Coimbra  22 de Maio de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Rovisco Pais: a única leprosaria nacional que hoje é Centro de Reabilitação

3 de Fevereiro 2024 Jornal Campeão: Rovisco Pais: a única leprosaria nacional que hoje é Centro de Reabilitação

Inaugurado na década de 40, o Hospital-Colónia Rovisco Pais (HCRP), também conhecido como Leprosaria Nacional Rovisco Pais, localizado na Tocha, foi um projecto higienista necessário no combate ao tratamento, estudo e profilaxia da lepra. Em Portugal foi a única unidade dedicada a esta doença e foi considerada uma das mais inovadoras no mundo. Durante décadas recebeu centenas de pessoas infectadas pela lepra, muitas delas também do estrangeiro. Hoje transformou-se num Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais com vista à preservação do património e à musealização de espaços e memórias.

 

A lepra, também conhecida como a doença de Hansen, é uma infecção crónica causada por bactérias de crescimento lento chamadas Mycobacterium leprae, e por norma afecta os nervos, pele, olhos e revestimento do nariz (mucosa nasal). Se não for tratada a tempo os danos nos nervos poderão resultar em graves lesões nas mãos e nos pés, paralisia e cegueira.

Outrora temida como uma doença altamente contagiosa e devastadora, desde 1982 é possível controlar através do seu tratamento (poliquimioterapia) e não é mais uma doença que se propaga.

No passado domingo (28), assinalou-se o Dia Mundial dos Doentes de Lepra, instituído em 1954 pela Organização das Nações Unidas (ONU), a pedido de Raoul Follereau, escritor e jornalista que se dedicou à causa dos doentes de lepra.

Marcado sempre no último domingo de Janeiro em cerca de 130 países, a Organização tem como objectivo “alertar a população mundial para as condições de sofrimento e de miséria em que vivem muitos milhares de pessoas atingidas pela doença da lepra”.

Embora na Europa a doença não seja uma preocupação, as estatísticas actuais continuam a deixar em alerta, sobretudo em países que têm problemas de saúde pública, como o Sudeste Asiático, África e América do Sul. A doença está presente em mais de 100 países e em território nacional registam-se alguns casos provenientes de países onde a doença ainda é endémica.

 

 

O papel do Hospital  

No combate a esta doença, muito contribuiu o Hospital-Colónia Rovisco Pais.

Devido ao elevado número de leprosos na zona Litoral Centro, o isolamento em aglomerados populacionais e com boas condições de clima e de solo, quer para a terapêutica da lepra, quer para o desenvolvimento de actividades agrícolas, a freguesia da Tocha, em Cantanhede, foi o local escolhido para inaugurar, em 1947, a leprosaria nacional, numa área de 140 hectares.

A propriedade, conhecida como a Quinta da Fonte Quente, teve várias unidades de tratamento e apoio, serviço de internamento e espaços de actividade, bem como um bloco operatório e uma ala dedicada ao laboratório onde eram efectuadas as análises. Aqui a vida vivia-se de forma autónoma e era considerado “um mundo dentro de outro mundo”.

“Este Hospital teve uma relevância imensa. A partir do momento que começou a fazer o combate à doença assumiu, de facto, um lugar raro neste país. Foi considerado um dos melhores locais do mundo para tratar esta doença. Na sua missão, a leprosaria foi uma unidade do mais alto nível em qualidade científica, produziu imenso trabalho na altura e teve um papel importante, conseguindo fazer praticamente a erradicação da doença no país”, destacou José Pagaimo, internista no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais, que viveu ainda a fase final da lepra no então HCRP e acompanhou os doentes ao longo dos anos.

Com todas as condições, o HCRP tinha secções de medicina, cirurgia e fisioterapia, laboratório, farmácia, asilos, núcleos residenciais para doentes, bairros para funcionários, capela, creche e preventório para crianças. Funcionando como dispensário central, incluía ainda serviço de consultas externas, de brigadas móveis e enfermagem domiciliária.

Durante o período de funcionamento, como unidade especializada em hanseníase, o HCRP acompanhou cerca de 2.800 doentes. No ano de 1955 registou o maior número de doentes internos, cerca de 914.

“Nem todos os doentes eram internados – sempre houve doentes externos. Contudo, todos os doentes com diagnóstico de doença de Hansen, até 1976, eram acompanhados pelo HCRP, que funcionava como dispensário central e epicentro do combate e assistência à doença. Muitos doentes nunca chegaram a ser internados, mas eram acompanhados pelas equipas das brigadas e de enfermagem domiciliária”, refere Cristina Nogueira, curadora do Núcleo Museológico do Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais (CMRRC-RP).

O internamento era ditado por critérios que variaram ao longo do tempo. Logo após o diagnóstico, e verificada a necessidade de internamento, os doentes eram instalados nos edifícios consoante a sua situação clínica. Os casos mais avançados e os doentes mais idosos com maior grau de invalidez eram instalados nos asilos, os restantes ocupavam os pavilhões colectivos, mediante o género. Os doentes que compunham a mesma família ocupavam as casas dos núcleos familiares. Para as crianças sãs, que não tinham familiares de retaguarda, existia uma creche e um preventório, afastado do perímetro hospitalar onde residiam, tendo assistência social, clínica e instrução primária gratuita, enquanto os pais estivessem em tratamento.

“Durante a permanência no HCRP, e mediante a sua situação clínica, os doentes podiam aprender um ofício e até trabalhar, recebendo remuneração, o que os fazia sentir-se úteis. Como os internamentos eram muito longos fomentavam-se actividades recreativas e fornecia-se a possibilidade de fazer a instrução primária na escola de adultos. Havia grupo de teatro, equipas de futebol, rancho, um jornal e até cinema ao ar livre. Aos domingos podiam receber visitas, e se as análises permitissem, por vezes tinham licenças para ir a casa. As condições oferecidas eram francamente superiores às da maioria da população”, sublinha a também historiadora.

 

Dificuldades de integração

Ao longo da sua história milenar, esta doença despertou nas sociedades sentimentos de compaixão ou medo. Nem todos entendiam o que era esta doença e na altura não havia tanta informação como hoje há. Os tratamentos para a cura da doença demoraram a ter a eficácia necessária e enquanto isso vivia-se em constante sobressalto. Muitos doentes escondiam-se e não queriam ser internados.

Embora no Hospital-Colonial Rovisco Pais todos os doentes se sentissem iguais, a realidade fora dali era por vezes difícil de lidar. Muitos ficavam sob os olhares da sociedade, já não se sentiam integrados fora do hospital, optando por regressarem de novo e dar continuidade à vida que por ali construíram. “As sequências que a doença deixava eram muito agressivas, mas aqui a vida era como se nada se passasse, era normal dentro desta situação. Os doentes viviam em núcleos familiares, num bairro com mini-apartamentos, tinham uma espécie de horta adjacente que desenvolviam a título pessoal e tinham também algumas actividades de ocupação. Iam sendo acompanhados, fazendo exames e análises, obrigando a um cumprimento da toma da medicação”, conta José Pagaimo.

Segundo Cristina Nogueira, as grandes dificuldades no tratamento da doença foram o desconhecimento generalizado dos primeiros sintomas ou longo do período de incubação, que dificultavam o diagnóstico precoce e o início do tratamento na fase inicial da doença, bem como a existência de muitos casos avançados.

Recorde-se que, naquela altura, havia em Portugal uma prevalência de cerca de 60% do tipo mais crónico e contagioso da doença – a lepra lepromatosa.

Para além disso, conseguir fornecimento dos novos medicamentos, em quantidade e de forma regular foi também um desafio. Já as questões socioeconómicas e culturais foram ainda um entrave na melhoria da doença, uma vez que influenciavam o processo de tratamento, nomeadamente o facto da literacia e das condições de vida da maioria da população ser bastante distinta da actualidade.

Números ainda preocupam

Segundo o relatório publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a 15 de Setembro, no ano de 2022, foram diagnosticados 174.087 novos casos de lepra, verificando-se um aumento em relação a 2021 de 23,8%. Até ao final de 2022 estavam em tratamento 165.459 pacientes. Este aumento de diagnóstico e tratamento deve-se ao melhoramento dos cuidados de saúde globais pós pandemia. Ainda assim, há um longo caminho a percorrer.

O diagnóstico de novos casos de lepra nas crianças também aumentou em relação a 2021 em 14,6%, representando 5,9% do total dos novos casos, tornando-se um indicador de transmissão contínua e recente da infecção na comunidade.

Os novos casos de lepra com deformações visíveis aumentaram, tanto nos adultos como nas crianças, em 17,6% e 19,5%, pelo que revela um diagnóstico tardio da doença, mas onde se procura dar mais investimento da prevenção e formação para que estes casos sejam diagnosticados atempadamente.

Em Portugal, o número de doentes é reduzido e quando surgem novos casos são geralmente importados de países endémicos de África, América Latina e Ásia, sendo tratados pelo Serviço Nacional de Saúde.

A Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau (APARF) afirma que é “necessário apostar na prevenção e no diagnóstico precoce para travar a propagação da doença” e para isso é preciso dotar “as populações mais pobres ao acesso a cuidados de saúde, água potável, condições sanitárias e alimentação básicas”.

Para José Pagaimo, “enquanto houver uma fonte como África, América Latina e Ásia sem condições sanitárias, com toda a facilidade que hoje os povos têm de mudar de continente em poucas horas, é evidente que a doença não será erradicada”.

Actualmente, no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais habitam ainda dois ex-doentes de Hansen, já com idade superior aos 90 anos, sob guarda e vigilância, embora estejam negativos à doença.

 

Leprosaria transformada em Centro de Reabilitação  

Com a doença praticamente extinta em Portugal, apenas com acompanhamento aos doentes, o Hospital-Colónia Rovisco Pais foi extinto e reconvertido, em 1996, em Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais. Para este transitaram todos os direitos, obrigações e património do ex-Hospital Colónia, que continuou a assegurar a prestação de cuidados aos ex-doentes no Serviço de Hansen.

Em Maio de 2012 foi iniciada a prestação de uma nova tipologia de cuidados, com a inauguração da Unidade de Cuidados Continuados de Convalescença, com 30 camas, especificamente direccionada para doentes pós-acidente Vascular Cerebral e pós-cirurgia do Aparelho Locomotor. Em Junho de 2015 a unidade de Cuidados Continuados de Convalescença alargou a sua capacidade para 60 camas, face à pressão da procura deste tipo mais diferenciado de cuidados. Hoje o Centro de Medicina de Reabilitação tem capacidade total para mais de 140 utentes.

O actual Centro exerce actividade de interesse público nas áreas de cuidados de saúde, ensino e investigação na saúde, nos cuidados diferenciados de reabilitação, doentes com lesões neurológicas cerebrais e medulares, lesões músculo-esqueléticas, amputados, grandes politraumatizados, reumáticos, queimados e com lesões cardiovasculares, entre outros.

 

 

ENTREVISTA

 

Núcleo Museológico do Rovisco Pais mantém viva memória da Leprosaria

Situado no Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais, o Núcleo Museológico, inaugurado em 2021, tem tido um importante papel na preservação de uma das épocas mais marcantes da história com a doença de Hansen, procurando transmitir ao público um conjunto significativo de património cultural e científico do antigo Hospital-Colónia Rovisco Pais. Cristina Nogueira é historiadora e curadora do Núcleo Museológico e falou ao “Campeão” sobre o percurso e a essência deste espaço.

Campeão das Províncias [CP]: O Núcleo Museológico do Hospital-Colónia Rovisco Pais (NMHCRP) lançou, em 2021 aquando da sua abertura, o desafio de manter viva a memória deste período da nossa história. Tem conseguido esse caminho até agora?

Cristina Nogueira [CN]: Sim, os resultados superaram as expectativas.

Ao assumir a missão de preservar a história e memórias do antigo hospital, o CMRRC-RP percebeu a importância de promover a fruição deste património, único no nosso país e, dessa forma cumpriu um princípio basilar na gestão do património que reside na ideia de que o património cultural é de todos.

No caminho percorrido até aqui foi vital o apoio da Sasakawa Health Foundation, pois além de permitir recursos financeiros, deu estímulo ao projecto. E, decorrido este tempo, há ainda espaço para crescer e melhorar a vários níveis. Sabemos as potencialidades existentes e, por isso, acreditamos que não estão esgotadas as possibilidades de activação, valorização e revitalização do Património Cultural e da História desta aldeia terapêutica, idealizada à luz das mais modernas concepções de saúde pública e assistência da época.

Também a participação na Conferência Internacional da Doença de Hansen em Bergen (Noruega) permitiu sublinhar que Portugal esteve à frente do seu tempo na luta contra a hanseníase e que o seu modelo, e o conhecimento acumulados podem beneficiar a luta que ainda se trava contra a doença em várias regiões do mundo. Foi com grande entusiasmo que percebemos que o NMHCRP ocupa hoje um lugar de destaque no quadro dos locais de memória associados à hanseníase e é apontado também como uma referência neste domínio da História da Saúde a nível internacional.

 

[CP]: O que podemos encontrar ao visitar o Núcleo Museológico do Hospital-Colónia Rovisco Pais?

[CN]: O NMHCRP compreende dois pólos. No pólo situado numa das alas da Capela, o edifício mais central de todo o complexo do HCRP, encontra-se uma reserva visitável com a exposição permanente, inaugurada em 2021. No pólo situado no Conventinho, o edifício original da Quinta da Fonte Quente, que remonta ao século XVII, e que outrora pertencera ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, situa-se o acervo documental e a sala da biblioteca científica.

O percurso expositivo faz reviver os objectos e cenários, e exibe um conjunto significativo de património cultural e científico do antigo hospital através do qual é possível conhecer a actividade clínica e o quotidiano da aldeia terapêutica nas suas múltiplas perspectivas, inserindo-a no contexto social, cultural e científico da época. As visitas guiadas oferecem uma autêntica “viagem no tempo” pela história da medicina, da saúde e da assistência social no século XX. Trata-se de uma experiência que fomenta a reflexão, tão holística quanto possível, em torno do binómio saúde/doença, e que tem tido uma receptividade bastante positiva dos visitantes.

 

[CP]:Há interesse por parte do público em visitar e conhecer mais sobre o assunto?

[CN]: Existe um crescente interesse na História da Saúde, em parte relacionado com a situação pandémica recente da Covid-19 e, por outro lado, com a progressiva preocupação com as questões de saúde e bem-estar.

A hanseníase é uma luta antiga da humanidade que ainda não está ganha. Para os historiadores é considerada uma doença-emblema, ou a doença das doenças, a par, naturalmente com a Peste Negra. E, apesar, do seu agente causador (Mycobacterium leprae) ter sido identificado há precisamente 150 anos na Noruega, e de hoje ter cura, ainda não está erradicada e registando-se mais de 200.000 novos casos por ano em todo o mundo.

 

[CP]: Consegue dar números das visitas que o NMHCRP recebe?

[CN]: Até ao momento, o NMHCRP recebeu mais de 2.500 visitantes provenientes de vários pontos do país e do estrangeiro. Acaba por ser um bom indicador do interesse suscitado pelo NMHCRP, sobretudo se tivermos em consideração a especificidade da temática, a localização física, fora de um centro urbano, e, sobretudo, o facto de não termos visitas diárias, e de estas se realizarem na modalidade de visita guiada, em grupo e mediante agendamento prévio através dos contactos: Telefone: 231440966 e Email: secretariado@roviscopais.min-saude.pt. Regularmente anunciamos datas para visitas guiadas. As próximas serão realizadas no 24 de Fevereiro e 23 de Março, às 15h30.

 

Cristiana Dias
»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 1/2/2024]