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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A eloquência não é jactância nem expressão de ódio

4 de Novembro 2022

As redes sociais são um meio relevante para análise de ideias, sentimentos e acontecimentos, expressas por convicções profundas, por interesses próprios, ou por vontade de afirmação, de confabulação ou de maledicência.

Aí se encontram as mais diversificadas formas de comunicação, com objectivo pré-definido, procurando dar a conhecer uma opinião sobre o mundo global ou sobre o cão e o gato, divulgar um negócio de ocasião ou uma oportunidade de exteriorização, influenciar outrem para a sua causa, legítima, mas nem sempre rigorosa e isenta de falácia.

As ideias que são apresentadas nem sempre admitem contraditório, as opiniões em cadeia podem ser enviesadas por concepções intransigentes, por motivações diferenciadas e obscuras, por recalcamentos adquiridos ou por desejo de destruição.

Os sentimentos são expostos em relação à vida política, às preferências clubísticas desportivas, ao exercício profissional e à vida pessoal e familiar, desde situações decorrentes de emoções que ajudam a ultrapassar situações de crise (seja por tristeza ou alegria), até a alguma falta de decoro com exibição de pessoas e bens, geradoras da coscuvilhice, má fé ou efeito de ricochete.

Os acontecimentos são descritos e comentados, de forma precisa ou manipulatória, relatando factos e interpretações diversas, consoante a visão do autor, em exercício democrático, por vezes substituindo a verdade pela mentira, sonegando pormenores esclarecedores que não beneficiam quem proclama, ou carregando naqueles que querem atacar, para obter dividendos.

As pessoas de boa fé encontram nas redes sociais uma forma de maior integração na sociedade, via conversação estrutural (conhecimento a aprendizagem) e metodológica (texto longo ou curto), diálogo interpares ou externo, mensagem oportuna, comunicabilidade em amizade e relação de proximidade.

Mas também há os comentadores profissionais que opinam sobre tudo e sabem quase nada, os desleixados que dão pontapés na ortografia e na gramática da língua portuguesa (sem cuidar do corrector ou do Dr. Google), os destacados para dizer mal de tudo o que mexe e que não é a seu favor, os propagandistas facciosos e sectários considerando que quem não é por mim é contra mim, e até os que não usam as redes sociais por saturação, desinteresse ou desajustamento ao seu perfil.

A eloquência de Demóstenes, que prezamos, está em crise, em tempo de verborreia e demagogia, de manipulação e deturpação, de aviltamento e insulto, de embuste sem corar e depredação a lucrar. De não olhar a meios para atingir os fins, de subir a troco seja do que for, de descer com ardil e perversidade, de matreirice contra o mérito. De verdade simulada, de mentira descarada, de falsidade que cola, de ignorância disseminada. Tudo isto é transversal à política, à sociedade e à vida.

As redes sociais também servem para a jactância, no sentido da arrogância impenitente, da fanfarronice por bazófia ou parlapatice e da soberba por auto-estima exacerbada, e servem ainda para manifestação de ódio, por intolerância a quem contradiz ou verbaliza oposição, por raiva de quem tem antecedentes traumáticos de stress, ou por aversão a figuras ou comportamentos não subscritos.

A eloquência não é jactância nem expressão de ódio, não merece hostilidade, desconsideração, inveja ou agressão, e deve ser uma retórica digna nas redes sociais, enquanto livre expressão do pensamento, exercício da cidadania e respeito devido à pessoa enquanto ser humano.

(*) Médico