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Semanário no Papel - Diário Online

 

Luís Santos

A causa das coisas

17 de Novembro 2016

Num tempo em que muito se fala do triunfo de ideias populistas e se constata o progressivo alheamento das pessoas em relação à participação na vida política, nomeadamente com níveis elevados de abstenção em actos eleitorais, procuram-se algumas respostas para que isto aconteça.

Vem isto a propósito do barómetro global da corrupção, publicado pela Transparency International (representada no nosso país través pela Transparência e Integridade), através do qual ficou-se a saber que um em cada dois portugueses (51 por cento) vê a corrupção como o principal problema a merecer a atenção dos responsáveis políticos, imediatamente abaixo da economia e emprego (apontados como prioritários para 74 por cento dos portugueses) e da saúde (principal preocupação para 71 por cento dos inquiridos).

Outro dado importante é que 48 por cento dos portugueses consideram que a corrupção piorou em Portugal no último ano e 39 por cento não veem melhorias nos níveis de corrupção no nosso país. E, para os Portugueses, deste fenómeno não escapam o Parlamento (com o envolvimento de deputados), o sector empresarial, autarquias e até o gabinete do Presidente da República, estendendo-se a forças policiais e juízes.

Os dados do estudo mostram claramente que a corrupção que os portugueses identificam não está ao nível de funcionários e do pagamento de luvas, mas é uma corrupção mais grave, sistémica, que tem a ver com a captura das instituições públicas por grupos de interesses organizados, que têm um poder desmesurado para moldar as leis e as decisões regulatórias à sua conveniência, em detrimento do interesse público, conforme explicou o porta-voz da associações cívica Transparência e Integridade, João Paulo Batalha.

Por outro lado, e preocupante, é o inquérito revelar que uma das principais causas para a falta de eficácia no combate à corrupção em Portugal é o medo de represálias, com 56 por cento a admitirem tratar-se da principal razão pela qual os cidadãos não denunciam suspeitas de corrupção às autoridades. Assim, a noção de que a corrupção tornou-se normal, ou de que as denúncias não têm qualquer consequência, são outras das principais razões para que os cidadãos não reportem os casos de que tenham conhecimento.

Concluindo, é precisamente esta corrupção sistémica que mais contribui para degradar a qualidade da democracia e a integridade do Estado. E se como em tudo na vida não basta ser sério, é preciso parecê-lo, também na corrupção a percepção de que existe conta muito e tem efeitos devastadores,

Luís Santos