Coimbra  28 de Setembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

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“Sinto-me feliz a fazer o que faço”

24 de Junho 2020 Jornal Campeão: “Sinto-me feliz a fazer o que faço”

Perfil publicado a 17 de Outubro de 2019, na edição n.º 994

 

Nome JOSÉ MANUEL Marques da Silva PUREZA

Naturalidade Coimbra

Idade 60 anos

Profissão Professor universitário; Deputado e Dirigente do Bloco de Esquerda; ex-vice-Presidente da Assembleia da República

Passatempos Coleccionador de marcadores de livros, chaves magnéticas de quartos de hotel e versões de standards de jazz; ler

Signo Sagitário

 

É conimbricense de gema e nunca se questionou como poderia ter sido a sua vida se não fosse este o berço que o viu nascer e crescer. Coimbra é, visivelmente, a cidade menina dos seus olhos.

Viveu o 25 de Abril aos 15 anos e, por isso, acredita que todo o seu percurso a partir daí, “assim como o de muitos jovens da mesma geração”, foi fruto dessa circunstância.

“O «bichinho» da política já existia desde jovem. No momento em que começo a ter alguma capacidade para reflectir e olhar à minha volta com algum critério o fenómeno político era algo fervilhante e mobilizador da minha atenção. Todo o meu crescimento se faz pela centralidade do fenómeno político. Toda a minha geração é muito marcada por isso”, afirma.

A envolvência política da época bem como a “vontade de conhecer e estudar a relação do poder com os cidadãos”, levam José Manuel Pureza a ingressar, mais tarde, no curso de Direito na Universidade de Coimbra (UC), não com o intuito de exercer “um dia alguma das profissões padrão deste curso” mas sim o de se direccionar para o Direito Internacional e para as Relações Internacionais, área em que, posteriormente, também se doutorou e que desenvolveu, já como docente, a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Licenciou-se em Junho de 1981. Nesta altura já tinha conhecido a, hoje, sua esposa numa outra dimensão, que, ainda hoje, o caracteriza: a de católico praticante. Fez parte da Juventude Universitária Católica, onde pertenceu à equipa diocesana e nacional do movimento. Dois meses depois de se formar, casou-se e em Outubro do mesmo ano começou a trabalhar. “Foi o ano que marcou a minha vida para sempre”, conclui.

O seu início de carreira foi o único interregno na vida coimbrã ao abrir uma vaga para assistente estagiário na Universidade Nova de Lisboa. Dez anos depois, regressa a Coimbra, naquela que foi uma fase muito “forte” no seu trajecto de vida: “é o regresso à casa, onde tudo tinha feito sentido. É o ingresso numa faculdade com uma equipa docente que era de extrema qualidade e que me acolheu de forma muito fraterna e depois o enorme privilégio de ser investigador do Centro de Estudos Sociais”, relembra o deputado.

Hoje, José Manuel Pureza tem uma vida de exclusividade política, mantendo apenas orientações de tese na Faculdade de Economia de Coimbra Não quer, no entanto, desligar-se nunca da UC, até porque sente ter “uma dívida para com ela” por tudo o que contribuiu para o que hoje é.

Foi deputado pelo círculo eleitoral de Coimbra na XI Legislatura e líder parlamentar do Bloco de Esquerda (de 2009 a 2011) e na agora finda XIII Legislatura (desde 2015) em que desempenhou também as funções de vice-presidente da Assembleia da República.

Entre as XI e XIII Legislaturas, foi candidato às eleições legislativas de 2011 para a XII legislatura, não tendo sido eleito. Nas eleições presidenciais de 2006 foi mandatário nacional da candidatura de Francisco Louçã.

Actualmente, é deputado (recentemente reeleito por Coimbra), sendo conhecido por ser o único deputado do Bloco de Esquerda católico, uma condição que o professor vê e gere com naturalidade. Foi, aliás, um dos rostos pela despenalização da morte assistida não tendo dúvidas (apesar do seu catolicismo) da força que o movia nessa luta.

Assume-se como activista, defendendo que, um católico não pode deixar de o ser. Foi, por diversas vezes, criticado pelas posições que defende, algumas consideradas pela igreja contrárias ao catolicismo. Para José Manuel Pureza, não são mais que “duas perspectivas que se completam” (a de Esquerda e a da Igreja).

Autor de obras como ‘O património comum da humanidade: rumo a um Direito Internacional da solidariedade? (1998)’, ‘Para uma cultura da paz (2001)’ e ‘Jovens e trajectórias de violência: os casos de Bissau e da Praia (2012)’, José Manuel Pureza está este momento está a preparar, com um colega de Lisboa, um livro colectivo sobre debates teóricos em Relações Internacionais. Foi ainda docente convidado em várias universidades estrangeiras e autor de vários artigos. Teve, até hoje, “uma vida plena” e, talvez por isso, se sinta um homem realizado a todos os níveis. Mas, “a realização é uma palavra enganadora. Porque se com isso queremos dizer que já fiz o que queria, é

mentira. Não fiz. Há um caminho sempre aberto com desafios a aparecerem a cada momento. Aliás, esta passagem pelo parlamento trouxe-me a noção clara que quando há um dossiê que pensamos estar fechado, não está. O desafio esta sempre à nossa frente. Gostava, portanto, de ter mais alguns anos de vida para continuar estes desafios. É certo que esta vida é uma vida muito absorvente, a minha vida familiar fica muito limitada. Passo a semana em Lisboa e venho ao fim-de-semana a Coimbra. É a parte menos feliz da ‘coisa’. Mas eu vou sempre com entusiasmo e empenho. Sinto-me feliz a fazer o que faço”, conclui.

 

E AINDA…

Sempre disse que a eleição era incerta e digo-o com toda a franqueza. Agora é claro que vamos vendo os estudos de opinião e vamos tendo uma noção geral, mas já sabemos que as coisas mudam de um dia para o outro.”

Eu acho que esta legislatura vai ser diferente da anterior. Nesta altura quero estabelecer planos para intervir no espaço que dez por cento dos votos nos dão para puxar as políticas de esquerda. Tenho muita determinação para aprofundar o que já se fez nos últimos quatro anos.”

Não consigo imaginar a minha personalidade, que se formou ao longo dos anos, sem a marca do compromisso político. Não na forma que hoje é muito cultivada que é a ideia de uma carreira política, o que eu acho um disparate, mas sim a do compromisso militante na política, um compromisso com um certo modo de vida ou vontade determinada de transformar a realidade de uma certa perspectiva.”

Coimbra precisa de muitas coisas, mas antes de tudo isso, das coisas concretas, precisa de uma mobilização cidadã muito forte. E não tem tido isso. Há um défice de mobilização cidadã muito grande, que o Movimento Cidadãos por Coimbra (que eu ajudei a fundar e no qual me mantenho com muita convicção) procura desempenhar. As transformações que Coimbra precisa ou arrancam de uma mobilização das pessoas ou aparecem desenhadas a régua e esquadro sabe-se lá vindas de onde.”

Os conimbricenses coíbem-se muitas vezes de assumir uma opinião sobre os assuntos da cidade. E é preferível que haja uma opinião cidadã diversa do que a ausência de opinião.”

A função de deputado leva a uma vida muito absorvente. Quando se exerce essa responsabilidade com afinco, trabalha-se muito e é-se confrontado com dossiês muito complexos.”

Para mim o compromisso político está intimamente ligado à minha tarefa, enquanto crente, no mundo. A esquerda foi onde encontrei maior proximidade aos ideais que defendo.”

Pergunto-me se quem estranha que um católico possa ser de esquerda tem igual estranheza para com um católico que, sendo de direita, professa um entendimento liberal da ordem económica e do mundo do trabalho, algo que vai em sentido completamente oposto ao que é um dos eixos centrais da Doutrina Social da Igreja.”

Faço parte de uma força política cujo programa é conhecido. Muito empenhada em puxar por questões essenciais da vida das pessoas. Portanto, a minha eleição é trazer um pouco mais de força para essa batalha quotidiana, por exemplo, por um Serviço Nacional de Saúde capaz de dar resposta às pessoas, uma escola com qualidade de formação, uma luta por um salário mínimo mais digno…”

Na próxima legislatura, os temas dos direitos do trabalho, da qualidade dos serviços públicos essenciais e da resposta determinada à emergência climática têm que ocupar uma posição central no parlamento e no debate público.”