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Região Centro mantém-se rica em património natural apesar das ameaças

20 de Abril 2024 Jornal Campeão: Região Centro mantém-se rica em património natural apesar das ameaças

“A Região Centro ainda é rica em património natural, apesar da perda gradual de biodiversidade”. Quem o diz é a Associação ALDEIA, um projecto com mais de 20 anos que tem como objectivo contribuir para um desenvolvimento sustentável, fundamentado na conservação da natureza e na preservação da cultura e tradições dos meios rurais. Apesar de nascida no Nordeste Transmontano, a iniciativa foi crescendo e, rapidamente, alargou a sua actividade a outros cantos do país. Nesse sentido, no momento, actua também na zona Centro e no Algarve.

No que ao Centro diz respeito, o projecto trabalha, sobretudo, a partir de Gouveia. Colabora, desde 2009, com o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), recebendo, tratando e devolvendo à natureza animais selvagens feridos. É esta experiência em campo que permite a Ricardo Brandão, presidente da Associação ALDEIA, concluir que a riqueza da Região Centro ainda existe, porém, a sua conservação não é uma prioridade para a comunidade. “Já nem falo das entidades governamentais que têm essa responsabilidade, falo mesmo de todos os sectores da sociedade. Falta dar valor à conservação do património natural que, muitas vezes, colide com os interesses de desenvolvimento das regiões e é foco de conflito permanente”, explica, em declarações ao Campeão das Províncias.

De acordo com o responsável, é urgente desbloquear as divergências e lutar por uma sociedade que olhe pelo futuro do meio ambiente. “Devemos tentar que, no nosso dia-a-dia, todas as nossas acções possam contribuir para a conservação. Isso pode ser feito a partir de uma pequena área, como uma quinta ou o nosso jardim. Ou seja, é possível trabalhar a preservação da natureza do ponto de vista do cidadão”, aconselha.

A constante ameaça

Com um olhar atento sobre os problemas que afectam o mundo rural, a ALDEIA desperta consciências para a necessidade de defender os recursos naturais nacionais. Tendo iniciado o seu percurso há cerca de 20 anos, a associação não tem dúvidas de que, mais do que nunca, o seu trabalho é necessário, alertando para o facto da natureza estar sob constante ameaça. “Hoje em dia, sabe-se mais sobre o processo que afecta o património natural. Assim sendo, é fundamental que a sociedade civil se preocupe, não só em conhecer a biodiversidade, como em contribuir para a sua conservação”, adverte Ricardo Brandão. Acautela ainda que “estamos, por exemplo, numa área onde temos um Parque Natural como o da Serra da Estrela, a maior área protegida do país, que nunca esteve tão ameaçada como agora”.

De forma a sensibilizar a comunidade para esta problemática, o projecto promove acções de educação e formação ambiental, principalmente, nas escolas. “É algo que tentamos que faça parte do nosso leque de actividades proposto a municípios”, sublinha o responsável, descrevendo que “temos quatro protocolos anuais em Gouveia, Manteigas, Fornos de Algodres e Sabugal”. Neste último, foi pedido à associação que colaborasse no desenvolvimento do turismo-natureza, nomeadamente, no que diz respeito ao bird watching (observação de aves), mas não só.

“Há muito a ser feito ao nível da inventariação de espécies no concelho, criação de pontos e percursos interpretativos para os turistas e para a própria população poderem fazer essas actividades de observação de aves e, além disso, também fizemos algumas acções de formação para o sector hoteleiro e turismo rural”, avança Ricardo Brandão.

Sensibilizar as escolas

Em paralelo com as funções desempenhadas nas autarquias parceiras, a ALDEIA marca ainda presença nas escolas, com o propósito de começar a sua sensibilização pelos mais novos. “A grande luta é tirar as crianças da escola, das salas de aula, e pô-las em contacto com a natureza”, admite o responsável. Contudo, a maior parte dos estabelecimentos não possui espaços naturais que permitam realizar as actividades propostas pelo projecto. Desta forma, “sempre que possível, tentamos levar as crianças à floresta ou rio mais próximos, tentando proporcionar momentos de contacto com o ambiente que, esperamos, se transformem em memórias que possam passar para as suas famílias”, afirma.

Dentro dessas iniciativas está, por exemplo, o “Clube do Penas”, uma ideia que partiu dos jovens e que foi desenvolvida pela associação. Consiste em brincadeiras, realizadas em contexto escolar, que permitem que os pequenos possam aprender a conservar a natureza. “Pode ir desde a criação de caixas-ninho, à criação de um pequeno charco para a biodiversidade ou de pequenos hóteis para insectos”, explica Ricardo Brandão, salientando que “a brincar, eles compreendem a importância das relações entre as diferentes espécies  e como é que, a uma pequena escala, podemos contribuir para melhorar a biodiversidade”.

Não obstante, num jardim-de-infância de Gouveia, semanalmente, existe também a “Forest School” (Escola de Floresta), uma iniciativa em que “é dada aos mais novos uma hora de contacto com a natureza, deixando-os em liberdade para explorar o ambiente natural”. Neste caso, Ricardo Brandão frisa que “tentamos explorar a curiosidade das crianças, bem como as suas relações com os outros fora do contexto de sala de aula”. Gestos que trazem inúmeros benefícios para os jovens, inclusive, no que respeita à consciência que adquirem sobre o seu próprio corpo. “Começam a conseguir controlar melhor o corpo com base na experiência e no contacto que têm com o local. Ao fim de semanas, começam a sentir muito mais conforto naquele espaço”, revela.

Engane-se, todavia, quem acredita que a educação chega apenas aos mais pequenos. Segundo a ALDEIA, chegar às crianças é também chegar aos mais velhos. “No geral, sentimos que há uma vontade de mudar um bocadinho a nossa relação com a natureza. Neste contexto de tecnologia no nosso dia-a-dia, há uma maior procura por momentos de liberdade, desde as crianças aos adultos”, realça Ricardo Brandão. No entanto, em termos de consciência para a preservação da natureza, o responsável pela associação não consegue falar ainda em resultados. “Quando olhamos para outros países, como Espanha, nós aqui ainda não estamos bem nessa cultura de contacto, observação e interpretação da natureza. Estamos, talvez, no início desse caminho, mas ainda há muito para fazer”, conclui.

Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)

Texto publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de 18 de Abril de 2024