Coimbra  18 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Timor-Leste investe 11,8 milhões de euros em estaleiro naval na Figueira da Foz

19 de Agosto 2021 Jornal Campeão: Timor-Leste investe 11,8 milhões de euros em estaleiro naval na Figueira da Foz

Uma sociedade detida a 100% pela Região Administração Especial de Oecusse-Ambeno (RAEOA), em Timor-Leste, vai investir 11,8 milhões de euros na recapitalização de um estaleiro naval na Figueira da Foz, disse fonte do projecto.

Com o investimento de Timor-Leste nos Estaleiros Navais do Mondego (ENM), detidos pela AtlanticEagle Shipbuilding, esta empresa passa a ter dois sócios: a sociedade de desenvolvimento criada pela RAEOA, com 95% do capital, e Bruno Costa, gerente único da Atlantic Eagle, com 5%.

Há seis anos, em 2015, o Governo timorense adjudicou à Atlantic Eagle Shipbuilding a construção de um ferry, o Haksolok, destinado à ligação com o enclave de Oecusse e a ilha de Ataúro, para além de dois pontões de acostagem e passadiços. Devido a dificuldades financeiras da empresa, o navio não foi concluído e os estaleiros viriam a suspender a actividade em 2018.

Após um pedido de insolvência, a AtlanticEagle Shipbuilding viu aprovado em 96% um Plano Especial de Recuperação, com os votos favoráveis da Autoridade Tributária, Segurança Social e do seu maior credor, precisamente a RAEOA.

Em declarações à agência Lusa, Bruno Costa disse que o investimento de 14 milhões de dólares (cerca de 11,8 milhões de euros) de Timor-Leste na capitalização da empresa detentora dos ENM “não é um investimento só para acabar o ferry e os pontões”.

“Esta ideia de investimento é capitalizar para se poder competir no mercado [da construção e reparação naval]. Timor não vem só buscar o ferry que está ali parado. Num primeiro momento sim, será acabar o ferry e os pontões, mas a ideia principal é uma perspectiva de investimento de longo prazo, para podermos competir no mercado nacional e internacional e sermos competitivos”, explicou o gerente da AtlanticEagle Shipbuilding.

Bruno Costa adiantou que a recapitalização da empresa “se prevê imediata” e que o investimento de Timor-Leste nos estaleiros pretende também “permitir uma formação de timorenses e transferência de conhecimento e tecnologia”.

“[A recapitalização] terá de ser imediata, porque o estaleiro terá de arrancar o mais rápido possível, sem dúvida nas próximas semanas, para podermos começar a trabalhar. E, obviamente, não só acabar as construções [o ferry e os pontões], mas começar a trabalhar noutras possibilidades de encomendas que já existem e em reparações”, enfatizou.

Quanto ao navio, atracado ao cais dos estaleiros na margem esquerda do Mondego, em frente ao porto comercial da Figueira da Foz e decorado em tons de azul, verde e branco – atravessado, a todo o comprimento, por uma faixa vermelha e amarela, cores presentes na bandeira de Timor-Leste – está “praticamente inalterado em qualidade”, sublinhou Bruno Costa, estando cerca de 70% concluído.

“Faltam cerca de 30% em termos de trabalhos globais. Todos os equipamentos principais estão colocados dentro do navio, faltam os acabamentos, acomodações e concluir os sistemas de electricidade, automação e navegação”, frisou o gerente da AtlanticEagle Shipbuilding.

Em 2015, e ainda segundo Bruno Costa, o contrato de construção do Haksolok foi assinado por 13,3 milhões de euros, a que acrescem os pontões de acostagem: “No global, em termos de contratos, são cerca de 20 milhões de euros”, disse.

Bruno Costa, “apaixonado pela área naval”, é oriundo de uma família “ligada à construção naval há 80 anos”, na região de Aveiro, nos estaleiros de São Jacinto (encerrados em 2004) e na Naval Ria, actualmente propriedade da Martifer, antes de chegarem aos estaleiros do Mondego, em 2012, pela mão do pai, Carlos Costa (falecido em 2016) e outro sócio.

Quanto aos trabalhadores dos ENM, o gerente da AtlanticEagle Shipbuilding “quer manter a espinha dorsal do conhecimento que existia no Mondego e até em São Jacinto”.

“Grande parte dos actuais [dos estaleiros da Figueira da Foz] mantêm-se, os que estão há muitos anos e têm muito conhecimento. Em termos de quadros fixos, vamos contratar até 40 pessoas. Depois, de acordo com os picos de trabalho, como em qualquer estaleiro e consoante as necessidades, subcontratamos pessoal”, sustentou.

Os Estaleiros Navais do Mondego fazem reparações e construção naval em aço e alumínio, e Bruno Costa pretende “apostar muito no alumínio”.

“É uma aposta minha e Timor concorda. Somos o único estaleiro que constrói em alumínio em Portugal, é um material nobre na construção, queremos manter esse conhecimento e até exponenciá-lo”, afirmou.

 

 

Investimento de Timor-Leste em estaleiro naval em Portugal espera ter apoio do Estado português

O investimento de 11,8 milhões de euros que Timor-Leste vai fazer nos Estaleiros Navais do Mondego (ENM), na Figueira da Foz, espera contar com o apoio do Estado português no reinício da actividade, disse fonte da empresa.

“Há uma coisa pela qual vamos lutar, que é pela ajuda do Estado português. É o primeiro grande investimento que Timor-Leste faz num país, é uma coisa nova. E, portanto, tem um interesse estratégico e político muito grande”, disse à agência Lusa Bruno Costa, gerente da AtlanticEagle Shipbuilding, empresa cujo sócio maioritário é uma sociedade de desenvolvimento criada pela Região Administração Especial de Oecusse-Ambeno (RAEOA), de Timor-Leste.

“A partir de agora [do investimento de Timor-Leste na recapitalização dos estaleiros navais] Timor também espera do Estado português algum tipo de apoio a este investimento que está a fazer”, argumentou Bruno Costa.

Essas ajudas, segundo o gerente dos ENM, passam por eventuais apoios à recuperação das infraestruturas dos estaleiros navais – afectadas ao nível das coberturas dos pavilhões e outros danos pela tempestade Leslie de Outubro de 2018, meses após os estaleiros terem suspendido a actividade por dificuldades financeiras – mas também “pelas condições” das rendas que a empresa de construção e reparação naval paga à administração portuária da Figueira da Foz, adiantou.

“Era muito importante, importantíssimo, que o Governo português também ajude nesta iniciativa, que é de um país irmão. Espera-se do Estado português uma ajuda, uma abertura, para, de alguma forma, agradecer, entre aspas, esta entrada [de Timor-Leste no estaleiro], que vai recuperar uma indústria, a da construção naval”, argumentou Bruno Costa.

Ouvido pela Lusa, Carlos Monteiro, presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, considerou a recuperação dos Estaleiros Navais do Mondego como “extremamente importante para a Figueira da Foz e para o país”.

“Nós fomos sempre exercendo todas as influências e dando todo o apoio necessário para que os estaleiros reabrissem. E [a reabertura] também é importante para Timor-Leste, porque tem aqui um activo que está parado, que é a embarcação que precisa de recuperar”, frisou o autarca.

Por outro lado, Carlos Monteiro destacou a recuperação de cerca de 40 postos de trabalho – onde se incluem trabalhadores dos ENM, que têm a sua actividade suspensa há mais de três anos, mas também outros que a AtlanticEagle Shipbuilding quer contratar.

Quanto à possibilidade de apoios estatais, o presidente da Câmara crê que estarão em causa apoios relacionados com as rendas pagas pelos estaleiros à administração portuária, “nomeadamente algumas que estarão em atraso”.

“E, independentemente de a indústria naval ser importante no concelho da Figueira da Foz, ela também é muito importante em termos nacionais. E hoje, quando estamos na agenda da mitigação das alterações climáticas e da economia azul, mais pertinente é o funcionamento dos estaleiros”, afirmou.