Coimbra  26 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

A “bomba” política

6 de Maio 2019

As eleições europeias são o que são. Não suscitam paixão, mas se os extremos do actual quadro partidário virem aumentar o seu eleitorado e, consequentemente, a sua presença no Parlamento Europeu é preciso ter consciência que os tempos que se seguirem serão complexos política e socialmente.

Por isso, não podemos fugir à responsabilidade do voto e de com ele defender os valores e princípios em que assenta a União Europeia, tais como a paz, a liberdade e o modelo social.

O debate sobre o nosso futuro e a forma como o podemos sustentar, também a partir de Bruxelas, estão ao nosso lado em todos os momentos da reflexão política.

Fazem parte do nosso quotidiano e por isso metemos no mesmo saco questões múltiplas, nossas, ao lado de temas que nos agarram à Europa e que sentimos, também, como nossos, tais como as mudanças climáticas, a dependência energética, a protecção de dados e a luta permanente para manter e reforçar “coisas” lindas como a liberdade.

É que nos tempos desafiantes que vivemos nada se pode dar como adquirido. Daí a necessidade de cerrar fileiras à volta de políticas europeias capazes de terem impacto na qualidade de vida das pessoas.

Cada país tem as suas próprias responsabilidades e, nesse âmbito, há que estimular a participação dos cidadãos neste acto das eleições europeias, a 26 de Maio.

António Costa sabe bem a importância destas eleições, para ser possível olhar o horizonte com serenidade e esperança, estancando, de vez, as feridas da crise e dos ataques que, por causa dela, foram feitos ao modelo social europeu, que levou ao aprofundamento do distanciamento entre eleitores e eleitos, fruto também da menor informação que há do que, de bom, pode resultar do trabalho dos eurodeputados.

Não é, aliás, por acaso, que o abstencionismo tem sido arrepiante nestas eleições, mas não deixa de ser curioso que, apesar disso, o Parlamento Europeu e os seus deputados têm cada vez mais competências e poderes.

Basta pensar que, na legislatura que findou, são centenas as leis que foram produzidas e que acabam por condicionar e influenciar o quadro legislativo nacional.

Daí que, na minha opinião, o voto, cada voto, que vai eleger os deputados europeus, seja tão importante e fundamental como aquele que irá eleger os futuros deputados à Assembleia da República.

António Costa não “dorme em serviço” e já sentiu o erro de «casting», que significou a nomeação do cabeça de lista do Partido Socialista, Pedro Marques.

“Cheirou” rápido que ele tem o passo trocado com os eleitores, dando, no terreno, continuidade ao desastre que foi como ministro, sem obra para mostrar, não estando a “entrar” no eleitorado, não só por falta de empatia política, mas também apor não dominar bem os dossiês europeus, como mostram as sondagens.

Os sinos tocaram a rebate lá para o largo do Rato e António Costa, criativo como é, “inventou” um facto político, aproveitando a votação que houve na Comissão Parlamentar de Educação sobre a questão do tempo de serviço dos professores, para dramatizar e virar o vento político a seu favor.

Foi um autêntico passe de magia, onde não se inibiu, até, de criar uma má relação com a verdade em vários pontos da sua narrativa sobre esta novela, que se arrasta há anos.

Uma deputada do PSD por Coimbra, Margarida Mano, que já é uma destacada parlamentar, veio a terreiro pôr os pontos nos iii, dizendo, preto no branco, que “… o primeiro-ministro mentiu deliberadamente relativamente a vários pontos… , já que é falso que o tempo todo de serviço não tivesse sido assumido pelo Governo”.

Lembrou ela que esse compromisso foi assumido pelo Governo em dois momentos: Outubro de 2017,quando Executivo e sindicatos assinaram um compromisso, e em Outubro de 2018, quando o inscreveu no Orçamento do Estado.

Alguns analistas lembraram, ainda, que o PS, juntamente com o Bloco de Esquerda e o PCP, «chumbou», na Comissão Parlamentar, as medidas propostas pelo PSD, que definiam critérios de rigor e sustentabilidade, ligando a contagem do tempo de serviço à situação económica e financeira do país, evitando-se que a despesa com pessoal não ultrapassasse determinado limite.

Todo este bom senso de nada serviu face à perspectiva de o PS poder não ganhar as eleições europeias, preferindo tirar “coelhos da cartola” e lançar verdadeiras “bombas” políticas, fruto de algum desencanto face à forma como está a correr a campanha para as eleições europeias.

Mais do que a preocupação entre as contas públicas e a devolução dos rendimentos, parece existir um fundado receio de uma irreparável ruptura entre o eleitorado e Pedro Marques, a qual pode projectar-se para lá destas eleições.

Só isto pode explicar o momento político que António Costa protagonizou, surpreendendo tudo e todos, já que a veleidade de uma qualquer “orgia orçamental” estava afastada, porque há na proposta do PSD sólidos “ABS’s” financeiros, que acautelam quaisquer derrapagens, mas que curiosamente foram inviabilizado pelo PS, que votou contra na referida Comissão Parlamentar.

Mas tudo isto teve a vantagem de os eleitores ficarem a saber, até à última perfídia, o que António Costa pensa e quer fazer com o país, e de poderem julgar quem assumiu a responsabilidade de gerir os destinos da grei.

Perante a enormidade do que se está a passar, torna-se difícil aquietar as consciências dos eleitores com palavras de circunstância política.

Passado todo este tempo de Governo da «geringonça», sem solavancos de maior, muitos foram os que fecharam o dossiê das suas preocupações quanto à estabilidade governativa.

Porém, despertos pelo alarme das palavras do primeiro-ministro, justamente perguntam-se se António Costa passou a exteriorizar a sua oculta predisposição de espírito para pôr em causa o que de mais essencial existe em qualquer governação: confiança e estabilidade.

Sou, portanto, dos que lamentam o que houve de insólito num discurso, que conseguiu ser o contrário de tudo o que atrás se disse, ao deixar ler, nas linhas e entrelinhas, mais ou menos isto:

– eu não queria demitir-me, mas como vocês se portaram mal, se persistir a teimosia, se não abdicarem do que aprovaram, eu vou mesmo demitir-me.

A ameaça ali está, a adejar com o papão da demissão, como se não houvesse mais mundo para lá do Governo do PS, como se o Partido Socialista pudesse dar recados a quem quer que seja sobre a defesa patriótica de uma responsável política de austeridade, incontornável na manutenção de finanças públicas saudáveis.

Não desejo que tal aconteça, mas francamente não acredito que o PS queira ir pelo caminho de se imiscuir no âmbito da acção parlamentar, dando a todos a ideia de que quer condicionar este órgão no exercício das suas competências, governamentalizando a Assembleia da República.

Corre esse risco, devendo, porém, lembrar-se do provérbio chinês, que reza assim:

Pode-se escolher o que se quer semear, mas, depois, tem de se colher o que se plantou!

(*) Ex-vereador do PSD na CMC