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UC: Estudo descobre que receptor regulador do apetite também controla a memória

17 de Fevereiro 2021 Jornal Campeão: UC: Estudo descobre que receptor regulador do apetite também controla a memória

Um estudo internacional liderado pela Universidade de Coimbra (UC) revelou que o receptor da grelina, uma hormona reguladora do apetite, assume um papel muito importante na interligação dos sinais biológicos de fome, saciedade e memória.

Com o objetivo de compreender em que medida as hormonas com uma função no metabolismo regulam a função sináptica, que assegura a comunicação entre neurónios essenciais à formação de memórias, este estudo consistiu em investigar “se, na ausência da hormona estimuladora, a actividade constitutiva (basal) do receptor da grelina é relevante para a formação de memórias e se tem impacto nos mecanismos moleculares envolvidos nessa formação”, revelou Ana Luísa Carvalho, coordenadora do estudo.

Isto significa que, sabendo-se que o receptor poderia ter alguma actividade na ausência da hormona, “a designada actividade constitutiva, que é regulada, por exemplo, pelo nível de saciedade do indivíduo, a investigação centrou-se em observar essa actividade em neurónios, o que nunca tinha sido realizado até agora, e em perceber a sua relevância para os mecanismos moleculares de formação de memórias” referiu a investigadora.

Combinando metodologias “in vitro” e “in vivo”, onde se incluem estudos de comportamento animal (estudo com murganhos), estudos de imagiologia celular (por exemplo, análises em células vivas de mobilidade intracelular de moléculas) e estudos bioquímicos, os cientistas descobriram que “a actividade constitutiva do receptor da grelina em neurónios do hipocampo é significativa, e que contribui para a regulação tónica do tráfego celular de receptores do glutamato do tipo AMPA e para os mecanismos de plasticidade sináptica, e que suporta a formação de memórias”, afirmou Ana Luísa Carvalho. “Nas experiências realizadas, quando a actividade constitutiva do receptor da grelina foi bloqueada observaram-se alterações na memória dos animais”, salientou.

Este estudo “identifica a actividade basal de um receptor membranar (cujos níveis

e actividade são dependentes do estado interno do indivíduo) como reguladora da formação de memórias. O receptor em causa tem os níveis e actividade basal regulados pelo estado de saciedade do indivíduo, sendo que essa atividade é importante na capacidade de formar novas memórias e nos mecanismos subjacentes. Fármacos que bloqueiam a actividade constitutiva do receptor são considerados possibilidades terapêuticas em algumas doenças metabólicas, por exemplo, mas é importante ter em conta que podem ter efeitos secundários ao nível da memória”, esclareceu a docente da FCTUC e investigadora do CNC.

Liderado por Ana Luísa Carvalho, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC), e por Luís Ribeiro, do CNC, o estudo foi publicado na revista “Science Signaling”.

A equipa integra outros investigadores do CNC, como Mário Carvalho e Tatiana Catarino, que são também autores principais do estudo e ainda do Centro de Biologia Molecular “Severo-Ochoa”; da Universidade Autónoma de Madrid (Espanha) e do Instituto Interdisciplinar para a Neurociência da Universidade de Bordéus (França).

O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pelo

Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional através do programa “BrainHealth 2020”.

O artigo científico está disponível em: https://stke.sciencemag.org/content/14/670/eabb1953  e o vídeo que ilustra a investigação em: https://drive.google.com/file/d/1sNX8mre2rXyG91ApyoXOqz03PsYWdPLH/view