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UC: Reprogramação celular pode ajudar na imunoterapia contra o cancro

10 de Dezembro 2018

Os investigadores Fábio F. Rosa, Cristiana F. Pires, Filipe Pereira e Alexandra G. Ferreira

 

Investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra (UC) descobriram três proteínas que convertem células da pele em sentinelas do sistema imunitário, podendo abrir “novas perspectivas na imunoterapia contra o cancro”.

A investigação, desenvolvida ao longo de três anos, apostou “no potencial da reprogramação celular para, pela primeira vez, controlar as respostas do sistema imunitário”, revela a UC.

Foram descobertas três proteínas (PU.1, IRF8 e BATF3) “capazes de converter células da pele em células dendríticas (CDs), conhecidas como as sentinelas do sistema imunitário porque são capazes de procurar e capturar agentes patogénicos e células cancerígenas”, adianta a instituição.

Esta investigação demonstrou que “as células dendríticas induzidas [com uso das proteínas] apresentam uma notável semelhança com as CDs naturais do organismo. As células obtidas capturam os elementos estranhos, digerindo-os em pequenos pedaços, conhecidos como antigénios. Este processo de vigilância e captura permite ensinar as células T (os soldados do nosso sistema imunitário) quais são os agentes perigosos e como podem ser atacados”, descreve o coordenador do estudo, Filipe Pereira.

Assim, numa perspectiva clínica, a investigação poderá “dar origem a novas estratégias de imunoterapia para o tratamento do cancro (técnica galardoada este ano com o Prémio Nobel da Medicina/Fisiologia, na qual os componentes do sistema imunitário do próprio doente são utilizados para direcionar um ataque às células cancerígenas): usando células reprogramadas, a probabilidade de rejeição do organismo será menor, por estas serem geradas a partir das células da pele do próprio paciente”, adianta.

Para os investigadores há, contudo, mais trabalho a fazer, já que uma das pretensões do grupo passa por “desenvolver um ‘Cavalo de Tróia’, baseado em reprogramação celular, para administração no interior de tumores sólidos”, revela, acrescentando que a ideia é “introduzir as três proteínas identificadas neste estudo nas células do tumor convertendo-as em CDs, forçando o próprio cancro a apresentar as suas características estranhas e perigosas às células do sistema imunitário, o que poderá contribuir para a sua erradicação”.

Na sequência destes resultados, a equipa pretende averiguar quais são os mecanismos genéticos através dos quais as três proteínas identificadas impõem a identidade celular de uma célula dendrítica, podendo, ainda, a investigação “utilizar este método de reprogramação celular para perceber como outros tipos de CDs, com funções especializadas, são geradas”. Por fim, apresenta-se o desafio de validar a utilidade clínica das CDs geradas como uma nova imunoterapia para o cancro.

Filipe Pereira esclarece que “tendo em conta o potencial desta tecnologia no mercado em crescimento da imunoterapia oncológica”, a equipa submeteu, em Abril de 2017, “um pedido de patente internacional para proteger esta propriedade intelectual de forma a assegurar o seu desenvolvimento comercial, o que no futuro pode levar esta tecnologia aos doentes com cancro”.

O artigo “Direct Reprogramming of Fibroblasts into Antigen-Presenting Dendritic Cells” foi tema de capa deste mês da revista “Science Immunology” (do grupo da conceituada revista Science), pode ser consultado em http://immunology.sciencemag.org/.

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