Coimbra  4 de Julho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Catarina Isabel Martins

A Cidade dos Estudantes… sem Estudantes?

14 de Junho 2020

Ora vamos lá imaginar Coimbra, cidade dos Estudantes, sem esses mesmos estudantes… Não será muito diferente de um eterno mês de Agosto, em que a cidade se esvazia, ficam alguns habitantes, passam, rapidamente, alguns turistas, e o marasmo se instala. Quem fica, anseia por Setembro, o regresso às aulas, o momento em que ruas e praças tornam a ficar habitadas, há movimento, convivialidade, afinal, aquilo que faz uma cidade.

É sabido que não alimento alguns dos mitos de Coimbra, em particular desde que a praxe e as festas académicas se converteram em exageros com dimensões nocivas, que cumpre combater, mas que não constituem, o foco da minha reflexão. E este foco é a cidade de Coimbra, a sua identidade, e a sua formação de comunidade centrada na Universidade. Se há exageros nas festas de estudantes e nas noites estudantis, o convívio e a diversão são uma parte saudável e necessária da vida da juventude, faz parte da sua formação social e, em muitos casos, é central à troca de ideias e à formação de pensamento, à fruição cultural e desportiva, não só da comunidade estudantil, mas da cidade. É daqui que nasce a Coimbra do pensamento e do activismo resistente.

Coimbra não tem tecido social sem esta população académica. Não terá economia, sem as instituições do ensino superior e tudo o que em torno delas gravita. Deixará de ser a cidade do conhecimento e podemos esquecer a capital da cultura. O mais provável é uma estagnação da qual jamais recuperaríamos.

Imaginar esta situação não é invocar uma distopia longínqua da morte de um lugar. Talvez seja algo exagerada – mas um exagero necessário para compreendermos o absurdo que já se projecta nalgumas cabeças com capacidade de decisão: o Ensino Superior Pós-Covid como dominantemente não presencial. Já li de tudo: a modernização das novas tecnologias (mas não do pensamento crítico), os estudantes-clientes que se pode captar vendendo diplomas à distância, que não há razões para que cursos “de papel e lápis” (quais são eles, senhores?) não possam ser ensinados à distância.

Enquanto Professora na Universidade de Coimbra desde 1993, passei, nos últimos meses, pelo período mais difícil de exercício da minha actividade profissional, tal como os/as meus colegas. Por necessidades sanitárias, que compreendemos, assumimos tarefas que revelaram, sobejamente, a impossibilidade real de fazer formação efectiva através de um ecrã de computador. Não há pedagogia que substitua a presença, mesmo que o ensino à distância – quando bem feito e preparado – possa ser solução cabível em determinadas situações pontuais. Não preciso de referir a surrealidade das provas de doutoramento online ou da avaliação que estamos a fazer, em estilo big brother, sob um regime de controlo autoritário que nunca conhecemos, que revela desconhecimento da própria universidade, e total descaso pelas desiguais condições em que trabalham docentes, funcionários/as e estudantes.

Mas foquemo-nos no pós-Covid. Não sabemos quando virá e as previsões oram indicam numa ora noutra direcção. Porém, há quem tenha certezas: as de que o futuro do Ensino Superior será virtual. Não o digo eu. Diz o reitor da Universidade de Coimbra, numa vertigem de pioneirismo e de “modernização” que o simples bom-senso da sabedoria popular devia servir para refrear: “não colocar o carro à frente dos bois”. Reflictamos a partir da cidade: Que consequências terá para Coimbra a vertigem do virtual, a transformação da Universidade de Coimbra, o mais possível, numa instituição de formação à distância, de investigação focada apenas na encomenda imediata, destruindo, no fundo, a comunidade universitária, com professores, estudantes, actividades de ensino e formação, pesquisa alargada e de ponta, criação e dinamização cultural? Desrespeitando um património de 800 anos, esta visão curtíssima diminui a Universidade: um colectivo que pensa a sociedade, a analisa, e propõe soluções amplas para os fenómenos sociais, regista a sua memória e participa na criação de futuro. Equivale, também, à redução da Universidade a mais uma instituição industrializada de venda de diplomas que, afinal, em linha, podem ser comprados em pacote a partir de qualquer parte do mundo. Significa a destruição da comunidade que dá vida a Coimbra, que a torna viva e cosmopolita, que adensa o seu tecido social, que faz mexer a economia, que, com maior ou menor concretização, constituiu sempre a matriz identitária e o cerne a partir do qual se pensou e pensa o presente e o futuro da cidade: o conhecimento e a cultura. Se eu puder ser professora, estudante ou pesquisadora na UC a partir de qualquer lugar, o que me fará vir a Coimbra, residir aqui? O que acontecerá aos CHUC, afinal hospital universitário, e outro polo empregador e vital para a cidade? O Ministro do Ensino Superior apelou ao regresso às actividades presenciais, aqui mesmo em Coimbra. Há condições para isso. Não se entende, pois, a autocracia reitoral a coberto de um clima de medo.

Imaginemos a cidade dos Estudantes sem Estudantes. O projecto está em curso. É importante que não avance. Mesmo sem mitologias, uma serenata à janela e com 1,5 m de distância social ainda não é o mesmo que uma serenata em livestreaming. E é pela sobrevivência de Coimbra que estaremos, efectivamente, a lutar. A palavra à comunidade universitária, à cidade.

(*) Professora Associada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, investigadora do Centro de Estudos Sociais, membro da Comissão Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda/Coimbra