromilhões de ilusões. Mas há opções que os cidadãos têm à sua disposição, e políticos a quem podem cobrar as promessas, os slogans e as ideologias, o seu dizer cumprindo e o seu fazer fazendo, o que querem ou não querem para si e para a comunidade.

Há uma opção de esquerda, em que que se luta pelos direitos humanos (nada é dado e arregaçado, tem definições e custos assumidos), em que se tomam medidas pelo desenvolvimento sustentável (vide os programas de combate à pobreza, à exclusão social e às alterações climáticas), em que a saúde, a educação, a justiça e a segurança social não são para extinguir ainda que muito custem a promover.

Para quem menospreza o conceito de esquerda, que se lembrem da política socialista dos últimos 6 anos, que combateu a pandemia, e ainda valorizou a economia, apoiou as empresas, os trabalhadores e as famílias.

Há uma opção de direita, em que se apoia os favorecidos da banca e do mundo dos salões e corta nos direitos do mundo laboral, em que se marginaliza os desvalidos, minorias e etnias para ghettos de segregação, e que tem uma concepção de riqueza elitista e não distributiva (a pretexto da produtividade) que não é apanágio do trabalho, da qualidade de vida e da dignidade da pessoa humana.

Para quem desvaloriza as palavras e actos da direita, que se lembrem da troika, de Passos Coelho além da troika e dos cortes nos salários e pensões que deveriam “ser permanentes”, dizia.

À esquerda e à direita

À esquerda e à direita, há várias alternativas de configuração ideológica internacionalista, de radicalismo que não é apenas a raiz das ideias, mas é intransigência ou extremismo, é conciliação por interesses pelo povo ou em seu nome, é ânsia de poder que pressiona o decisor para substituir os programas, os projectos e os planos de acção, pelos seus cadernos de intenções de fantasia e quimera.

Verdadeiramente, nas próximas eleições legislativas, a opção de Governo daí resultante, é entre o Partido Socialista e o PSD enquanto forças políticas, entre António Costa e Rui Rio enquanto líderes para decisão e poder democrático, entre a esquerda de confabulação, progressista, inovadora e intergeracional, e a direita de primarismo sectário, de grupos de pressão, lobbys e trust variados, de retorno à vida que não vai para além do défice.

As outras forças políticas, conquistaram o seu espaço e o direito de expressão ideológica (a esquerda revolucionária que não passou de um mundo de canções, e a direita reaccionária que se aproxima do trauliteiro não venial), mas para todos os efeitos, não têm a adesão massiva da população nem representam a cidadania do mundo em equilíbrio, expurgado de ilusões dos amanhãs que cantam ou via renascentista de nacionalismos e desigualdade com perversões.

Sou pela esquerda e revejo-me no Partido Socialista como partido de esquerda, não rejeitando o pluralismo das várias concepções de esquerda que terão o seu lugar em conciliábulo democrático, mas considero o voto (útil) no Partido Socialista como uma necessidade para o desenvolvimento de Portugal moderno, europeu e solidário, para derrotar a direita perigosa e destrutiva dos direitos conseguidos, para que o País não esteja sujeito a nova rejeição irresponsável de orçamento e queda de governo, e para aceitar os contributos viáveis da outra parcela da esquerda “en su sitio”.

A grande decisão, é evoluir no progresso ou retroceder nos direitos, ser pelo Estado social ou pelo elitismo desbragado, ser por uma sociedade humanista ou pelo liberalismo oportunista e egoísta.

Cada eleitor e eleitora formulará o seu juízo, donde resultará a sua decisão, não se podendo queixar se desistir de participar e entregar o ouro ao bandido por omissão, ou por opções irrealistas, enganosas ou casmurras. Acreditamos no povo de Abril, na geração dos filhos da madrugada e nos neófitos vindouros qualificados, irmanados, humildes, altruístas.

(*) Médico