Coimbra  19 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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UC conclui que há discriminação de género na prática desportiva

16 de Outubro 2019

Uma equipa do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) realizou um estudo que concluiu que o ambiente local (social e construído) promove modelos de discriminação na prática desportiva infantil baseada no sexo, contribuindo bastante para a obesidade em meninas.

Esta é uma investigação pioneira que avalia a relação entre o ambiente e as diferenças de género na actividade física e nas taxas de prevalência da obesidade infantil.

A equipa, liderada por Helena Nogueira, começou por avaliar em que medida a actividade física influência a prevalência da obesidade infantil por género. Foram avaliadas 2253 crianças de 19 escolas públicas e privadas do distrito de Coimbra, com idades compreendidas entre os seis e os 11 anos.

Nesta avaliação observou-se que as meninas apresentaram valores mais altos de excesso de peso e obesidade em comparação com os meninos (25,1 por cento e 20,1 por cento, respectivamente).

Verificou-se que o envolvimento em práticas desportivas organizadas fora da escola é significativamente maior nas crianças do sexo masculino (73,3 por cento nos meninos e 66,5 por cento nas meninas). Confirmou-se, ainda, que a prática desportiva tem um impacto positivo no peso das meninas, revelando pouca influência no peso dos meninos.

Com base nestes resultados, os investigadores tentaram identificar os factores ambientais que explicam a diferença de género na obesidade infantil.

Para tal, avaliaram a oportunidade de prática desportiva no concelho de Coimbra através de um questionário realizado em ginásios, associações e clubes desportivos, entre outros, com oferta formal de actividades desportivas para a faixa etária entre os seis e os 11 anos.

“Efectuámos o levantamento das actividades disponíveis e estabelecemos três categorias de frequência – mistas, isto é, frequentadas por ambos os sexos, modalidades só frequentadas por meninas e modalidades só frequentadas por meninos – e descobrimos que a oferta é muito desequilibrada, penalizando fortemente as meninas”, relata Helena Nogueira.

Responderam 33 instituições, confirmando-se que a disponibilidade de actividades desportivas é discriminatória.

“Das 23 modalidades identificadas, 13 apresentam frequência mista, sete são frequentadas exclusivamente por meninos e apenas três estão voltadas para as meninas (dança, ballet e ginástica). Esta realidade prejudica as oportunidades de as oportunidades de as meninas praticarem desporto fora da escola, o que é, só por si, uma desvantagem social”, sublinha a investigadora.

Segundo a também docente do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, as conclusões deste estudo publicado no ‘American Journal of Human Biology’, sugerem várias reflexões: “verificou-se que a prevalência da obesidade é maior em crianças de classes sociais mais baixas, que são também as que têm menos condições de pagas actividades desportivas fora da escola. Por isso, não só é necessário criar mais oportunidades para as meninas se envolverem nos seus desportos favoritos, como também proporcionar modalidades desportivas para a frequência fora da escola a um custo que as famílias com menores condições económicas possam suportar”.

Como medidas para combater a epidemia da obesidade infantil e promover a igualdade de género na prática desportiva, a investigadora preconiza “a atribuição de incentivos (subsídios) de apoio às instituições que oferecerem às crianças mais pobres oportunidades de acederem à prática de desporto fora da escola; a alteração do currículo no ensino básico, introduzindo mais tempo para actividade física obrigatória”.

Este estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e faz parte do projecto de investigação “Desigualdades na obesidade infantil: o impacto da crise económica em Portugal de 2009 a 2015”, coordenado por Cristina Padez.

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