Coimbra  23 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

A fé inabalável na Senhora, a de Fátima

13 de Maio 2019

Fátima

 

Fui, faz uns 40 anos, a Fátima, a pé, com a minha saudosa mãe.

Saímos, de Coimbra, no dia 09, por volta das 11h00. Chegámos a Fátima, ao Santuário, no dia 12, cerca das 17h00. Andámos bem, mas sem puxar muito. Na primeira noite dormimos antes de Pombal. Na segunda, na Caranguejeira. Éramos um grupo pequeno, uns 10. Só dois homens. Eu e o marido de uma colega da minha mãe.

Ela era uma devota da Sra. de Fátima, mas não era, no dizer do amigo e mestre cónego Urbano Duarte, uma fatimeira. Revelando esta forma de Urbano adornar os peregrinos ao fenómeno desse espaço dedicado a Maria, diria: alguns vão numa espécie de excursão pelos caminhos que conduzem a esse local que a Igreja Católica associa à aparição, a três pastorinhos, da Mãe de Jesus.

Vão aos magotes. Em alvoroço. Em desconexão com o sentido que os leva a ir. Em barulheira. Em acto festivaleiro. Em passeata. Em romaria de Santo milagreiro…

Ora, uma peregrinação deve ser um tempo de caminho em silêncio, em interioridade, em introspecção, em penitência, em oração e com muita devoção. Se acertados alguns votos pessoais e dos que nos acompanham deve ser, também, um tempo de nos reconciliarmos connosco, de reflectirmos na e sobre as nossas vidas, de pedirmos perdão – interiormente – por alguns actos e palavras menos justos para com o nosso semelhante, de reconstruir-mos o coração, de renovarmos a alma, de nos aconselharmos com Maria e de, reconfortados pelas forças para caminhar até ao destino, onde nos vamos recolher, abrirmos mais etapas para a vida.

Minha mãe caminhava sem uma palavra e de terço na mão. Rezava, interiorizando as suas derrapagens de vida, as suas penitências e a sua renovada esperança de se tornar melhor, mais humana aos olhos dos outros e mais capaz, como o fazia, de distribuir sorrisos, abraços, beijos e afectos, para fazer os outros felizes e para lhes espantar os males. Sabia amar. Dava-se. Transmitia paz. As suas palavras, de mel doce, apaziguavam e transportavam luz.

Foi, e durante 14 anos seguidos, a pé a Fátima, sempre a 13 de Maio, para se encontrar com a sua Sr.ª de Fátima.

Sabia peregrinar, a minha bondosa mãe. Sabia ser reflexo da Mãe do seu amado Jesus, o filho do nosso Alto.

Chegámos, como disse a 12, ao final da tarde de Maio. Encostámo-nos, por um pedaço, antes de entrarmos no recinto para descansar o corpo e lhe dar vigor, bebendo água e comendo uma maçã, uma banana e um pão com marmelada. Lembro-me como se fosse hoje. Em frente daquele enorme espaço, olhei para o firmamento, primeiro, para bendizer o ter ali chegado sem uma dor ou um achaque… Voltámos a caminhar para chegar mais o que pudéssemos, junto da capelinha das Aparições. Minha mãe olhou-me. Dos seus olhos escorriam lágrimas, numa mistura de alegria e de exaustão. Olhou-me e acenou-me, em sinal do dever cumprido. Do dever da fé na sua Senhora. Ajoelhámos. Orámos os dois em surdina. Recordo-me de ela, à página das tantas, dizer: “Minha Mãe Celestial, quero agradecer-te nos teres trazido até aqui com o que mais prezo, este meu filho. Do fundo do meu coração pecador, peço-te por ele, pela sua vida e livra-o dos males e protege-o. Entrego-o a ti, minha caridosa e bondosa Mãe dos Céus, Amén”.

Olhei a minha mãe. E, acto instantâneo, agarrei-me a ela, abracei-a e enchia de beijos. Ela, em amor fidelíssimo, agarrou-me na cabeça e fê-la tombar num dos seus ombros. Beijou-me várias vezes a nuca. Chorámos, mas ficámos aliviados.

Sentámo-nos e ficámos até à procissão das velas. No outro dia, o 13, assistimos à missa. Não havia mar tão chão como o daqueles milhares e milhares de fiéis que, e em silêncio de sepulcro, ouviam a Palavra de Deus. No final, aquando da procissão do adeus, minha mãe soltou mais umas lágrimas, acenando com o seu lenço branco à Senhora de Fátima, rezando: “Minha querida Mãe Celestial dá-me forças para continuar a minha caminhada e para, em humildade humana, espalhar a luz da tua felicidade, amizade e amor. Que me faças um farol da tua presença que é, como o amor de Mãe, uma força que nos rega o interior e nos salpica a vida”.

Cumprida a peregrinação, voltámos para Coimbra, para casa.

Silêncio no regresso.

Já em casa, agarrei-me, e de novo, a minha mãe para lhe segredar (já tinha 20 anos): “Querida mãe, quero agradecer-te por este tempo de oração e devoção à Sr.ª de Fátima. Retemperei-me. Percebi a tua fé. Vejo-te como uma lutadora e, também, como uma vencedora da vida, tu que tanto sofrestes para vingares como filha, mãe, mulher, esposa e profissional. Tenho-te imenso respeito”. Acerquei-me dela e dei-lhe dois beijos. Ela voltou a agarrar-me para me dizer: “Orgulho-me de ti. Sei quem és. Conheço-te, por dentro e por fora. Não te acanhes. Segue em frente e serve os outros. Nunca te sirvas. Nunca te deixes levar por palavras que possam destruir ou maldizer. Respeita para seres respeitado. Dá as mãos aos mais desprotegidos e deserdados. A tua palavra e os teus gestos podem acudir, ajudar os que sofrem e querem aprender a serem amados e a amar, assim como a chegar à felicidade. Adoro-te, meu filho”.

A minha mãe foi isto e muito mais que nunca direi a ninguém…

A minha mãe tinha uma fé inabalável, como tantos milhares o têm, na Senhora, a de Fátima. Não foi fatimeira, mas adorou à sua maneira a mãe de Jesus, personificada nessa Imagem do Altar da Cova da Iria.