Coimbra  20 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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“Quero voltar à minha escola para dar aulas”

20 de Outubro 2018

Publicado a 19 de Julho de 2018, na edição n.º935

 

Nome: MÁRIO de Oliveira NOGUEIRA
Naturalidade: Tomar
Idade: 60 anos
Profissão: Professor
Actividade actual: Conselheiro Nacional e Secretário-Geral da FENPROF; Coordenador do SPRC
Passatempos: Correr, caminhar, ler
Signo: Capricórnio
Viveu a democracia de perto desde os anos em que, em alternativa à Mocidade Portuguesa, enveredou pelo escutismo. O pai, ligado ao ramo de vendas de uma cadeia de supermercados, não discutindo política lá em casa, entregava, ainda assim, clandestinamente, alguma propaganda, lutava contra o fascismo e preferiu que o único
filho fosse para os escuteiros. Antes isso que frequentar as actividades obrigatórias de uma organização ligada ao Estado Novo.

A carreira de professor de Mário Nogueira acabou por surgir naturalmente quando, após terminar o sétimo ano no Liceu Nacional de Tomar (equivalente ao actual 12.º ano), em 1975, é implementado o serviço cívico e o (ainda) adolescente é colocado durante um ano no serviço de limpezas do Hospital de Tomar. Até à data era a matemática “a menina dos seus olhos” mas, na altura, “muitos procurámos uma saída, porque tínhamos 16 anos, era a revolução e queríamos ir para Coimbra. Na altura, as escolas do magistério foram reestruturadas para terem três anos de curso e não exigiam o serviço cívico. Éramos mil e tal candidatos para 90 vagas”, esclarece. E assim conclui, no ano lectivo 78/79, o curso do Magistério Primário, tendo ainda ingressado no curso de Economia da Universidade de
Coimbra mas, tendo sido colocado em vários locais do distrito de Coimbra como professor do 1.º Ciclo e face a uma instituição que, considera, “pouco amiga dos estudantes trabalhadores”, não conseguiu conciliar os estudos com a profissão uma vez que não existiam aulas à noite.
Fazia parte da Associação de Estudantes da Escola do Magistério Primário e foi aí que acabou por conhecer a sua mulher, que também estava envolvida na associação da Escola de Educadoras de Infância. Casaram em 1979 e o seu único filho, nascido em 1982, foi tantos anos praticante de hóquei em patins que Mário Nogueira também acabaria por ser dirigente da secção de patinagem da Associação Académica de Coimbra (AAC). Uma realidade que, confessa, acaba por ser o desfecho comum a qualquer pai que queira que o filho pratique um desporto em Coimbra: “comprei-lhe uns patins e lá o inscrevi e depois isto é como tudo na AAC. Se é para os miúdos praticarem um desporto, a secção existe mas não existe mais nada. Os pais é que têm de fazer tudo. Depois de 15 dias de lá estar quando damos por ela já estamos a fazer tudo e mais alguma coisa e já somos seccionistas, depois já estamos na Direcção, e depois chegamos a Presidentes… porque ali, para ser Presidente, joga-se à moedinha a ver o que perde, e é esse que fica. Acabei por lá estar 17 anos onde fui dirigente da secção de hóquei patins, primeiro dos mais novos e depois também dos mais velhos”, conta.
A actividade docente na escola, essa desenvolveu-a durante 12 anos. Sindicalizou-se no dia em que terminou o curso e depois foi eleito delegado sindical na sua escola. Entretanto, concluiu a licenciatura em Educação Básica na área dos alunos com necessidades educativas especiais pela Escola Superior de Educação de Coimbra. Mas as razões para o afastamento da escola são claras e incontornáveis para o sindicalista: “O que acaba por deixar e afastar muitos de nós (que somos sindicalizados) do ensino é o estarmos fora do centro. Estamos num país que tem Lisboa e depois o resto é província. Dos colegas dirigentes da FENPROF que estão em Lisboa nenhum está a tempo inteiro no sindicato.
Todos têm uma percentagem de trabalho na escola na manhã e depois estão no sindicato.
No nosso caso, em Coimbra, não é possível dar aulas e ser sindicalista. Antes tínhamos um problema em que as reuniões no ministério, que são em Lisboa, nos obrigavam a faltar às aulas e isso começou a ser complicado. No final do ano acontecia ter faltado 30 ou 40 dias aos alunos. A certa altura (ainda eu não era da direcção do sindicato) o governo propôs que todos os dirigentes sindicais, como acontece em qualquer área laboral, tendo direito por
lei a quatro dias para o exercício de actividade sindical, esses quatro dias pudessem ser acumulados por outros dirigentes. Uns prescindem dos seus dias e há um que acumula os dias do grupo e que não estando na escola é substituído, desta forma os alunos não são penalizados. E foi uma proposta aceite em finais dos anos 80”, conclui.
A vida enquanto porta-voz de uma profissão que é a sua, ainda que não a tenha podido exercer muito tempo, assumiu-se como uma escolha da qual não se arrepende. É ao Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) e à Federação Nacional dos Professores (FENPROF) que, desde há uns anos a esta parte, dedica a maior parte do seu tempo: “Eu tive de escolher e fi-lo. Gostava desta actividade e sei que, da parte de muitos colegas, há reconhecimento, é algo que gosto e que me ocupa muito. Muitas são as noites que saio do sindicato e trabalho em casa até às tantas da noite para preparar as coisas para o dia seguinte. É um trabalho exigente mas que faço com gosto. Portanto eu não estou em esforço e se voltasse atrás faria o mesmo caminho”, afirma.
O futuro imediato passa por continuar a liderar esta luta dos professores a qual, reitera, não trava sozinho. Mas, brevemente, ainda que o diga com pouca convicção, “está na hora de passar a pasta. Nada se faz sozinho. Nós somos um grande colectivo na região centro, temos um óptimo grupo de dirigentes que me apoia em tudo. Continuarei a dar a cara até 2019 e depois terei de ver…pondero não continuar nesta função, isto exige muito de nós e eu quero pensar bem o que vou fazer. Não vou dizer que já tomei uma decisão definitiva de não ficar mas, se a decisão fosse agora, seria a de não ficar, não para ir para outro lado, apenas para voltar à minha escola e voltar a dar aulas. Manter-me-ei aqui até 2019 e depois logo veremos…”.

 

E ainda….

“Na altura dos meus estudos é quando é retomada a tradição da Queima das Fitas, numa altura ainda conturbada. Há uma ruptura grande em relação aos que estavam a favor e os que estavam contra a queima. Lembro-me de estarmos sentados na esplanada na Praça da República e de começarem a arder carros ali na praça. Depois este ambiente foi ultrapassado. Mas o tempo da minha vida académica era um tempo muito politizado, não se ouvia falar em praxes, não andava ninguém de capa e batina. Só nos finais de década de 70 é que começa a ver-se esse espírito. Eu lembro-me de, no meu livro de curso, muita gente se ter recusado a ficar nesse livro. Eu fui um deles.”

“Quando acabei o curso dirigi-me ao sindicado e inscrevi-me logo. Achei e ainda acho que isso faz parte da profissão.”

“Não tenho ambição na política, para ir para um cargo bem remunerado e até acho que estou muito bem aqui porque o que vamos vendo por aí é muita corrupção, pessoas que foram para os cargos para se governar e tirar benefícios de forma ilegítima mas, felizmente, aqui no movimento sindical onde estou isso não acontece. Há gente que até gostava que acontecesse e fica triste porque depois só consegue dizer que os dirigentes estão há muito tempo fora do local de trabalho mas alguns dos que dizem isso são aqueles que depois nós percebemos que precisaram de pouco tempo para chegar onde chegaram e governarem-se à conta do tacho que arranjaram e isso é que devia envergonhá-los.”

“Já me aconteceu que, embora a minha opinião fosse num sentido, a dos meus colegas fosse diferente, ou seja, a decisão de todos não fosse exactamente aquilo que no início da discussão eu achava que devia ser a luta a desenvolver ou o caminho a seguir. Mas é o colectivo que decide e eu dou a cara como responsável que sou. Sou o porta-voz mas não há nada de posições que não seja fruto de uma reunião prévia.”

“Anda aí esse movimento contra a desertificação, a favor do interior, e com propostas e tudo que levaram ao Presidente da República…mas é curioso que muitos desses nomes que tenho ouvido falar como sendo os dinamizadores da defesa do interior são, precisamente, os mesmos cujos partidos de que fazem parte pactuaram e estiveram de acordo e que mais desenvolveram as políticas que levaram à desertificação do interior.
Mas quem é que fechou as escolas e maternidades e centros de saúde e serviços públicos do interior? Eu acho que sim, que é preciso deslocar as pessoas para o interior e dar-lhes condições para as pessoas lá estarem, e não tenho nada contra as propostas. O que me indigna é olhar para os nomes dos promotores e encontrar aqueles que têm
responsabilidades políticas por aquilo que aconteceu e que agora aparecem como se nada tivessem a ver com o assunto. Ai têm, são eles os responsáveis. Ainda bem que se arrependeram, provavelmente por acharem que o arrependimento lhes garante o céu, agora não tira é o mal que foi feito, e eles fizeram mal ao país.”

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