Coimbra  18 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A caminho das Presidenciais

22 de Janeiro 2021

Estávamos a uma semana das eleições Presidenciais de 2021. Retiro a máscara, após a caminhada higiénica, e sento-me em frente ao televisor onde as notícias cada vez mais alarmantes sobre a progressão da terceira vaga da covid em Portugal, apresentam boletins estatísticos diários reportando 10.000 casos de infectados, número de óbitos crescente a rondar os 200, e um SNS em clara ruptura.

Se contra factos não existissem argumentos, as Presidenciais de 2021 teriam sido adiadas para um momento mais oportuno. Estamos em confinamento e recolher obrigatório, vivemos um estado de emergência único na história da humanidade, em que precisamos de total união de esforços.

Porém, a decisão foi a de continuar, incompreensível como tantas outras, em especial as que têm emanado da Comissão Nacional de Eleições: ficámos a saber na semana que findou, que os idosos podem sair dos lares para votar e não precisam de fazer quarentena; e que no boletim de voto aparecerão 8 nomes mas os candidatos são na prática 7. Já não é apenas incompreensão e talvez seja mesmo incompetência.

Se Eça de Queirós fosse vivo diria, certamente, que a campanha tem sido alegre e viva. Os sete candidatos representam diferentes visões sociais e políticas, uma riqueza de assinalar, quando é mais do que certa a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, entre todos os candidatos aquele que encarna melhor a figura de Pai da Nação e Avô do Estado, pois o paternalismo sempre foi a variante mais apreciada pelos portugueses quando se trata de governar, desde o tempo de Cavaco, Soares ou Sampaio.

Contudo, e pelo que tenho visto até agora, João Ferreira tem sido o mais consistente: seriedade, formação, educação, valores que revelam que é, provavelmente, o mais bem preparado depois do mais que certo reeleito – realço neste particular que não estou filiado em nenhuma força partidária, e que embora não nutra simpatia ideológica pelo comunismo, me sinto livre de escrever o que penso.

Custa-me, na verdade abordar o desempenho dos restantes: Ana Gomes não trouxe nada de novo, a não ser uma alternativa de voto à Esquerda que não gosta de MRS (e são muito poucos); Marisa Matias parece ter ido por que assim tinha de ser (tendo recebido um balão de oxigénio, tingido de lábios vermelhos, oferta de Ventura), Tiago Mayan tem tido interessantes intervenções na área do Direito e Justiça, mas depois qual pirilampo, desaparece de cena não dando continuidade ao discurso; Vitorino Silva tem feito jus à sigla do partido, oferecendo-nos momentos de riso, que não se coadunam com o desempenho presidencialista, mas que bastaram para meter o dedo no nariz do comentador cada vez menos comentado Miguel Sousa Tavares.

Por fim, uma palavra para André Ventura que lidera o partido com mais possibilidades de crescimento em Portugal, como alternativa ao Centro e extrema Direita – espectro ideológico que anda pelas ruas da amargura. Pode ou não ficar em segundo lugar, objectivo que definiu como principal, mas a soberba pode-lhe custar bem caro. O populismo não rima com falta de educação nem de respeito pelos demais candidatos. Apesar de conter no seu discurso algumas verdades muito sérias, corre o risco de se perder e não passar de um epifenómeno – como tantos outros que têm cruzado os céus da política e desaparecem no vácuo, com ou sem apoio da comunicação social.

(*) Historiador e investigador