Coimbra  29 de Novembro de 2023 | Director: Lino Vinhal

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Sílvio Correia Santos: a nova voz por detrás do TAGV em Coimbra

12 de Novembro 2023 Jornal Campeão: Sílvio Correia Santos: a nova voz por detrás do TAGV em Coimbra

 

Sílvio Correia Santos é uma figura proeminente no campo das Ciências da Comunicação, com uma vasta trajectória académica e profissional. Doutorado nesta área, é professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), onde se destaca como docente nas disciplinas de rádio, multimédia e jornalismo. Actualmente, Sílvio Correia Santos assume a posição de director do Teatro Académico de Gil Vicente, demonstrando um compromisso contínuo com o enriquecimento cultural e artístico da comunidade académica e local.

 

Campeão das Províncias [CP]: O que o motivou a aceitar o desafio de dirigir o TAGV?

Sílvio Correia Santos [SCS]: Foi, em primeiro lugar, o reconhecimento da importância e relevância desta instituição cultural em Coimbra. Ao mesmo tempo, o convite despertou em mim um misto de emoções. Por um lado, havia um certo receio natural, pois compreendi desde logo a magnitude e responsabilidade associadas a este cargo. Conhecia bem o trabalho dos anteriores directores, em especial o meu colega da Faculdade de Letras, o Fernando Matos Oliveira, e isso acrescentou um elemento de ponderação. No entanto, a ligação que tenho às artes e a Coimbra, aliada ao fascínio pelo desafio, foram determinantes para aceitar a posição. Foi uma decisão consciente, pois sabia que iria enfrentar uma tarefa complexa, mas ao mesmo tempo, a oportunidade de contribuir para um projecto tão emblemático como o Teatro Académico de Gil Vicente era verdadeiramente entusiasmante.

 

[CP]: Quais são os objectivos que estabeleceu?

[SCS]: Os objectivos que estabeleci ao chegar ao Gil Vicente não implicaram uma ruptura com o trabalho realizado pelo Fernando Matos Oliveira, que esteve à frente do teatro desde 2011. Considero o seu trabalho extremamente meritório. Naturalmente, com o passar do tempo, deixamos a nossa marca e, ao final dos quatro anos, é provável que se note diferença no caminho percorrido.  Os objectivos que tracei estão relacionados com a condição particular do Teatro Académico de Gil Vicente, que é um espaço cultural único. Na prática, é o único espaço cultural desta natureza que faz parte de uma Academia. Deve servir como palco para as manifestações culturais da Academia e ser um elemento dinamizador deste movimento cultural. Temos muito orgulho em desempenhar esse papel. No entanto, não podemos esquecer que o TAGV foi a maior sala de espectáculos em Coimbra durante muito tempo. Muitas pessoas tiveram a sua formação cultural e ideológica neste espaço. O TAGV construiu essa reputação enquanto sala de espectáculos, para além da sua inserção na Academia.

Trabalhamos com base nesta dupla condição.

Queremos continuar a dar palco e incentivar o crescimento das dinâmicas culturais na Academia, neste momento em que as artes estão aí a ser repensadas. Queremos que o Gil Vicente seja um facilitador nas dinâmicas artísticas da Universidade de Coimbra, mas também na cidade. E, claro, continuar com actividade relevante a nível nacional e internacional.

 

 

[CP]: Como se relaciona o TAGV com outras estruturas da cidade?

[SCS]: O TAGV relaciona-se muito bem com outras estruturas. Aliás, antes mesmo de vir para aqui, estive numa reunião com diversas entidades da cidade para prepararmos a edição do próximo ano do “Abril Dança”. Este festival reúne várias estruturas, sendo o TAGV o seu ponto de origem, uma vez que o projecto teve início no mês da dança do TAGV. Posteriormente, juntaram-se o Convento de São Francisco, o Teatrão e a Escola da Noite. Somos todos co-produtores deste festival que acontece em Coimbra, o que é um reflexo do excelente relacionamento que mantemos.

O TAGV mantém essa relação não só no âmbito das co-produções, mas também enquanto espaço de acolhimento para espectáculos. Estamos muito próximos de diversas estruturas na cidade. Além do exemplo do “Abril Dança”, posso mencionar a recente Mostra de Teatro Galego, na qual também fomos co-produtores. Estamos ligados a companhias de teatro profissional, a grupos de teatro amador da cidade e a diversos grupos musicais, bem como a outras estruturas de dança e performance. O Teatro Académico de Gil Vicente é um interveniente absolutamente central na dinâmica cultural da cidade e é com muito orgulho que afirmo que fazemos parte deste tecido e contribuímos para que ele se mantenha vibrante e vivo.

 

[CP]: O que significa o TAGV integrar a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses?

[SCS]: Integrar a Rede foi um marco muito importante para nós, pois permitiu elevar a capacidade de intervenção. Não se trata apenas de um ganho financeiro, embora tenhamos agora apoio plurianual. Esta inserção, aliada ao financiamento da Reitoria, possibilita-nos programar com bastante antecedência e, acima de tudo, conceptualmente, de forma mais estruturada. Neste momento, somos a única sala com estas características em Coimbra a fazer parte desta rede.

Actualmente estamos a finalizar a programação para 2024. Essa programação já conta com alguns elementos que resultam do trabalho da nossa equipa, mas também segue o que já estava alinhavado, visto que o financiamento vem de algum tempo atrás. Estou bastante entusiasmado com o que o ano de 2024 nos reserva, embora haja algumas surpresas das quais ainda não posso falar.

 

[CP] O que tem o TAGV para oferecer de programação até ao final do ano?

[SCS]: Bem, não irei revelar integralmente toda a programação até ao final do ano, pois seria muito extenso. Mas faço um par de destaques.

Continuamos com as sessões de cinema às segundas-feiras. É algo para que chamo a atenção, pois temos duas sessões, uma às 18h00 e outra às 21h00, sempre com escolhas muito interessantes. Na próxima segunda-feira, dia 6, por exemplo, teremos a exibição do filme “A Sibila”, que é a primeira longa-metragem de Eduardo Brito, uma pessoa muito ligada a Coimbra por ter estudado aqui e também ter trabalhado na Rádio Universidade. O próprio Eduardo estará presente na sessão e haverá uma conversa com o Professor Abílio Hernandez, que foi professor de cinema na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.  Gostaria de salientar que estamos prestes a iniciar o festival “Caminhos do Cinema Português”, que é um evento com características únicas no país e que já se afirmou ao longo de 28 edições. Este festival decorrerá ao longo de uma semana, com quatro sessões diárias a exibir o que tem sido produzido em Portugal. É um programa intenso, sem dúvida, mas extremamente rico e que oferece uma perspectiva única.

Estes são apenas alguns destaques até ao final do ano. Há muito mais em agenda para os nossos espectadores.

 

 

[CP]: Como está o panorama cultural em Coimbra?

[SCS]: O panorama cultural em Coimbra é bastante dinâmico e rico. Às vezes ouvimos pessoas dizerem que “em Coimbra não acontece nada”, mas acredito que isso tem mais a ver com o facto de algumas pessoas não estarem em contacto com a divulgação das actividades culturais na cidade. Na verdade, se quiséssemos participar em todos os eventos que acontecem em Coimbra, seria praticamente impossível, pois há uma grande variedade de acontecimentos e muitas vezes ocorrem simultaneamente.

Nos últimos anos, Coimbra tem ganho uma dinâmica cultural muito interessante, com uma ampla oferta de iniciativas que se tornaram já habituais. Além disso, têm surgido novos espaços culturais na cidade, o que contribui para a diversidade e vitalidade da cena cultural.

Como a minha área de origem é a comunicação, penso que talvez haja margem para melhorar a forma como os eventos são divulgados. Poderia haver uma maior articulação entre os meios de comunicação e os organizadores de eventos para garantir uma divulgação mais eficaz.

Está em desenvolvimento um projecto para criar uma agenda agregadora que reunirá informações sobre uma variedade de espaços culturais na cidade. Esta plataforma centralizada permitirá às pessoas consultar facilmente o que está a acontecer na cidade e, com isso, ajudar a desmistificar a ideia de que em Coimbra não acontece nada.

 

[CP]: É um observador atento da informação que se faz. Como está o jornalismo?

[SCS]: O fenómeno da crise no jornalismo não é novo; já se falava na crise do jornalismo nos anos 90, e ao longo destas últimas duas décadas, essa crise tem persistido e tem-se agravado. Hoje, falamos desta crise devido a dinâmicas diferentes das que se verificavam nos anos 90. Está associada aos padrões de consumo de informação, aos seus fluxos de circulação e também à forma como as empresas de comunicação são financiadas. Tudo isto está directamente relacionado com a Internet e com os hábitos das pessoas que a utilizam diariamente, muitas vezes sem pagar por conteúdos jornalísticos de qualidade.

Porém, esquecemo-nos de que as empresas de comunicação precisam de financiamento para produzir jornalismo de qualidade. Com o declínio das vendas de jornais em formato físico e a relutância das pessoas em pagar por conteúdo digital, surgiu um desafio para as empresas sustentarem este modelo de negócio.

Além disso, há uma outra questão que é a dificuldade para muitos utilizadores na Internet em distinguir fontes de informação confiáveis de fontes menos confiáveis. Por exemplo, uma notícia de um jornal de referência tende a passar por um processo de verificação que a torna mais confiável, enquanto uma notícia de uma fonte menos confiável pode ter maior margem de erro. A questão é: como é que as pessoas conseguem fazer essa distinção?

Estamos num momento complicado, no qual a confiança na informação se tornou um desafio.

Entrevista: Luís Santos/ Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 9 de Novembro de 2023