Coimbra  19 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

A democracia ética e o anti-OE

19 de Novembro 2018

Os escândalos somam-se; é no futebol, na política e na banca. E com eles, com a cabeça de fora, está quase sempre a perversidade comportamental da corrupção.

Estes cenários, levam cada vez mais eleitores a questionar a ética dos que têm por missão a defesa do interesse público, gerando, com isso, uma acentuada fragilização do nosso sistema político.

E, para mim, este seria o debate onde ninguém devia querer ficar atrás de quem quer que seja. A falarem e a agirem em conformidade, porque esta lepra moral não existe só na esfera pública, estendendo-se à nossa vida colectiva.

Será que os eleitores andam distraídos e não cumprem com o seu dever de escrutinadores dos que, eleição após eleição, eles vão elegendo?

Aristóteles dizia, já lá vão tantos anos, que há dois tipos de políticos: um, que, só e só, quer a defesa do interesse público e o outro relacionado com aqueles que, maquiavelicamente, vêem a política como a detenção do poder onde tudo é permitido para o conservar, até vender a alma ao diabo…

Perante isto, é preciso uma grande pedagogia em várias direcções, para que a política e a ética possam criar relações saudáveis e resistir aos que só querem medrar à custa das más práticas.

Basta pensar em casos recentes resultantes da gestão de mordomias que existem, por exemplo, na Assembleia da República, para ver que algo vai mal no Reino da Dinamarca.

Ora, um Parlamento que não anda de braço dado com a ética perde, perante os cidadãos, toda a sua autoridade moral para poder ser referência, porque não há legitimidade em uma qualquer política que não tem a ética como horizonte.

Ela é inseparável da política e da esfera da vida pública, dos pequenos aos grandes momentos.

Acentuava alguém que a ética é política, ou não será ética, e deve ser também moral, enquanto conjunto necessário de princípios das acções individuais, que assentam as suas referências nas ideologias da igualdade económica e da justiça social. Chamem-se os protagonistas como se chamarem, sejam de qual partido forem.

Ninguém com responsabilidades políticas ou cívicas pode ser condescendente com entorses no desempenho da açcão política. Todos esperamos que aqueles que têm nela especiais responsabilidades não assobiem para o lado e digam presente, reforçando, com isso, a maturidade e a capacidade de chegar ao tutano do eleitorado.

E esta melhoria não passará por maiorias absolutas. Seguramente, apesar de a campanha estar já em marcha.

O Bloco de Esquerda ao assumir-se, no seu Congresso, como travão à maioria absoluta do PS, está a dar o primeiro passo e um grande empurrão ao fazer interiorizar, em muito eleitorado, essa possibilidade e, pior ainda, ao dizerem que só há impossibilidade de tal acontecer através do voto no BE. O Partido Socialista agradece, claro.

É certo que o PS está a ir por um caminho que o pode vir a penalizar nas próximas eleições.

As promessas obscenamente não cumpridas, como é o caso quanto aos professores, dos combustíveis, da energia, do investimento público e suas dramáticas consequências na educação e na saúde, etc, etc., são um atentado à memória e à normal inteligência dos cidadãos.

Mas isso só terá efeitos na contabilidade eleitoral se o actual maior partido português em representação parlamentar (PSD) for a votos com as propostas certas, indo para a rua, entrar na casa e nos problemas concretos dos portugueses, medindo a sua qualidade de vida e a forma de a melhorar.

E ir sempre de céu limpo, seja nas eleições para o Parlamento Europeu, nas legislativas ou nas autárquicas.

Mas para além de um programa cheio e sustentado na área social, que venho defendendo, há uma abordagem que nenhum partido aspirando a liderar o próximo Governo pode ignorar: o reforço da dimensão ética da nossa democracia, que tão agredida tem sido.

Os cidadãos eleitores devem fazer as suas escolhas nesta área e afastar todos os que optam por um jogo político em que vale tudo, pondo à frente o manobrismo, subalternizando as convicções e princípios.

Há muito a fazer em termos de pedagogia política nesta área, porque não se pode deixar para trás o diálogo crítico e reflexivo entre a política e a representação, sacrificando tudo às clientelas, aos grandes grupos sociais fáceis de seduzir num contexto onde os salários são muito baixos e a precariedade continua a medrar. (Na Função Pública, 25 por cento dos trabalhadores recebem o salário mínimo).

Ora, para quem vai a jogo e quer ser alternativa de poder, o tempo começa a escassear.

É preciso definir objectivos, limpinhos, limpinhos; é preciso ir direito a eles através de passadas bem medidas e, sobretudo, bem comunicadas.

Para que não restem dúvidas, espalhando elementos comunicacionais, tipo preto no branco, para não dar espaço a que a famosa máquina governamental venha a terreiro, com a sua conhecida habilidade, afectar e fragilizar os melhores propósitos.

Estamos num contexto que pode ser uma grande oportunidade perdida para Portugal, face a um Orçamento do Estado (OE), manhoso como já lhe chamaram, que aponta para um lado e vai para outro, enchendo o peito com o crescimento, mas silenciando que há mais de 20 países que cresceram acima de nós na Europa.

Apetece lembrar ser gorda apenas a receita fiscal, que atinge os 1 500 mil milhões de euros à custa da falta de memória das medidas de neutralidade nos combustíveis, dos professores, dos novos hospitais, do pessoal na educação, da actualização dos limites do IRS à taxa de inflação, etc.

Repetindo o sábio povo: diz-me o Orçamento que fazes e dir-te-ei o Governo que és.

Para mim, com frieza, considero-o um anti-orçamento a reflectir caminhos pelos quais politicamente tenho dificuldades em ir.

(*) Ex-vereador do PSD na CMC