Coimbra  19 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Uma vida dedicada à Universidade de Coimbra

16 de Março 2018

Perfil publicado a 22 de Fevereiro de 2018, na edição n.º 914

 

Nome RUI Nogueira Lobo de ALARCÃO e Silva
Naturalidade Coimbra
Idade 88 anos
Profissão Professor Catedrático Jubilado, ex-Reitor da Universidade de Coimbra
Passatempos Amante da música e das belas artes
Signo Peixes

 

Fez recentemente 88 anos. O Reitor da Universidade de Coimbra que conseguiu o feito de ser eleito quatro vezes consecutivas Felicitemo-lo nós, mas bem o poderíamos fazer todos, porque ele foi, e é, uma figura incontornável do ensino universitário português que em ocasiões várias a todos nos representou, fazendo-o sempre, fosse em que palco fosse, de modo a que nos tenhamos sentido bem representados e muito honrados. Professor Rui Alarcão. Claro.

Foi eleito pela primeira vez em 1982, quando nada o fazia prever e as probabilidades de ganhar eram poucas. Havia dois fortes candidatos e a sua candidatura foi de última hora. Uma vitória da qual se orgulha, enaltecendo acima de tudo a democracia vivida num regime que, defende, na altura e porventura mais do que hoje, fazia jus ao verdadeiro sentido da palavra. Salienta que foi eleito por um colégio eleitoral numeroso e diversificado.

Desde muito novo pensou seguir a carreira ligada ao Direito, resultado talvez da influência de um amigo da família, advogado de profissão, que o cativou a seguir trajectória idêntica. Além disso, sempre teve capacidade argumentativa e uma resposta pronta, tanto na escola como em casa: “Lembro-me de uma situação engraçada… Numa primeira fase do “Estado Novo” a rádio propagandeava: ‘quem vive? Portugal, Portugal, Portugal! Quem manda? Salazar, Salazar, Salazar!’ Eu era uma criança, um tanto refilão… Um dia tinha feito algo de errado (já não me lembro o quê) e o meu pai estava a ralhar comigo, a dizer que não voltasse a repetir: ‘Ai de ti que voltes a fazer, ouviste? Quem manda cá em casa?’ Sem pensar duas vezes, respondi ‘Salazar, Salazar, Salazar!”.

Na altura de ingresso no Ensino Superior, e sem embargo do gosto pelas Letras, decidiu-se definitivamente pelo Direito. Mas a paixão pelas letras, sobretudo pela literatura, nunca o abandonou: “Tenho sempre três livros à mão, um de prosa, outro de poesia e outro ainda de área distinta, como história, sociologia ou ciência política”.

Licenciou-se em 1952 terminando no ano seguinte o Curso Complementar de Ciências Jurídicas. Nessa altura foi convidado para Assistente. Lecionou pela primeira vez na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra tinha 23 anos e nunca mais deixou de dar aulas. Mesmo enquanto Reitor, estando legalmente dispensado de o fazer, continuou a lecionar. Hoje restringe essa atividade a conferências e lições em cursos de pós-graduação.

E foi assim que enveredou pela vida de professor em detrimento da profissão de advogado, uma escolha que, acredita, estará ligada aos seus próprios genes: “Eu gosto de ser professor e isto deve ter a ver com a genética. O meu pai foi Assistente na Faculdade de Medicina, o meu avô era Professor de medicina, um dos meus bisavós foi Professor de instrução primária…somos seis irmãos, quatro foram ou são professores universitários e dois Reitores – eu, da Universidade de Coimbra, e a minha irmã da Universidade de Aveiro.”

Enaltecido pela relação ímpar com os estudantes, foi homenageado em 2001 e recebeu a Medalha de Ouro da Universidade, acumulando com a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra. No entanto, das diversas distinções honoríficas que alcançou elege uma: “Sempre me dei muito bem com os estudantes e era Reitor há dez anos quando fui elevado a Sócio Honorário da Associação Académica. Essa distinção, em particular, sensibiliza-me, até porque não conheço outros reitores que a tenham.”

Rui Alarcão, além de professor da Faculdade de Direito e reitor da Universidade de Coimbra, desempenhou outros cargos e funções, dentro e fora do âmbito universitário, designadamente em Conselhos Superiores, incluindo o Conselho de Estado.

Durante os 16 anos de reitorado, assistiu à ascensão e queda de oito ministros da Educação e acompanhou as transformações resultantes das inúmeras mudanças que se repercutiram também no crescimento da Universidade de Coimbra, como o aumento do número de alunos e professores, a construção de novos edifícios (Polos II e III), o aparecimento de novos cursos, a progressiva institucionalização da autonomia universitária, a melhoria, em quantidade e qualidade, dos serviços de acção social, mudanças que a conduziram ao organismo que é hoje, reconhecido no país e em todo o mundo.

Rui Alarcão não revela nomes, mas confirma ter sido sondado para se candidatar a Presidente da República. A sua resposta foi negativa: “Eu não tenho currículo político, não fui deputado, não fui ministro (porque não quis, é certo, mas não fui!) e, por isso, não me sentia capaz de ser candidato a esse cargo, havia gente com maior legitimidade para o ser. Mas, só o facto de ter havido alguém que pensou que eu podia ser esse candidato já satisfaz o meu amor próprio”, graceja.

Hoje mantém o sentido de humor que o caracteriza e revela o segredo para a sua longevidade: “Bons genes, bons médicos e uma vida muito activa. Gosto de fazer exercício e de caminhar. Raramente me deito antes das três da manhã e durmo apenas cinco a seis horas. Bem mais, ainda assim, que o Senhor Presidente da República, o meu muito prezado Amigo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Provavelmente entendemos, como alguém, a outro propósito, sugestivamente disse, que ‘dormir é uma forma interina de morrer”.

E ainda…

“Desde a instrução primária que queria ir para Direito. Provavelmente por influência de um grande advogado amigo dos meus pais. Éramos seis irmãos, passávamos as férias grandes metade na praia e metade no campo. Esse advogado ficava num toldo ao lado do nosso. Falava muito comigo e eu dizia ‘um dia quero ser como aquele senhor’.”

“Eu costumo dizer aos meus alunos: pensem bem e escrevam bem, porque nós, juristas, só temos a palavra, escrita e falada. A nossa arma é a argumentação.”

“Nenhum dos filhos foi pressionado para seguir uma determinada área. Os meus pais proporcionaram a todos os filhos um curso universitário. A minha mãe não tinha estudos superiores, mas era muito inteligente e culta, sabia falar francês e inglês, chegou mesmo a tirar um curso da Casa de Inglaterra. Entrou para o nível médio e acabou num nível superior, podia até leccionar. Também nesse aspecto ajudava muito os filhos.”

“Existiam praxes no meu tempo e eu antipatizava com elas. E nessa altura eram mais violentas. Houve uma grande evolução neste campo e ainda bem. Quantas vezes disse aos estudantes que as praxes, se as queremos como coisas vivas, estão sujeitas à lei da evolução.”

“Casei com 41 anos. A minha mulher era muito mais nova do que eu, e foi minha aluna. Depois veio para a Faculdade de Direito como investigadora. Começou a fazer um trabalho sobre a igualdade jurídica dos cônjuges, que eu acompanhei de perto. E esse trabalho contribuiu para que a nossa ligação passasse a ser sentimental.”

“O Reitor é um político. Os reitores não gostam de ser comparados aos políticos mas eu acho que eles são personalidades políticas, não são só gestores universitários. Eu fui, fundamentalmente, eleito para fazer política universitária. Mas não fui, nem sou, um político no sentido estrito da palavra. Nunca quis ser político nesse sentido. Cheguei a ser indicado ou solicitado para ser deputado, ministro…e sempre recusei. Mas, além de praticar uma cidadania activa, desempenhei certas funções ou tarefas políticas, no âmbito do Partido Socialista, em que sempre votei. Um dia disse que não ao Dr. Mário Soares quando ele sugeriu que me inscrevesse no Partido Socialista e mais tarde, quando outros pretendiam o mesmo, eu não demorava a responder: ‘se disse que não ao Dr. Mário Soares, acha que vou dizer que sim a si?”

“Sou um homem de consensos. Sempre busquei consensos. No meu primeiro discurso de posse como reitor asseverei que procuraria alargar as áreas de consenso na Universidade, considerando uma política de tolerância e entendimento como um dos parâmetros fundamentais de atuação da reitoria.”

“Rui Alarcão deu à Universidade de Coimbra estabilidade durante um período alargado e teve ainda a visão de dar ao Prof. Jorge Veiga o espaço e o suporte necessário para se iniciar a internacionalização da UC, algo que é agora determinante para a sua afirmação como Universidade Global, única forma de responder aos desafios da globalização e da evolução demográfica negativa em Portugal.” (João Gabriel Silva; Reitor da UC).

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com