Coimbra  28 de Fevereiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

A eutanásia, aqui e agora?!…

3 de Fevereiro 2021

Eis uma reflexão tardia sobre um tema que já tratei no livro “Nos Bastidores da Medicina – Reflexões autobiográficas” que nunca pensei escrever, de Abril de 2019. Mas esta é, por certo, uma reflexão muito oportuna, com a aprovação da eutanásia a ocorrer no preciso momento em que Portugal batia recordes de mortalidade… assim se ferindo consciências e se levantando sérias reservas sobre a sensibilidade e bom-senso do conjunto da AR.

Chumbada a eutanásia em 2019, após transviada polémica, defendi então que era “deprimente a realidade portuguesa ao enfrentar questões ditas fraturantes”. E, recordando o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmei até que “o obscurantismo sempre recorria a falácias para chumbar as posições mais desenvoltas, que só eram aprovadas em segunda chamada”.

“Livre de espartilhos de natureza religiosa ou política”, soltei então o debate com uma “evidência”: “se é certo que ninguém nos ouve no acto em que nascemos, também o integral reconhecimento do direito à vida pressupõe que qualquer ser humano possa presidir à sua própria morte. Se o próprio, em plena consciência dos seus actos, deseja morrer, com que base racional ou moral a sociedade o pode impedir”?

E era somente quando um ser humano queria “desaparecer e já não podia”, que eu aceitava a eutanásia. E até acrescentei que “os demais casos não fazem parte do lote e cada um tenha a coragem de assistir à sua própria morte, pois não compete à Medicina suicidar gente cobarde”.

Fora de teatros de guerra, eu nunca seria capaz de “executar” ninguém. No entanto, embora recusando praticar a eutanásia, não nego esse direito a quem, porventura mais corajoso do que eu, aceite exercer esse ancestral ato de misericórdia.

E como podia sair deste registo se, no cristão Portugal em que nasci em meados do século passado, e depois de ministrada a extrema-unção, ainda se apelava ao “abafador”, uma figura hoje sinistra, mas, que perante a bênção divina, era chamada a sufocar a agonia dos moribundos?

E apenas manifestei uma limitação de ordem ética: que tais atos não fossem remunerados. Rejeitava então, como ainda rejeito, a exploração de “clínicas da morte”.

A lei entretanto aprovada é muito mais “generalista”, mas ainda assim convida a repetir uma história verdadeira:

Um dia, o P, um dos amigos mais lúcidos e corajosos que tive a felicidade de conhecer, pediu-me que intercedesse junto do seu cirurgião para, em tudo ou nada, lhe extirpassem as metástases de um tumor maligno. Operação que foi recusada, sob o argumento de que as boas práticas da especialidade já nada aconselhavam.

Sem esconder a revolta por não morrer em combate, o P faleceu três meses depois. Nos últimos dias, retido no leito em que o recolheram, já não vivia e apenas assistia, impotente, aos cuidados com que iam protelando um beijo da morte inglório, miserável e cruel.

Evitei visitá-lo então, por bem saber o doloroso pedido que me faria:

– Amigo! Dá-me qualquer coisa e acaba com este sofrimento.

Ainda discuti essa inquietação com um colega de juventude que, comigo e com o P, integrava uma “tertúlia de intelectuais” no nosso velho bairro. Igualmente médico, mas mais conservador, dúvidas não lhe restavam de que todos os procedimentos haviam sido cumpridos e que qualquer cirurgia iria contra as regras.

Contudo, nem sempre um médico tem de fazer tudo certinho, como vem nos livros. Sinceramente, ainda hoje não sei se não teria sido mais “humano” arriscar uma intervenção talvez inútil, mas que a determinação do P exigia. E quem pode assegurar que não teria sobrevivido mais tempo e de pé, naquele derradeiro combate da sua vida?

Também na diálise, ao cuidar de centenas de doentes em vida vegetativa, muitas famílias me solicitaram a suspensão de tratamentos que só estavam a protelar mortes inevitáveis. Posso afirmar que nunca tais pedidos, se passados a escrito, esbarraram com a mínima objecção ou mesmo comentários negativos por parte das centenas de excelentes profissionais que comigo colaboraram.

A aprovação da eutanásia ficou em suspenso, desde 2019, devido ao estridor de “petardos” cruzados: numa trincheira, as autoapregoadas “forças do progresso”, peritas em radicalizar discursos e assim ocupar espaço; na outra, o embuste conservador, igualmente interessado em arrastar polémicas que possam concitar atenções e votos.

E desta “querela” entre gente extremada, e que nunca olhará a meios para atingir fins, o que ainda transparece numa opinião pública desinformada? Que, com o beneplácito dos políticos e até para reduzir despesas, a missão dos médicos balança entre salvar vidas ou andar pelos lares a pôr fim aos mais trôpegos.

Não vamos perder mais tempo com questões quase pacíficas dentro da comunidade médica e que nem merecem discussão. Mas não deixa de ser macabro que, perante uma catástrofe que levanta tantos problemas urgentes a resolver, a AR tenha optado pelo agendamento e aprovação da eutanásia.

E depois, com mensagens desta qualidade, ainda há quem se queixe das sondagens…

(*) Médico jubilado e cidadão escritor