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João Pinho

A “Baixa” de Coimbra – um coração doente

7 de Dezembro 2016
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A “Baixa” sem gente em plena época de Natal – rua de Visconde da Luz

 

Conheci, como muitos, duas “baixas” de Coimbra. A da minha infância e parte da adolescência, habitada por muitas famílias e eixo fundamental de comércio e serviços. Era o coração saudável da minha cidade!

Nas épocas festivas a baixa tornava-se um mar de gente. A partir de meados de Novembro começava a corrida às compras da época, em especial durante os fins de semana, escorrendo vidas em cada artéria desse coração. As famílias passavam horas de loja em loja abastecendo-se de todo o tipo de artigos: brinquedos, roupas, móveis, jóias, ferragens, jornais e revistas, bens alimentares, etc. Um momento de festa, de agitação, de lojas à pinha, uma antevisão da actual «Black Friday».

Aos poucos, esta vida deu lugar a afastamento e desalento. Ao mesmo tempo que entravam no vocabulário corrente palavras novas como globalização, operou-se a massificação dos espaços comerciais. Criaram-se outros corações em redor do primitivo: Coimbra-Shopping, Fórum, Dolce Vita. Foi o principio do fim da tradição pela centralização da oferta de bens e serviços num único espaço – uma nova noção de área comercial, que a baixa não tem nem consegue oferecer.

O comodismo triunfou! Passou a ser possível levar o automóvel quase até às lojas, fazer todas as compras sem apanhar um pingo de chuva ou rajada de vento mais desagradável. Aos poucos, os cidadãos cederam a essa nova realidade, pensada e controlada pelas multinacionais, e a “Baixa” foi ficando entregue a si própria: as pessoas continuam a frequentar os seus espaços, mas de forma irregular, históricos comerciantes resistem no limite das suas possibilidades, mas muitos preferiram encerrar actividade. Toda a dinâmica e atractividade da “Baixa” se foi perdendo, ao mesmo tempo que o centro histórico se despovoou em função da expansão urbanística que em paralelo se desenhou ao sabor de outros interesses.

E assim, assistimos ao aparecimento duma nova “Baixa” na cidade de Coimbra. Feita de gente que passa mas não compra, lojas com tradição e história que encerraram definitivamente, abertura e fecho de novos espaços enquanto o diabo esfrega um olho. As outroras pujantes ruas de Ferreira Borges, de Visconde da Luz e da Sofia apresentam-se, nos nosso dias, como ténues sombras dos tempos áureos.

Há muitos culpados na triste história da “Baixa”, pois não podemos esquecer que noutras cidades os antigos centros histórico-comerciais conseguem competir com a nova realidade. Perdeu-se a consciência de classe, capaz de unir os designados comerciantes ricos com os menos abastados, não se veem instituições com vontade de agir em prol dos interesses colectivos, ao passo que as sucessivas lideranças municipais, conscientes da realidade, vêm apostando em promessas vãs e operações de cosmética, que não trazem nada de novo. A realidade não engana – as medidas falharam e não será, certamente, a abertura da via central ou a aposta na nova rotunda de Celas que mudará o figurino.

Na minha modesta opinião a “Baixa” só reviverá no dia em que se tomarem medidas político-sociais de fundo, rasgando novos horizontes, reinventando e reinterpretando a cidade, não excluindo ninguém e colocando os interesses dos conimbricenses acima de quaisquer outros. Sob pena de a baixa tradicional se transformar em «open space» das multinacionais – algo que de mansinho já vem sucedendo.

(*) Historiador e investigador