Coimbra  24 de Junho de 2019 | Director: Lino Vinhal

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UC cria acelerador de partículas para diagnóstico de cancro

8 de Fevereiro 2019

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Francisco Alves, João Gabriel Silva e Antero Abrunhosa, com um dos modelos de ciclotrão da IBA, em visita às instalações da empresaem Louvain-la-Neuve, Bélgica

A Universidade de Coimbra desenvolveu um acelerador de partículas, pioneiro a nível mundial, que torna mais acessível um diagnóstico preciso e fiável do cancro da próstata e do cancro do pâncreas, anunciou aquela instituição.

O Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), unidade da Universidade de Coimbra (UC), desenvolveu, em parceria com a multinacional belga IBA, um acelerador de partículas (ciclotrão), que vai optimizar a produção do isótopo Gálio-68, fundamental para o diagnóstico de cancro da próstata e do cancro do pâncreas, e até aqui de difícil acesso, num investimento de dois milhões de euros.

A tecnologia para a produção deste isótopo e transformação em radiofármaco foi completamente desenvolvida pelo ICNAS e a criação de ciclotrões que permitem extrair o Gálio-68 de forma optimizada, mais pura e mais eficiente, foi feita em colaboração com um dos maiores fabricantes de ciclotrões a nível mundial, a IBA, explicou à agência Lusa o coordenador do projecto, Francisco Alves, do instituto da UC, durante uma visita à fábrica belga, perto de Bruxelas, iniciativa na qual também esteve presente o reitor da universidade, João Gabriel Silva.

O primeiro ciclotrão deste tipo deverá chegar a Coimbra em Março e a sua produção pela IBA (utilizando a tecnologia patenteada pelo ICNAS) para todo o mundo avançará após a sua validação na UC.

Este acelerador de partículas tem a especificidade de funcionar ‘a duas energias’. Se, anteriormente, o ciclotrão funcionava apenas com a extração do feixe a 18 milhões de elétron-volts (MeV), este novo acelerador permite a extração também a 13MeV, o que optimiza a produção do Gálio-68, aclarou Francisco Alves.

Apesar dos seus cerca de dois metros de altura e largura, o acelerador pesa perto de 17 toneladas, e, lá dentro, faz-se aquilo a que o investigador do ICNAS denomina de “alquimia do século XXI”.

Transforma água em Flúor-18 (o isótopo mais utilizado para diagnóstico de cancro) e, agora, vai passar a transformar uma solução onde está dissolvido zinco (um elemento estável e presente na natureza) em Gálio-68, um elemento radioactivo.

Este elemento radioactivo poderá mudar por completo o acesso ao diagnóstico a partir de radiofármacos para tumores neuroendócrinos (pâncreas) e da próstata, salienta o coordenador do projecto.

“Não são tumores normalmente detectados no exame clássico e que estão a ter uma importância crescente. Os neuroendócrinos são muito agressivos e muito mortais, e a sua detecção precoce é muito importante”, vincou.

Até ao momento, o processo para utilizar Gálio-68 para esses exames de diagnóstico era muito dispendioso, tendo que se comprar um gerador deste isótopo – que custa cerca de 70 000 euros -, que pode demorar ano e meio a chegar e que depois apenas dura seis meses, com capacidade para produzir duas a três doses diárias.

“Estamos a tornar o gálio muito mais acessível, o exame fica a um custo mais baixo” e produz as doses de acordo com as necessidades do sistema de saúde, vincou.

O director do ICNAS, Antero Abrunhosa, salienta que a “escassez do Gálio é um problema global”, apontando até para o caso de uma carta da Associação Americana de Medicina Nuclear para a agência norte-americana FDA (semelhante à Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde – Infarmed) que, em 2018, alertou para a falta desse isótopo e referiu que a solução poderia estar na Europa, a partir da tecnologia desenvolvida em Coimbra.

Segundo Antero Abrunhosa, a tecnologia já está patenteada na Europa e está com o processo em curso noutros países, nomeadamente nos Estados Unidos da América.

Em Portugal, esperam dentro de semanas ter a permissão do Infarmed para produzir e distribuir o Gálio-68 a partir do ciclotrão, cujos exames com este isótopo, neste momento, atingem uma lista de espera que pode chegar aos três meses.

Para além da melhoria no diagnóstico do cancro, este isótopo permite, ainda, “avaliar qual o grau de evolução da doença, verificar qual a melhor terapêutica ou se a terapêutica que está a ser seguida é eficaz ou não”, referiu o director do ICNAS.

Na vanguarda

O desenvolvimento de um acelerador de partículas (ciclotrão) que vai melhorar o processo de diagnóstico do cancro mostra que a Universidade de Coimbra está “na vanguarda” desta área do conhecimento, afirma o reitor.

Para João Gabriel Silva, o desenvolvimento deste ciclotrão – com tecnologia da Universidade de Coimbra patenteada – e aquilo que poderá significar para os avanços no diagnóstico do cancro, mostra que a instituição está “na fronteira mundial do conhecimento desta área”.

“Felizmente, temos recursos e não íamos perder aquilo que tanto nos custou, que foi a liderança mundial. Estou convencido de que o retorno económico vai pagar o investimento feito”, nomeadamente na maior captação de financiamento externo para investigação, vincou.

O ciclotrão único no mundo deverá chegar a Coimbra em Março e representa um investimento de dois milhões de euros repartido em partes iguais pela Universidade e pela multinacional belga IBA, sem recurso a qualquer ajuda estatal ou de fundos europeus, disse à agência Lusa o reitor da instituição, João Gabriel Silva, durante a visita à fábrica perto de Bruxelas onde o acelerador está a ser construído.

O ICNAS produz cerca de 20 radiofármacos diferentes – cinco autorizados para produção e distribuição junto do sistema de saúde -, estimando-se que já tenha sido responsável por mais de 100 000 exames feitos em Portugal a partir das doses criadas na sua unidade de produção desde 2012, disse à Lusa director do instituto, Antero Abrunhosa.

“Temos um efeito muito grande na regulação de preços [destes radiofármacos]. O nosso objectivo não é o lucro, é a sustentabilidade de um projecto de investigação na Universidade, sendo que, assim que entrámos no mercado, os preços das doses caíram para menos de metade”, salienta.

Segundo Antero Abrunhosa, o ICNAS, para além de ter permitido uma poupança do Serviço Nacional de Saúde (SNS) no recurso a estes radiofármacos (que antes vinham de Espanha), permitiu um maior acesso dos doentes a este tipo de tecnologia, muito utilizada para diagnóstico de tumores.

A médio e longo prazo, pretendem produzir outros radiofármacos e poder passar a fornecer não só Portugal como cidades espanholas que estão mais perto de Coimbra do que de Madrid, como é o caso de Salamanca.

“Temos que olhar estrategicamente para Espanha como mercado natural”, defendeu o director do ICNAS.

Para além disso, alguns exames especializados que obrigavam a deslocações de doentes para o estrangeiro, já podem ser feitos em Coimbra, e começam a atrair as principais farmacêuticas, como a Pfizer ou a Roche, para ensaios clínicos.

“A nossa abordagem passa pelo desenvolvimento com aplicação na sociedade, que se traduz em patentes, a ligação a empresas. Isso traz-nos fundos e torna-nos relativamente independentes das flutuações dos financiamentos em Portugal, que são uma montanha russa”, vincou.

 

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