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“Sou uma pessoa realizada a todos os níveis”

25 de Novembro 2018

Publicado a 04 de Outubro de 2018, na edição n.º 944

 

Nome: Maria HELENA Rosa de TEODÓSIO e Cruz Gomes de Oliveira
Naturalidade: Covões – Cantanhede
Idade: 60 anos
Profissão: Presidente da Câmara Municipal de Cantanhede
Passatempos: Viajar; ler
Signo: Peixes

“Filha única, neta única e sobrinha única de um dos lados”, diz ser o resultado de muito “mimo e afecto”, criada no seio de uma família de “ambiente calmo e feliz”. Helena Teodósio completou a escola primária na sua terra natal, na localidade de Covões, em Cantanhede, mas aos dez anos mudou-se para Coimbra e ficou em casa da avó, para
continuar os estudos na escola pública, ingressando no Liceu D. Duarte (“porque a minha mãe sendo professora do ensino público achava – e bem – que eu tinha de seguir esse mesmo ensino”). Desse tempo recorda a antiga e agitada Baixa de Coimbra e a liberdade que tinha logo em tenra idade: “Recordo-me que a minha mãe me levou à paragem do café Nicola, na altura ainda havia muito trânsito pela baixa, e disse-me qual o autocarro que apanhava para o liceu e o eléctrico para a Alliance Française onde comecei a tirar também o curso de francês. No primeiro dia a minha tia foi comigo, no segundo dia eu já fui sozinha. E acho que me fez bem porque com esta envolvência e esta possibilidade de muita preocupação familiar em mim também me deu asas para saber aquilo que tinha de fazer. Claro que não deixava de ser uma criança com dez anos e lembro-me do meu pai me ter dito para ter cuidado e não ir para o Choupal ou para o Jardim da Sereia…mas aí eu simplesmente não ia”, recorda.

Terminado o, equivalente hoje ao, ensino secundário, a dúvida residia em escolher entre a área de Economia ou de Direito. “Gostava muito de Letras e Matemática. Economia era um curso novo em Coimbra e parecia abrir-me portas para aquilo que eu queria fazer que era ir para a Diplomacia, que foi a minha primeira atracção. O meu pai preferia que eu tivesse ido para Direito porque havia alguma tradição na família. A minha mãe nunca tendeu para curso nenhum e acabei por apostar em Economia, entrando na faculdade no ano lectivo 76/77”, conclui.

Três anos depois, pelas circunstâncias da vida (já casada e com um filho), faz uma pausa no curso, a qual acaba por ser irreversível.
Começa a trabalhar como professora de Geografia, primeiro em Anadia e depois em Sever do Vouga surgindo entretanto a oportunidade de trabalhar no Banco de Portugal em Coimbra, cargo que alcança após conseguir o primeiro lugar no concurso aberto para o efeito. Faltando a parte práctica para conseguir o estatuto de trabalhadora
estudante em Economia, a par do ano conturbado que vivia com a morte do pai, resolveu inscrever-se na licenciatura de História. Um curso com o qual sempre se identificou e que conseguiu tirar graças ao habitual e grande apoio familiar. Conclui ainda, depois, uma Pós-Graduação em Direito da Banca, Bolsa e Seguros e uma nova licenciatura em Gestão e Administração Pública.

Em 1994 integra a Comissão Política de Cantanhede numa campanha que, confessa, ter sido das mais empolgantes que viveu e, em 2001, entra na Câmara Municipal de Cantanhede com o pelouro dos recursos humanos (RH), da acção social e da educação e, a partir daí, “as coisas acontecem naturalmente”. Reitera, no entanto, que “é preciso
gostar mesmo do que se faz. Eu entro com um tipo de pelouro mais ligado às pessoas e não tinha práctica nenhuma autárquica mas tive a sorte de ter um presidente, o Jorge Catarino, com a qual criei uma dinâmica muito própria. A confiança que ele me transmitiu, o apoio que me deu, fez-me crescer e implementar projectos e isso foi muito
bom. Preparámos um plano estratégico para 20 anos porque, ainda hoje digo, uma autarquia não pode ser pensada como um barco a navegar à vista, tem de haver um projecto a médio prazo e isso foi feito através desse mesmo plano onde foi entendido o que pretendíamos a todos os níveis.

Claro que esse plano já voltou a ser analisado e afinado porque nem sempre o que projectamos pode seguir duma forma linear devido a uma série de razões que o alteram. Após dois mandatos de Jorge Catarino, preparámos a sucessão seguinte, o João Moura passou para número um e eu para número dois. Passei a ter pelouros diferentes: as áreas financeira e administrativa, urbanismo, obras municipais, modernização administrativa, património…mas do primeiro mandato até hoje fiquei sempre com os RH. É um pelouro que gosto particularmente pelo contacto com os
funcionários e todas as temáticas a ele ligadas.

O João Moura deu-me ainda ‘mais asas’, o que era natural, porque ele tinha muitos compromissos de representação
institucional o que permitiu que me tenha entregue muitos dos pelouros que ele tinha. Alguma dúvida estávamos sempre em contacto, ele confiou plenamente em mim e isso foi muito bom. Por isso criou-se uma ideia muito natural da sucessão, claro que o partido é que decide mas as pessoas achavam que ia ser eu a suceder. Quem está na vida autárquica tem mesmo de gostar, não só de trabalhar por uma causa e em prol de uma terra, mas também gostar de estar em contacto directo com as pessoas e eu sempre gostei disso, fruto também do ambiente familiar, principalmente, com um pai muito ligado ao associativismo e à actividade autárquica”, conclui.

Hoje, apenas lamenta não ter tempo para continuar a estudar e dar azo ao gosto pela música que durante anos a acompanhou, mas são contingências imperativas em prol de um bem maior e um caminho do qual se regozija: “Se voltasse atrás era isto que eu queria estar a fazer hoje. A vida autárquica tem-me proporcionado anos extraordinários.
Não quer dizer que seja uma pessoa diferente do que era mas tornei-me uma pessoa mais confiante e alicerçada e acho que esta vida me tornou muito mais segura de mim. Sou, sem dúvida, uma pessoa realizada a todos os níveis.”

E ainda…

“A minha mãe, sendo uma pessoa muito independente (porque à época havia poucas mulheres que trabalhassem e fossem independentes financeiramente), enfrentava as coisas de uma forma muito mais aberta até do que o meu pai.”

“Gostava também do teatro e de música. Cheguei a tocar saxofone alto e depois viola porque fazia parte do coro da igreja. Essa parte tenho pena de ter perdido porque precisa de treino e eu gosto muito de cantar, fiz parte de vários coros. São momentos de relaxe muito bons, mas agora não consigo ter tempo. Também joguei futebol mas não era grande coisa. Era defesa central, era mais força física do que técnica. [risos] E adoro viajar. Durante muitos anos ia ao estrangeiro na Páscoa e isso também foi importante para o crescimento dos meus filhos porque fez com que eles tivessem outra visão e contacto com culturas diferentes…”

“Era uma época diferente. Hoje os alunos acham estranho mas naquele tempo estávamos na aula e tanto fumavam alunos como professores. Foi uma época muito efervescente. Muitas actividades daquelas reuniões de alunos, eu vivi isso tudo. Passei pelo luto académico… e para voltar a por uma capa não era fácil. Hoje em dia isso não existe.”
“Nunca consigo desligar totalmente e não estar em contacto com os e-mails da Câmara.”

“Sou muito optimista e acho que o facto de ter nascido numa família com um ambiente muito bom fez com que esse alicerce me tenha dado esta serenidade que tenho.”
“Faço questão de, por exemplo, aumentar e incentivar as ligações com a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM), entre muitas outras coisas, porque acho muito importante, mas ir retira algum tempo. A vida autárquica não tem nada a ver com a do Banco de Portugal de sair às 16:30 e ir para casa.”

“Temos de ter conhecimento de como funciona uma vida associativa que é o coração de uma freguesia. A minha família esteve sempre ligada à vida associativa e política o que contribuiu decisivamente para entender com conhecimento de causa, as dificuldades, o empenho e a dedicação de quem se entrega à causa pública e eu ganhei
esse gosto desde muito nova.”

“Só gosto de trabalhar à base da confiança. Gosto de estar na vida com total confiança na equipa em que estou e a acreditar que conseguimos que o projecto que criámos para o concelho chega a bom porto. Quero que Cantanhede continue a crescer de forma controlada, com qualidade de vida, tornar-se um concelho onde as pessoas tenham prazer em viver e onde sintam que têm oportunidades de crescer. Por isso há grande aposta nas zonas industriais com boas associações desportivas e sociais, portanto se conseguirmos dar essa qualidade de vida às pessoas, o objectivo estará conseguido. E tudo isto que planeio e anseio sempre alicerces que são o meu marido, os meus filhos e netos, a família e os amigos. Que me continuem a dar esse mimo para que tudo seja possível.”

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