Coimbra  25 de Maio de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Reitor da UC: “Crise académica” de 1969 deu início ao 25 de Abril

17 de Abril 2019

O reitor da Universidade de Coimbra (UC), Amílcar Falcão, disse, hoje, não restarem dúvidas de que a “Crise académica” de 1969, cujos 50 anos foram celebrados numa sessão evocativa, deu início ao 25 de Abril de 1974.

“Que não restem dúvidas: foi aqui, em Coimbra, que se deu início à revolução de Abril”, afirmou Amílcar Falcão, lembrando o exemplo dos dirigentes estudantis que, há meio século, se destacaram na luta pela liberdade, como o então presidente da Associação Académica (AAC), Alberto Martins, que “pediu a palavra” na inauguração do Edifício das Matemáticas perante os dignitários do Estado Novo, mas não foi autorizado a falar na presença destes, que acabaram por abandonar a sala.

Hoje, momentos antes da intervenção do reitor, no mesmo auditório do piso térreo do edifício (hoje sala 17 de Abril, assim baptizada na sequência daquele episódio que marcou o início da “Crise académica”), o então presidente da Assembleia Magna, Décio de Sousa, levantou-se, na assistência, e, aparentemente de surpresa, pediu também ele a palavra na sessão, replicando a “ousadia” de Alberto Martins, mas, desta vez, com direito a intervir.

Décio de Sousa lembrou a assembleia que decidiu a greve aos exames, com uma participação recorde “de mais de 50 por cento” dos cerca de 9 000 estudantes inscritos, na altura, na Universidade de Coimbra, argumentando que apesar de ter havido 190 votos contra e 60 abstenções não se registou o “mínimo incidente” entre a esmagadora maioria que aprovou a paralisação e os poucos que se manifestaram contra.

“Foi uma verdadeira lição de civismo e espírito democrático”, assinalou o médico e antigo dirigente estudantil.

Aplaudido de pé pela assistência que enchia a sala 17 de Abril, Alberto Martins lembrou a “coragem” dos dirigentes que o acompanhavam na Direcção-Geral da AAC em 1969, “homens e mulheres que com honra estiveram nos seus postos”.

O antigo presidente da AAC lembrou três antigos colegas, já falecidos, que participaram na luta académica – Fernanda Bernarda, Osvaldo de Castro e José Barros Moura -, recordando que naquele dia 17 de Abril, quando tinha 23 anos e frequentava o curso de Direito, “não havia uma voz que se levantou a pedir a palavra”.

“Era uma voz pela Academia, pedia a palavra por mil estudantes”, ilustrou, lembrando os acontecimentos que sucederam ao episódio, com mais de uma centena de alunos presos, cargas policiais, incorporações militares “por castigo” ou o encerramento da AAC, acontecimentos que viriam a culminar na demissão do reitor da UC e do ministro da Educação.

“Só a compreensão do passado nos permite e dá a capacidade de sonhar e construir o futuro”, enfatizou Alberto Martins.

Na sessão, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, disse que Alberto Martins, ao pedir a palavra a Américo Tomaz, “fez um dos mais curtos e eficientes discursos políticos da História”, destacando-lhe a “ousadia”.

“E o povo, todo um país, pedia a palavra e não parou de a pedir até que lha deram”, afirmou Manuel Machado, numa alusão à revolução de Abril, ocorrida cinco anos mais tarde.

Já o actual presidente da AAC, Daniel Azenha, que abriu a sessão de hoje, destacou igualmente o “acto de coragem” de Alberto Martins, acrescentando que a Associação Académica de Coimbra está “sempre pronta a pedir a palavra e ser a voz de uma geração no meio de uma plateia”.