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Refugiados ucranianos na Figueira da Foz: histórias de dor e esperança

24 de Fevereiro 2024 Jornal Campeão: Refugiados ucranianos na Figueira da Foz: histórias de dor e esperança

Neste dia 24 de Fevereiro a Ucrânia observa um doloroso aniversário: dois anos desde que foi fustigada por um conflito devastador com a Rússia. Este não é apenas um marco temporal, mas sim um momento para reflectir sobre a dolorosa realidade que persiste e sobre a falha em aprender com os erros do passado. É um grito silencioso pela contínua tragédia enfrentada pelas pessoas afectadas por esta guerra implacável.

Na Figueira da Foz, cerca de 100 ucranianos encontraram um porto seguro, fugindo das suas terras natais e trazendo consigo apenas o essencial. Deixaram para trás não apenas pertences materiais, mas também histórias de vida inteiras – maridos, pais, irmãos e, talvez até mesmo, filhos, pois entre eles estavam pessoas de idade avançada. A primeira barreira enfrentada ao chegar foi a comunicação. Esta não foi uma viagem planeada, não houve preparação; foi uma resposta urgente à necessidade de fugir da guerra.

A Junta de Freguesia de Buarcos e São Julião, em colaboração com a Câmara Municipal da Figueira da Foz, assumiu a responsabilidade de organizar tudo: desde o resgate dos refugiados até à assistência no retorno, providenciando comida, roupa e o que fosse necessário para confortar aqueles que foram forçados a deixar as suas vidas em suspenso. Neste cenário desolador surgiu uma figura de esperança e apoio: Tatiana Polonska, uma ucraniana que reside na Figueira da Foz e é uma das fundadoras da TUA Cooperativa Artística e cultural CRL.

Tatiana chegou a Portugal em 2010, reunindo-se com a sua mãe que já residia cá. Não fugiu da guerra, mas construiu uma nova vida, encontrando amor e casando-se. Agora, ela assumiu a missão de ser a ponte entre os recém-chegados refugiados ucranianos e a comunidade local. O seu papel é crucial, não apenas como intérprete, mas também como fonte de apoio emocional e esperança para aqueles que enfrentam uma nova realidade tão distante da que conheceram.

Numa conversa com Tatiana, encontramos uma mulher com uma voz doce, mas que carrega consigo o peso da guerra no coração. “A minha família está lá e acompanhei desde o primeiro dia o que acontecia”, diz. “Pertenço a uma cooperativa artística e cultural, TUA Cara, e desde o início da guerra estávamos prontos, a tentar organizar as coisas”.

Tatiana revela que cada família carrega consigo uma narrativa íntima e dolorosa. Nem todos se integraram; alguns, mergulhados numa dor insuportável, desejavam regressar ao lar, ao conforto que já não existia. “Fomos a âncora que guiou na busca por um tecto, por um lugar que pudessem chamar de seu, mesmo que temporário”.

Dois anos se passaram, mas as feridas ainda estão frescas. Tatiana viveu essas histórias tão diversas, mas tão interligadas pelo mesmo flagelo, de forma avassaladora. A guerra também tocou a sua própria família, como uma ferida que nunca cicatriza. “A minha família também passou por esta tragédia, podemos dizer que cada família na Ucrânia perdeu alguém”.

As crianças, uma parte tão vulnerável e preciosa desta realidade, também enfrentaram desafios para se adaptar. Tatiana reflecte sobre os esforços limitados para proporcionar-lhes oportunidades de aprendizagem e integração. “Acho que a língua é o primeiro obstáculo. Há poucas sessões de cursos. As crianças, assustadas e traumatizadas, lutaram para se adaptar ao ambiente escolar. Estavam a passar uma fase muito difícil. Quando ouviam alguma coisa a cair, qualquer ruído, começavam a chorar escondidas debaixo da mesa”.

Tatiana refere, com uma mistura de admiração e gratidão, o acolhimento caloroso que encontrou em Portugal, uma terra onde ela testemunhou uma “generosidade inigualável”. “Eu até posso dizer que foi desde que a minha mãe chegou cá, há mais de 20 anos que eu sei que os portugueses têm um coração gigante. O povo português é o querer dar tudo, mesmo não tendo nada”.

A ucraniana encara esta guerra com profunda perplexidade e desilusão, questionando a própria essência do seu propósito. Ela identifica a geopolítica como a força motriz por trás deste conflito, mas lamenta a falta de alternativas pacíficas para resolver as diferenças. “O povo é sempre quem sofre”, diz, lamentando as consequências devastadoras que a guerra traz para aqueles que são mais afectados. A narrativa de Tatiana é um lembrete angustiante do custo humano da guerra e da urgência de procurar soluções pacíficas para os conflitos internacionais.

Dois anos de conflito: um grito de angústia e uma luta por esperança

Segundo dados fornecidos pelo Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental ao Campeão das Províncias, os ataques indiscriminados às áreas povoadas da Ucrânia aumentaram em Dezembro passado, evidenciando um padrão persistente de morte de civis, destruição e necessidades humanitárias ao longo de 2023. Os ataques à infra-estrutura energética deixaram milhões de ucranianos às escuras no meio de temperaturas congelantes, neve pesada e ventos fortes.

Durante o ano de 2023, os parceiros humanitários conseguiram alcançar quase 11 milhões de pessoas com ajuda vital e serviços em toda a Ucrânia, com quase 70% dos 3,9 bilhões de dólares solicitados. Cerca de 107 comboios interagências entregaram suprimentos críticos para quase 400.000 pessoas que vivem perto da linha de frente. No entanto, durante o mesmo período, foram relatados 227 incidentes que afectaram as operações humanitárias no país, resultando na morte ou ferimento de 50 trabalhadores humanitários, incluindo 11 que perderam a vida no cumprimento do dever.

Este aniversário doloroso não pode passar despercebido. É um lembrete vívido de que a paz é frágil e que os custos humanos do conflito são imensuráveis.

Um lamento pela perda e uma chamada à acção

As marcas de bombardeios pesados e incessantes, acompanhados por combates terrestres implacáveis, ecoaram ao longo do ano de 2023, deixando para trás um cenário de morte e destruição que continua a desafiar o tecido humano da Ucrânia. Mais de 47.000 incidentes envolvendo confrontos armados, ataques aéreos e outras formas de agressão foram registados em todo o país, um aumento alarmante em relação ao ano anterior, conforme apontado pelo Projecto de Dados sobre Localização e Eventos de Conflito Armado (ACLED). Estes eventos deixaram um rasto de devastação, destruindo lares, hospitais, escolas e infra-estruturas civis vitais, incluindo o fornecimento de energia, contribuindo para uma crise humanitária de proporções catastróficas.

Em 2023, os ataques persistiram, atingindo lares, escolas e hospitais diariamente, com uma escalada preocupante no final do ano. A devastação atingiu quase 720.000 pessoas nas áreas mais afectadas da Ucrânia sem acesso a habitação adequada e segura, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações. O acesso à educação permaneceu severamente restrito, com quase metade de todas as instituições educacionais danificadas ou destruídas. Em todo o país, apenas um terço das crianças pôde frequentar aulas totalmente presenciais, enquanto um terço adoptou um modelo misto de ensino presencial e online, e outro terço foi forçado a aprender totalmente online. O acesso aos cuidados de saúde também foi comprometido, com mais de 1.500 ataques a instalações de saúde verificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde Fevereiro de 2022. Em algumas partes do leste e sul, quase metade dos centros de saúde ficaram inoperantes.

Milhões de ucranianos enfrentam desafios de saúde mental, enraizados no trauma provocado pelo conflito. Estima-se que quase 10 milhões de pessoas estejam em risco de desenvolver ou já estejam a enfrentar condições de saúde mental, com 3,9 milhões a sofrer de sintomas moderados a graves, conforme relatórios da OMS. As crianças são especialmente vulneráveis, com mais de 1,5 milhões delas a precisar de assistência para lidar com o stress, ansiedade e outros problemas de saúde mental, de acordo com informações fornecidas ao Campeão das Províncias pelo UNICEF.

Enquanto a Ucrânia enfrenta esta crise sem precedentes, histórias de esperança e solidariedade emergem entre a dor e a desolação. O número de refugiados ucranianos em toda a Europa atingiu um valor devastador de 6 milhões em 2023, fora o número de mortos.

 

Joana Alvim