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Reportagem: TEUC é o mais antigo em funcionamento na europa

26 de Fevereiro 2022 Jornal Campeão: Reportagem: TEUC é o mais antigo em funcionamento na europa

Actualmente com 84 anos é o teatro universitário mais antigo ainda em actividade na Europa. Criado em 1938 pelo professor Paulo Quintela, ainda com a designação de grupo Cénico da Secção de Fado Académico de Coimbra, hoje é conhecido por Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC). Considerado, à altura, o pioneiro neste âmbito, pelo fluxo de partilha e de reflexões, continua ainda hoje a desempenhar um papel primordial nas criações artísticas, muitas vezes experimentais, mas que, na história do teatro português, acabaram por deixar a sua marca, tendo o grupo de teatro surgido numa altura em que esta arte no panorama português não era algo muito explorado. O grupo universitário assumiu um importante papel, durante a década de 40/50, de levar até ao público lusófono as suas peças, em especial às antigas colónias portuguesas. “O TEUC era muito reconhecido internacionalmente, mesmo sendo um grupo de teatro universitário, talvez por ter sempre apostado em clássicos como Gil Vicente e Shakespeare”, refere Wilson Domingues, elemento da Direcção.

Um grupo inclusivo

Estudantes ou não, todos são bem-vindos neste grupo que se considera muito abrangente. “Actualmente existe muito desinteresse pelo teatro, no entanto, há ainda quem queira experimentar e o TEUC ajuda nesse sentido”, refere o jovem de 20 anos. De dois em dois anos o grupo de teatro realiza um curso de formação, no qual fazem uma selecção através de audições, com o intuito de ensinar os seus futuros elementos. Cada curso é restringido a cerca de 15 pessoas “para que o formador consiga trabalhar individualmente com cada um”, sublinha Wilson Domingues. O curso não tem limite de idade, nem de nacionalidade, tendo muitos participantes do Brasil e de países de língua espanhola. “A barreira da língua é normalmente ultrapassada. Faço parte do grupo há dois anos e, da experiência que tenho, é fácil trabalhar com pessoas de outras nacionalidades. Claro que com pessoas do Brasil se torna mais fácil, no entanto, acredito que se voltarmos o teatro para o corpo a barreira da língua nem se levanta”, frisa o jovem estudante. O TEUC realiza os seus ensaios e espectáculos num espaço cedido pela Associação Académica de Coimbra, um local com capacidade para 70 pessoas, a que o grupo chama de “Teatro de Bolso”. “É o nosso espaço, onde recebemos pessoas e onde recebemos também espectáculos de outros grupos de teatro, que muitas vezes ensaiam e actuam na nossas instalações na sua passagem por Coimbra”, refere o jovem. Sem encenador fixo, o grupo convida ou contrata alguém sempre que quer realizar uma nova produção, trabalhando com a pessoa durante cerca de um mês, um mês e meio, “o que se torna enriquecedor pois permite contactar com muitas facetas”. O TEUC costuma, frequentemente, participar no FATAL – Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa, um festival que tem por missão promover e divulgar o teatro universitário português, “continuando a garantir- -lhe um lugar de honra na vida cultural portuguesa e destacando a capital na rota dos grandes festivais europeus de teatro universitário”. Em Maio do ano passado o TEUC levou a este festival a peça “Pelo menos hoje”, que estreou em Outubro de 2020, e que reflecte sobre a pandemia de covid-19 e a maneira como esta desconstruiu formalidades quotidianas, com parte dos actores a representarem através da plataforma Zoom. “Com o confinamento, algumas das pessoas que estavam em formação regressaram às suas terras e outras para os seus países de origem, sem a possibilidade de voltarem a Coimbra para entrar em cena”, sublinha Wilson Domingues, acrescentando que a peça, para além de ser uma reflexão sobre a situação que se vive, é também um espelho desse mesmo contexto, “juntando os vídeos dos actores que estão fora com os que estão em palco”. Em Novembro do mesmo ano, o grupo participou também no 25.º Ciclo de Teatro Universitário da Beira Interior, na Covilhã, que é o mais antigo Ciclo de Teatro Universitário do país, com a peça “Experiências sobre o luto”.

As maiores adversidades

Tratando-se de um grupo de teatro universitário, são vários os desafios a que o grupo se vê obrigado a enfrentar diariamente para se manter em funcionamento, nomeadamente a falta de financiamento e de recursos humanos. “A função da Direcção passa por manter o organismo vivo, temos um enorme trabalho para captar financiamentos, pois só assim conseguimos realizar a nossa actividade”, frisa o estudante. O grupo de teatro conta, actualmente, com o apoio do IPJ – Instituto Português da Juventude e da Câmara Municipal de Coimbra, no entanto as ajudas não são tão frequentes como gostariam. “Como contratamos encenadores externos para a realização das peças, acabamos por ter mais despesas, além de todos os outros custos inerentes a uma produção de teatro. As ajudas acabam por não ser suficientes”. A falta de recursos humanos é também apontada por Wilson Domingues como uma das principais dificuldades. “Como referi, organizamos o curso bienal, no qual entram cerca de 15 pessoas e temos também um outro curso técnico onde os inscritos podem aprender a trabalhar com luz e som. No final das contas acabam por entrar para o grupo de teatro por volta de 15 pessoas a cada dois anos”, lamenta o jovem, que refere também que muitos dos formandos, depois de terminarem o curso, afastam-se, “deixando o grupo sob a direcção de um punhado de pessoas, o que dificulta o nosso trabalho, pois recai muito sobre cada um. É preciso ter uma grande força de vontade e muito amor para ultrapassar estes obstáculos”. Wilson Domingues considera que o “desinteresse” e o desapego pela arte do teatro por parte dos estudantes universitários se agravou depois de Bolonha, que veio encurtar a duração dos cursos universitários, levando as pessoas a não permanecerem tanto tempo em Coimbra.

Ana Luísa Pereira

»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 17/02/2022]