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UC: Grupo recupera músicas de Natal com mais de 350 anos

17 de Outubro 2019

Alguns dos mais preciosos manuscritos de música antiga conservados na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (UC) estão prestes a ganhar nova vida, através d’O Bando de Surunyo.

O grupo, braço laboratorial do projecto “Mundos e Fundos”, do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da UC, está a preparar a gravação de um disco de música de Natal escrita no mosteiro de Santa Cruz (Coimbra) em meados do século XVII.

O CD, que deverá ser gravado em finais deste ano e editado em meados de 2020, vem dar expressão a parte do trabalho do projecto “Mundos e Fundos”, que é coordenado pelos professores Paulo Estudante e José Abreu, e faz o estudo e divulgação de fontes musicais portuguesas, sob o ponto de vista filológico, editorial e interpretativo.

A música sem se escutar é uma coisa mais pobre. Por isso, os grupos associados ao projecto Mundos e Fundos – como o nosso – têm a missão de tornar conhecida a música antiga que está albergada nos manuscritos da Biblioteca Geral”, explica Hugo Sanches, investigador do CECH e responsável pela direção musical e artística d’O Bando de Surunyo.

O ensemble – que foi formado em 2015 e reúne cantores e instrumentistas profissionais, muitos deles especializados em música antiga (anterior ao século XIX) – decidiu lançar um disco para reunir os frutos dos seus primeiros anos de actividade e registar num formato audível canções que há séculos não eram ouvidas.

Para ser percepcionado, o património musical tem de ser interpretado. Só assim é que ele se torna inteligível e ganha sentido”, aponta Hugo Sanches, sublinhando o valor histórico e artístico destas composições.

São documentos que revelam algo sobre o tempo que se vivia na altura: a guerra da Restauração, a forma como eram vividas festas como o Natal ou a Páscoa… E a música é muito agradável de se ouvir”, explica o director d’O Bando de Surunyo, que assim pretende mostrar “o carácter e a vitalidade” da música antiga ibérica – bem menos conhecida do que a obra sua contemporânea de origem germânico-italiana.

Dar vida a música que não é ouvida há séculos comporta vários desafios: o principal é perceber como transpô-la para a actualidade sem a desvirtuar. “Há códigos semânticos, poéticos e políticos que seriam muito perceptíveis pelo público da altura e agora não são. Muita da música de Natal é do tempo da Restauração e está cheia de jogos de palavras e alusões ao objectivo independentista que o Mosteiro de Santa Cruz então assumia. Transpor isto de forma que faça sentido para o público é o grande desafio. Até porque este é um património musical extraordinário: é música que está desenhada para ter um impacto no público”, descreve Hugo Sanches.

O público que já conhece O Bando de Surunyo tem correspondido – inclusive, participando na campanha de crowdfunding que recolheu cerca de 5 500 euros para alavancar o projecto da gravação do CD. Depois de assegurados outros apoios institucionais (o grupo continua aberto a todos os contributos de quem os quiser contactar através da sua página na rede social Facebook), a obra vai avançar no final do ano.

Delfim Leão, vice-reitor da UC para a Cultura e a Ciência Aberta, destaca a importância do projecto: “Trata-se de uma iniciativa notável a vários níveis, pela forma como permite combinar o restauro, transcrição e edição moderna dos manuscritos musicais à guarda da Biblioteca Geral da UC, com a vertente performativa e a investigação em Estudos Musicais. Desta forma, aprofundam-se competências especializadas e dá-se ainda a conhecer à comunidade académica e ao público em geral verdadeiros tesouros que agora se começam a descobrir e partilhar em toda a plenitude”.

Este projecto “constitui, ainda, uma claríssima expressão das vantagens decorrentes da Ciência Aberta e do impacto que gera na Sociedade, como ilustra o “2019 Early Music Gramophone Award”, recentemente atribuído ao grupo Cupertinos, igualmente embaixador da música polifónica renascentista associada à matriz cultural da Universidade de Coimbra”, acrescenta Delfim Leão.

Por sua vez, Hugo Sanches espera que estes exemplos incentivem grupos congéneres a descobrirem o acervo musical inexplorado que a Biblioteca Geral da UC conserva. “É um acervo extraordinário, do qual conhecemos apenas a superfície, e que merece mesmo ser estudado”, conclui.

 

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