Coimbra  30 de Maio de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

A campanha por Abril

16 de Fevereiro 2024

Antes da campanha eleitoral oficial, iniciaram-se os debates televisivos entre os líderes partidários, no pressuposto que a televisão é o órgão de comunicação prioritário para as forças políticas, que paralela e posteriormente cumprem um programa sem inovação, com visitas a empresas, instituições e raras arruadas e mais raros ainda, os comícios para exaltação dos fiéis e para, mais uma vez, dar um bom spot televisivo.

A inovação vem de uma plêiade de comentadores dos debates no écrã mágico, que comentam as afirmações, as infirmações, os pensamentos, os trejeitos, as posturas dos líderes, num achismo que se torna perigoso, pois pretende influenciar o espectador que assume o que o comentador “acho” como se fosse a análise perfeita (intocável), e um facto real (inapelável).

O cúmulo da tentativa de manipulação do público é atingido, quando o(s) comentador(es) atribuem uma classificação numérica a cada político, como se se tratasse de um exame numa ciência exacta ou pelo menos baseada na evidência.

Haveria que questionar os responsáveis dos canais transmissores qual o critério utilizado para seleccionar os comentadores, alguns jornalistas da casa e das parcerias de comunicação radiofónica ou impressa, alguns académicos de maior ou menor conhecimento independente, e outros descarados opinion-makers, maioritariamente da direita política, que serve os interesses do todo poderoso quarto poder.

Comenta-se o episódio, suspeita-se da intenção, afirma-se o valor da interjeição, eis a panóplia arrasadora de pressupostos especialistas da política (talvez não da ciência política), que retiram isenção ao circunstante eleitor, que procura informação qualificada e encontra tendências partidárias ao sabor do comentarista.

As eleições são um espaço nobre do exercício da democracia, em que o eleitor pesquisa um sentido de voto esclarecido, que melhor interprete a sua vontade e reflicta o seu direito de opinião, muitas vezes condicionado por informação tendenciosa e deturpada, por líderes políticos magarefes e afins, por comunicação facciosa, ou por omissão de ideias que seriam valiosas.

Em Março, deveríamos ter uma campanha por Abril, quando estamos a comemorar os 50 anos da liberdade e democracia, com o reconhecimento daqueles (já poucos) resistentes que contribuíram para o fim da ditadura e o exercício do direito de voto, e com o elogio do regime democrático conquistado pelos capitães de Abril e por todos os antifascistas que lutaram, sofreram e morreram.

 

Regressam os herdeiros

 

Deveria ser aplaudido o fim da guerra colonial, a entrada na Europa, o desenvolvimento e melhoria de condições de vida digna (a continuar), a adesão ao euro, a criação do SNS universal, o fim das barracas e a promoção da habitação social (ainda que insuficiente), o respeito pelos direitos humanos e a educação e a justiça para todos (com carências e tempo indesejado), o crescimento económico pós-crises internacionais, o baixo desemprego e a estabilidade política que permite novos desafios, no combate à corrupção e na realização de estruturas e reformas para continuar a melhoria da qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável.

Ao invés, regressam os herdeiros da ditadura, surgem as ameaças aos direitos das minorias, a violência doméstica pode não ser crime público, fazem-se promessas de encantar incautos e pessoas de boa-fé, manipulam-se dados socioeconómicos desvalorizando o que foi feito, tratam-se os eleitores como se não fossem cidadãos com poder de cidadania, faz-se a apologia da extrema direita (qual lobo mascarado de cordeiro) que aproveita imperfeições, erros e obras não concluídas, para iludir, mentir e preanunciar o céu.

Não entreguemos a democracia ao último moicano que se arroga de salvador da pátria, nem aos herdeiros da ditadura que o secundam ou a ele se aliam, numa tentativa de ter poder pelo poder, de governar para as elites, de fragilizar a democracia. Por Abril!

(*) Médico