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Uma vida em malas que “balança, mas não cai”

3 de Março 2020 Jornal Campeão: Uma vida em malas que “balança, mas não cai”

Perfil publicado a 14 de Novembro de 2019, na edição n.º 998

 

Nome: MARTA Alexandra Fartura Braga TEMIDO de Almeida Simões

Naturalidade: Coimbra

Idade: 45 Anos

Profissão: Especialista em Administração Hospitalar; Deputada do PS eleita pelo círculo de Coimbra indigitada, pela segunda vez, para Ministra da Saúde

Passatempos: Viajar

Signo: Peixes

 

“Então, basicamente, quer que lhe conte os meus 45 anos de vida?” A boa disposição e ligeireza que lhe são característicos revelam-se logo ao primeiro contacto com Marta Temido. Foi com prontidão que cedeu esta entrevista trazendo na bagagem as memórias de uma vida nómada, relembra, “durante anos metida em malas”.

É a filha mais velha de duas irmãs e, por força da actividade profissional dos pais, viveu e cresceu em vários sítios. Nasceu em Coimbra em Março de 1974 mas, “àquela pergunta que o Herman José costumava fazer, onde é que estava no 25 de Abril? Eu, com um mês, já estava em Arganil [graceja], porque o meu pai estava lá colocado como Delegado do Ministério Público”. Passou por Viseu, regressou a Coimbra, deu um salto até Castelo Branco e voltou à cidade natal onde terminou a ensino básico e depois o secundário. “Tenho essa memória, quase física, da minha vida de caracol. É por isso que a minha casa não é um sítio físico. É onde estiverem as pessoas com quem me sinto bem, onde estou a trabalhar, onde tenho o projecto de vida”.

No secundário escolheu o agrupamento de Humanidades porque não gostava de matemática, não imaginando sequer na altura que os números seriam uma constante no futuro profissional. Em criança nunca teve resposta para a pergunta “o que queres ser quando fores grande?” mas, a primeira vez que pensou em ser algo profissionalmente, foi Jornalista.

Nessa altura já estava na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Chegou a ponderar mudar de curso mas os pais, “exigentes a esse nível”, não se mostraram adeptos da mudança. Terminou a Licenciatura em Direito em 1997 com um carro da Queima das Fitas que se chamava “Balança mas não cai…pensando agora nisso, parece-me que foi até premonitório porque, a nível profissional e político, tenho tido momentos turbulentos, só que… balança, mas não cai”. Terminado o curso, novas circunstâncias levam-na a concorrer ao Centro de Estudos Judiciários. Durante os meses de estudo para o exame, mais uma vez, muda de malas e bagagem, desta feita, para o sul do país, como representante do Ministério Público em Idanha a Nova e em Arraiolos. É por esta altura que um anúncio no jornal para inscrição nas provas de ingresso no curso de Especialização em Administração Hospitalar lhe aguçou a curiosidade e, em Setembro de 1998, ingressa neste curso na Escola de Saúde Pública em Lisboa. A matemática regressou (“bem dizia a minha professora do nono ano!”), o curso não foi fácil, mas adorou frequentá-lo, terminando-o com a apresentação da tese na área da saúde mental. Em Julho de 2000 começou a trabalhar nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). Entretanto, o caminho mais fácil para uma jovem de vinte e poucos anos seria continuar no mesmo sítio. Mas, o facilitismo e o sedentarismo nunca foram amigos chegados de Marta Temido. E, assim, foi aceitando desafio atrás de desafio, percorrendo o país até que chega, em 2001, ao Hospital de Aveiro. Foi aí que passou por um dos momentos que mais a abalaram a nível profissional. “Depois de três anos de trabalho fui «convidada a sair». Senti que fui mandada embora por dizer que não concordava com algumas coisas. Mas eu também não tenho jeito para estar num sítio onde não querem que esteja. Não há uma vida profissional só de sucessos, que seja perfeita, nem pessoal diria eu.

Há muitos reveses e eu já fiz profissionalmente muitas travessias do deserto”, desabafa.

Regressou depois aos HUC onde ficou encarregue da gestão financeira da farmácia hospitalar, numa altura de grandes mudanças e modernização nesta área. É então que decide voltar a estudar. “Estava frustrada com o que me tinha acontecido em Aveiro e disse que nunca mais ia ficar só com uma alternativa profissional.” Em 2004 ingressa no Mestrado em Gestão e Economia da Saúde na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Passou pelo Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) e, posteriormente, pelo Instituto de Oncologia do Porto. “No CHC tive uma das melhores experiências profissionais da minha vida onde trabalhei com uma equipa fabulosa (valeu bem a pena ter sido despedida em Aveiro!)”. Voltou, novamente, a Cantanhede onde esteve quatro anos no Conselho de Administração (2011-2015) e é durante esse período que termina o Doutoramento em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa onde, mais tarde, assume a função de Sub-Directora e chega a dar aulas. Entre 2016 e 2018 preside à Administração Central do Sistema de Saúde. E, a 15 de Outubro de 2018 dá-se a maior mudança da sua vida: assume o cargo de Ministra da Saúde.

Nas últimas legislativas encabeçou a lista do PS pelo círculo de Coimbra mas, após a eleição, é indigitada para o governo. “O primeiro ano como Ministra da Saúde não foi fácil.

Neste ministério em concreto, onde há imensa pressão e sempre muito para fazer, é preciso ter a capacidade de acreditar e de passar confiança aos outros. A maioria das experiências dos utentes no Serviços Nacional de Saúde corre bem. Mas, a minha chefe de gabinete diz uma coisa muito engraçada: «Nós aqui sentimo-nos sempre em défice». Só que, acrescento eu, temos de saber viver com isso. Eu sou uma mulher feliz. Tenho uma vida familiar extraordinária e isso é a base da minha sustentação e do meu equilíbrio emocional. Sou péssima cantora (os meus paizinhos bem tentaram que andasse no solfejo mas nunca tive jeito para isso) mas gosto muito de letras de músicas. E eu gosto e identifico-me em particular com a letra daquela música latina «gracias a la vida que me ha dado tanto». Eu também acho que sou uma pessoa a quem a vida tem dado muito.”

 

E AINDA…

Quando se vai para o governo passa-se a ter uma vida bastante abnegada.”

Fui apanhada de surpresa quando recebi o convite para ser Ministra da Saúde. Sabia que era capaz tecnicamente mas não tinha experiência política nenhuma… Mas sempre me interessei pela disputa ideológica, pelos programas eleitorais, pelos debates… e já tinha acompanhado também algumas iniciativas do PS nas anteriores legislativas. Aliás, inscrevi-me nas primárias do PS, como simpatizante, para poder votar.”

Apesar de ter nascido pouco antes do 25 de abril lembro-me de ir na rua, já algum

tempo depois, claro, a cantar “uma gaivota voava, voava” e, não sei se foi o meu pai ou a minha mãe, que me disse «canta baixinho» e o outro respondeu «deixa-a, já se pode cantar».

Havia no meu pai e na minha mãe um conjunto de valores democráticos muito fortes que me marcaram imensamente e desde pequena: a ideia dos direitos sociais, do direito à casa, à escola, à saúde, ao trabalho.”

Este ano como Ministra da Saúde foi duro. Exigiu muito de mim. Ninguém imagina o que é a vida de um membro do governo. Em termos de investimento em estudo, de desprendimento total da vida pessoal…temos de estar sempre em prontidão. A sensação da total responsabilidade é enorme. Nem é do meu feitio achar que a responsabilidade é do ministro do lado, ou da vida que é injusta… a responsabilidade é sempre minha, por tudo. Para quem tem um feitio deste tipo é muito desgastante. Tive muita sorte porque tenho uma equipa fantástica, isso foi o que tornou capaz de aguentar o esforço.”

Acho que as pessoas não têm percepção do que é a vida política. Do que é prescindir do nosso anonimato. O sector da saúde é muito especial, tem muita tensão, com coisas que correm bem mas que também correm mal e, uma vez mais, há um rosto a dar…e isso torna a vida muito pesada. Temos de criar estratégias de sobrevivência. Mas não completamente porque não se pode perder a sensibilidade. Temos de nos importar, mas temos de saber cortar.”

Eu tinha uma amiga quando trabalhava na administração hospitalar que costumava dizer algo que sempre gravei: “tenho um pacto com a Nossa Senhora: ela não administra e eu não faço milagres”. E eu estou mais ou menos na mesma.”

Eu gostava muito de ser deputada à Assembleia da República pelo sentimento de serviço público. A actividade legislativa é uma actividade fundamental. Via com expectativa essa possibilidade e a de me dedicar a outros temas que não o da saúde.”

No papel de deputada pelo círculo de Coimbra a minha preocupação seriam sempre as acessibilidades porque, de facto, temos dificuldades nalgumas estradas em termos de segurança e qualidade. Mas existem mais assuntos, como a questão da nova maternidade e outros. Áreas como o turismo e agricultura têm aqui um potencial que precisa de acarinhar.”