Coimbra  17 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

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REPORTAGEM: Cova Funda fez da qualidade e da família os seus maiores pilares

18 de Junho 2023 Jornal Campeão: REPORTAGEM: Cova Funda fez da qualidade e da família os seus maiores pilares

Falar hoje do Cova Funda é recordar o Espanhol, estabelecimento de há bastantes décadas atrás, situado ali mais ou menos a meio da Rua da Sofia. Era, nessa altura, mais Café e Casa de petiscos do que restaurante. Ao balcão quase sempre o proprietário, um cidadão de nacionalidade espanhola que um dia arribou a Coimbra e por cá se foi deixando ficar. Conversador agradável naquele seu castelhano aportuguesado, simpático no atendimento, era despachado a servir os clientes com quem estabelecia um relacionamento também fácil, fidelizando assim muita gente da Baixa, e não só, que ali iam tomar café ou beber um copo, cerveja ou cachaça que fosse, petiscando ou comendo qualquer coisa que havia sempre à mão.

Café a nível do rés-do-chão, o estabelecimento tinha e continua a ter hoje uma cave ampla, com duas ou três salas muito acolhedoras. Para refeições ou reuniões de grupo eram, como são hoje ainda, excelentes. A esse espaço, onde funciona também a cozinha, se foi dando o nome de Cova Funda que aos poucos se foi apoderando do nome pela qual é conhecido hoje: Cova Funda. É o restaurante de muita gente que trabalha na Baixa e os estudantes, sobretudo em tempo de festas académicas não o dispensam. Procuram-no bastas vezes exactamente por esse perfil de Cova Funda onde se come e bebe bem, nada impedindo que depois se deixe cair a cabeça no tampo da mesa e passar pelas brasas até que o fecho se anuncie.

 

Os primeiros passos de alguns jovens

 Nesse tempo do “Espanhol” foram vários os funcionários que por ali foram passando, ali se mantendo mais ou menos tempo. Dois deles, porém, não da mesma idade, mas gerações sucessivas, davam nas vistas por duas razões essenciais, entre outras que pudesse haver: diligentes no atendimento em sala e ao balcão quando calhava, parecia que tinham pilhas nas pernas tal a facilidade que acudiam a várias mesas ao mesmo tempo, estabelecendo com cada cliente uma relação fácil, educada, fazendo de cada qual um amigo que vinha hoje, vinha amanhã, até se tornar assíduo e cliente fiel do então Espanhol, hoje Cova Funda. De perna ligeira, aqueles dois funcionários deram imensa vida ao estabelecimento e enquanto iam crescendo na vida e no trabalho, o Espanhol ia-se deixando fazer velho e as forças a faltarem-lhe. Até que, de palavra em palavra, a coisa ficou assim: o Reis, ladino, esperto como um rato, um sexto sentido para o negócio da restauração, foi-se embora montar o seu próprio negócio quando viu chegada a sua altura. Está hoje no Terreiro da Erva, onde todo o mundo o conhece e do seu restaurante fez destino para muita gente de Coimbra e muita outra que, quando em Coimbra, ali vai almoçar ou jantar. O Nicolau, mais novo, mais calmo mas de olho em tudo e mais alguma coisa, ficou com o Cova Funda que passou a gerir sozinho a partir do momento em que o comprou. Deu-lhe os toques que considerou adequados em nome da melhor funcionalidade e fez do estabelecimento um local com personalidade. Teve o cuidado de lhe não alterar o perfil, pelo que os clientes se mantiveram na sua grande parte e, saído o Espanhol a caminho do seu próprio destino, ficou o Cova Funda que Coimbra respeita e considera hoje como um dos seus espaços de eleição para refeições, variadas, a que nunca falta o grão de bico com bacalhau, um dos pratos que faz as honras da casa. E ali continua, oxalá que por muito e bom tempo.

 

As origens do Cova Funda

Conversámos com Nicolau Oliveira, o proprietário actual, já recuperado dum achaque que teve há dois ou três anos. Depois de nos confirmar que a História do Cova Funda começa cum uma família espanhola que deixou o país vizinho por causa da guerra civil, explicou-nos:

 

O Restaurante faz parte da história da Rua da Sofia, em Coimbra

 

Uma casa com história

A História do Restaurante Cova Funda começa com uma família de espanhóis, que deixou seu país natal por conta “dos períodos difíceis”, como foi “a Guerra Civil”.

“Quem abriu esta casa fundou, também, uma padaria, que estava localizada na Alta de Coimbra, onde hoje é a Universidade. Porém, na altura, o Salazar deitou muitos espaços abaixo para poder aumentar as Faculdades e um dos comércios afectados foi a padaria”.

Assim, os irmãos Manuel, Benito e Pepo, antigos donos da padaria, dirigiram-se até a Baixa da cidade, para trabalhar num restaurante, que pertencia a um primo.

Já no local, decidiram fazer “uma troca”: os irmãos ficavam com o restaurante, enquanto o primo abria um café num outro espaço. Com o acordo fechado, nasceu o Cova Funda, em 1947.

Embora o famoso Espanhol seja da década de 40, o alvará da casa data de 1930. E, mesmo assim, acredita-se que a abertura desse restaurante seja ainda mais antiga, tendo passado por diferentes donos e estilos.

“Os irmãos permaneceram na casa por cerca de 60 anos”, conta. Ao longo dessas décadas, muitos colaboradores entraram e saíram do Restaurante, mas um, em especial, transformou este estabelecimento num lar.

“Este restaurante representa tudo para mim. Como tenho dito, quase nasci aqui e acho que aqui vou morrer”, concluiu.

 

Décadas de muito trabalho

Nicolau Oliveira trabalha no Cova Funda desde os seus 12 anos. Quando completou o seu 18.º aniversário, esteve um tempo na Tropa e, ao regressar, tornou-se sócio do Restaurante.

Agora, com 54 anos de casa, relembra que muito desse período foi passado ao lado dos antigos proprietários.

Foi este tempo no ramo que garantiu a Nicolau uma certeza: o segredo para manter-se em funcionamento por longos períodos é a família. “Hoje, passamos pelas ruas e vemos casas fechadas, mas há 40 anos atrás nem sequer existia espaço para mais comércios. Quem sobreviveu vai se mantendo. E porque nós sobrevivemos? Porque somos um negócio familiar”, explica.

Actualmente, o Espanhol pertence à família Oliveira: Nicolau, a sua filha Andreia Oliveira, que é gerente, e a sua esposa, Palmira Oliveira, cozinheira.

Essa estrutura actua como “um bom entrave”, para “aguentar” todas as dificuldades, explica.

E problemas, como relembra, foram muitos. As crises económicas (“trabalhávamos, mas o dinheiro não chegava”) e a pandemia (“no dia em que eu fechei a casa, chorei”) são alguns dos exemplos.

 

Um nome popular

Este nome particular, “Cova Funda”, é quase uma representação literal do espaço. Isso porque, ao entrar, os clientes descem as escadas até uma “cova”. Já o nome de “Espanhol” remete aos antigos donos.

Pelo costume dos clientes de se referirem ao Restaurante desta forma, o nome acabou por ficar. E a denominação não é apenas utilizada pelos conimbricenses. Pessoas vindas de diversas localidades também o conheciam por este nome.

“Há alguns anos atrás, as pessoas vinham a Coimbra passar o dia e, enquanto estavam à espera do transporte para regressar à casa, que só chegaria ao fim da tarde, frequentavam estabelecimentos da cidade, como o Cova Funda”, explica o proprietário.

O Restaurante ainda recebe os que vêm de fora da cidade, mas não só: o almoço é maioritariamente frequentado por Coimbra, enquanto à noite são os estudantes que desfrutam da casa.

 

A remodelação

Um estabelecimento aberto por tantos anos passa, inevitavelmente, por mudanças. Com o Espanhol não foi diferente.

“A grande renovação que eu fiz aqui decorreu em 2002. Eu consegui fazê-la para o Restaurante, ainda hoje, estar vivo”, afirma.

A abertura de uma nova sala, aumentando, assim, o espaço para receber clientes, e a reconstrução da “cova” são algumas das mudanças que a obra proporcionou. “Quando eu vim para aqui trabalhar, o chão da parte de baixo [cova] era de terra”, relembra.

Para além do espaço físico, os costumes dos clientes também mudaram com o passar do tempo. Era normal, por exemplo, vender cinco litros de aguardente por dia. “Hoje não se vende um cálice de bagaço”, compara. O vinho, antes muito comercializado no Espanhol, também perdeu força nas vendas.

 

Visitar o Cova Funda hoje

Esta casa, que já recebeu diversas personalidades e figuras políticas, antes e depois do 25 de Abril, continua com as portas abertas. Funcionam de segunda-feira a sábado, das 12h00 às 15h00 e das 17h00 à 00h00.

Os pratos mudam todos os dias, mas a sopa à lavrador e o bacalhau com grão são servidos diariamente, sendo praticamente uma marca registada da casa, estando no cardápio há dezenas de anos.

Na última quarta-feira de cada mês, o jantar é animado com artistas cantando o fado.

 

Nicolau Oliveira, a sua esposa, Palmira Oliveira, e a filha, Andreia Oliveira