Coimbra  3 de Dezembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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UC: Má nutrição em idade escolar pode provocar diferença de altura de 20 centímetros

18 de Novembro 2020 Jornal Campeão: UC: Má nutrição em idade escolar pode provocar diferença de altura de 20 centímetros

Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Cristina Padez, participou num estudo que avaliou a altura e o peso de crianças e adolescentes em idade escolar em todo o mundo, bem como o Índice de Massa Corporal (IMC), publicado este mês na revista The Lancet.

Liderado pelo Imperial College London, o estudo, que utilizou dados de 65 milhões de crianças dos cinco aos 19 anos de 193 países, concluiu que a má nutrição em idade escolar pode ser responsável por uma diferença média de altura de 20 centímetros entre nações.

A altura e o peso das crianças em idade escolar são indicadores da sua saúde e qualidade da sua dieta e preditores da saúde e desenvolvimento ao longo da vida.

“Ter uma estatura baixa para a idade e pouco peso para a estatura aumenta o risco de morbilidade e mortalidade, está associado a um baixo desenvolvimento cognitivo, menor probabilidade de uma boa performance escolar e consequentemente uma baixa produtividade profissional na vida adulta. Um IMC elevado, muito peso em relação à estatura, está associado a um risco elevado de incapacidade física, morte prematura, atrasos cognitivos e deficiências no grau de instrução”, explica Cristina Padez, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia a Universidade de Coimbra (FCTUC).

A análise, que relata dados de 1985 a 2019, revela que as nações com os jovens de 19 anos mais altos em 2019 situavam-se no noroeste e centro da Europa e incluíam a Holanda, Montenegro, Dinamarca e Islândia.

Os países com os jovens mais baixos em 2019 estavam principalmente no sul e sudeste da Ásia, América Latina e África oriental, incluindo Timor-Leste, Papua Nova Guiné, Guatemala e Bangladesh.

Os maiores crescimentos na altura média das crianças durante o período analisado foram observados na China e Coreia do Sul. Por exemplo, rapazes de 19 anos na China em 2019 eram 8 centímetros mais altos do que em 1985, com a sua classificação global a mudar da posição 150.º em 1985 para 65.º em 2019.

Em Portugal, no que respeita à altura, aos cinco anos de idade as meninas passam do lugar 38.º para o lugar 70.º e os meninos do 49.º para o 77.º. Ou seja, “afastam-se dos países ‘mais’ altos. Aos 19 anos de idade as raparigas passam do lugar 88.º para o 90.º e os rapazes do 128.º para o 87.º. Isto significa que, no período de 1985 a 2019, quem mostra uma evolução positiva são apenas os rapazes de 19 anos de idade, que se aproximam dos países com estatura mais elevada”, refere Cristina Padez.

“Bastante problemático é o facto de, no período 1985-2019, aos cinco anos as crianças portuguesas se terem afastado dos países com ‘maior’ estatura”, afirma a especialista, referindo que isso significa que, “possivelmente tiveram lugar carências nutricionais, especialmente de vitaminas e minerais, que não permitiram um crescimento adequado. Isto indica uma deterioração das condições de vida das crianças com repercussões graves para o seu desenvolvimento futuro enquanto cidadãos inseridos no mercado de trabalho”.

Quanto à relação peso-estatura (IMC), aos cinco anos de idade as meninas passam do lugar 40.º para o 89.º e os meninos do 51.º para o 117.º, isto é, distanciam-se dos países com “mais peso”, o que é muito positivo. Aos 19 anos de idade, raparigas e rapazes passam, respectivamente, de 117.º para 157.º e 58.º para 100.º.

De uma forma global, os resultados referentes a Portugal permitem concluir que “apesar dos bons resultados relativamente aos valores de obesidade, no caso da estatura das crianças aos cinco anos, estas parecem não estarem a crescer adequadamente, já que se afastam cada vez mais dos grupos de maior estatura. Isto é muito preocupante pelas consequências na saúde das crianças, no curto e a longo prazo. Possivelmente, as condições de vida na infância têm-se deteriorado com uma alimentação deficiente, o que estará a comprometer um adequado desenvolvimento físico destas crianças, com consequências para a sua saúde e grandes repercussões na vida adulta”.

Os interessados podem consultar o artigo em https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31859-6/fulltext.