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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

A caça às vacinas

12 de Fevereiro 2021

(*) Historiador e Investigador

 

Com um país à deriva na gestão do caso da pandemia, apesar dos esforços porfiados do governo e entidades reguladoras da saúde pública, emergiu com violência inesperada a questão das vacinas.

Ela é desde o princípio desta crise global, a solução óbvia para travar o avanço de um vírus que teima em contornar os obstáculos que a comunidade médica e científica lhe vão colocando, acrescidos da opinião contrária dos negacionistas.

Percebe-se a urgência para certos grupos etários, ou mais vulneráveis, em tomar quanto antes a vacina – antídoto perfeito para prevenir a doença, internamentos, as UCI e, em última análise, atrasar ou adiar a morte.

Nunca uma vacina, na história da medicina, terá conhecido a luz do dia de forma tão célere. Mas, nesta questão muito particular, os fins parecem justificar os meios e vice-versa. Com o aliado económico embrenhado a fundo na questão, assistimos, numa primeira fase, à inevitável corrida às primo vacinas por parte da indústria farmacêutica.

Ultrapassado, em ritmo de contra-relógio, esta etapa, com a disponibilização de milhões de doses por parte de prestigiados laboratórios, passou-se à segunda fase: a distribuição por países das doses adquiridas por cada governo, de forma a obter a desejada imunidade de grupo.

A partir desse momento vimos emergir, entre nós, um antigo costume português: subversão das regras, favorecimento familiar, defesa de grupo – o bem conhecido xico-espertismo. Não, não colocámos os olhos no exemplo israelita, que já vacinou 60% da população, antes nos deixámos levar pelo salve-se quem puder, de forma que muitas instituições (IPSS sobretudo), caíram na tentação e perverteram o protocolo, iniciando a vacinação não pelos mais vulneráveis e necessitados, mas sim por dirigentes e seus familiares.

Na verdade, a fabricação a larga escala de vacinas contra a covid já ultrapassou, há muito, o seu principal intuito: de solução regular e global passou a instrumento de sobrevivência, de curto prazo, gerido, localmente, pelos poderosos em função dos seus interesses.

Um negócio de milhões que conduziu a humanidade a uma autêntica caça às vacinas em coutadas criadas para o efeito – que só vai acrescentar risco e pressão a uma situação já por si de risco e extremamente pressionada.

A continuar por este caminho, vamos ter venda de vacinas a retalho, à vontade do freguês, anunciadas por pregões e arrematadas em praça.