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Semanário no Papel - Diário Online

 

Victor Baptista

A decisão

14 de Dezembro 2023

Os socialistas não podem esquecer a Declaração de Princípios do Partido Socialista como congénito defensor da democracia e interventor na procura, no quadro do socialismo democrático, da solução dos problemas nacionais e da resposta às exigências sociopolíticas do mundo contemporâneo.

Somos herdeiros e representantes do grande movimento social e político que a partir do século XIX liderou a luta por sociedades mais justas e solidárias. Uma luta desenvolvida na frente ideológica, sindical e política, determinante para a fundação e consolidação das democracias contemporâneas e a consagração dos direitos sociais.

A raiz do nosso PS está inequivocamente ligada a esta matriz original, que consideramos fundamental e fundamentante. O PS nasceu e cresceu na luta contra o fascismo e na consequente luta pela instauração de um regime democrático.

Não poderemos esquecer que na Declaração de Princípios, muitas vezes ignorada, a história do PS assenta na resistência à ditadura e na defesa de uma democracia pluralista e socialmente avançada.

A liberdade, apesar dos atropelos de circunstância, foi, é e será sempre o elemento essencial do combate por uma sociedade mais solidária, mais justa e fraterna, mais igualitária e coesa.

E o pluralismo das ideias e opiniões foi, desde sempre, a marca e a característica distintiva do funcionamento e da ação do PS, bem como o projeto que defende para a organização política e social de Portugal e da União Europeia.

Muitas vezes, os atropelos, as omissões e os esquecimentos são tais que parece que o PS não tem história. Não. O PS tem história.

E é, justamente, toda a história e todo o património do PS, a nível ideológico, político e cívico, que convocamos para iluminar o presente e enfrentar o futuro.

Não nos podemos esquecer do combate ao totalitarismo, seja de direita ou esquerda. O socialismo democrático é a causa política em que se reconhece o PS, e nós com ele, entendendo-o como herdeiro de tradições humanistas acumuladas na consciência universal ao longo dos séculos.

Alguns esqueceram que, para o PS, o socialismo democrático, a social-democracia e o trabalhismo designam uma mesma grande área política, a da esquerda democrática. E é nesta linha orientadora que o PS concebe o horizonte de uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária, sempre no constante aperfeiçoamento e desenvolvimento da democracia.

Vivemos um tempo de escolhas internas, a “gastronomia” exige paladar, uns apreciam o sal, outros menos sal, mas o importante é a satisfação de todos e de cada um de nós. O comboio sob o comando do maquinista há muito estava em andamento, alimentado da jovem esperança de muitos passageiros, que foram construindo o sonho do prometido destino. Até agora, o percurso só foi possível porque tem ao comando, um bom maquinista, que soube lubrificar e alimentar a máquina. E uma máquina em andamento, pesada, tem de ser evitada, no percurso sempre existem apeadeiros e estações a permitirem a mudança de linha.

Não serei o único, por vezes temos medo de enfrentar um polícia, outras vezes somos capazes de enfrentar exércitos. O medo, coisa sentida, reação natural do corpo, faz parte do instinto de sobrevivência, também sentimento de receio, só pode ser ultrapassado com coragem.

A coragem, a capacidade de agir, não significa a ausência do medo, mas sim a ação apesar deste. E o contrário da coragem não é mais do que covardia. Sempre tive atração por gente corajosa, resiliente, capaz de derrubar obstáculos, no respeito pelas regras e valores da democracia, na defesa da humanidade e da República, sem esquecer que a ação de um artista é fazer a sua obra. Não há artista sem obra, alguns até pensam que têm obra e não deixam mais do que uns escombros.

Temos de contrariar a violência da luta, nas suas diversas vertentes, que em diversos locais do planeta, diariamente nos entra porta dentro. Temos de afastar a vontade de mesquinhar, de morder. Precisamos de amor, de fraternidade, de justiça, de liberdade, que não têm mascara. Há dias ouvi o grande poeta português, o Manuel Alegre a dirigir-se a Pedro Nuno Santos invocando valor maior da democracia, a liberdade, mais importante que ganhar eleições internas e legislativas.

A democracia, a liberdade, não pode estar em risco, e é em nome dessa liberdade que tomamos em cada momento as nossas próprias decisões. Tomar decisões não é estar contra ninguém, é não ter receio de decidir, é escolher em liberdade o caminho que nos parece mais adequado em cada momento para o PS.

Estou certo, uma surpresa para alguns amigos, junto-me a Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza e tantos outros no apoio a Pedro Nuno Santos, gente de liberdade, com percurso comum e de coragem.

(*) Militante do PS