Coimbra  26 de Maio de 2020 | Director: Lino Vinhal

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Queijo do Rabaçal com quebras acentuadas na produção

9 de Abril 2020

A produção de leite e de queijo do Rabaçal, concelho de Penela, produto de Denominação de Origem Protegida (DOP), está a sofrer quebras na ordem dos 40 por cento com a situação criada pela pandemia da covid-19.

Alice Pereira, proprietária da Serqueijos, uma das duas grandes queijarias da freguesia do Rabaçal, com mais de 30 anos de existência, disse à agência Lusa que a produção diária de queijo baixou 50 por cento.

“Estávamos a transformar 30 000 litros de leite por dia e, com esta situação, passámos para metade”, salientou a empresária, que emprega 30 trabalhadores, todos ainda ao serviço, embora num sistema rotativo de cinco dias de férias por cada um por acordo entre as partes.

A produtora considera que houve uma redução do consumo pelo facto de as grandes superfícies comerciais não terem o queijo tão exposto no período em que as famílias portuguesas se abasteceram de produtos de primeira necessidade para um longo período de tempo.

Com presença em praticamente todas as grandes cadeias de hipermercados nacionais, o Queijo Rabaçal da Serqueijos sofreu, também, com a suspensão de alguns mercados tradicionais, embora Alice Pereira saliente que a maior redução de vendas ocorreu nas grandes superfícies.

“Esta semana estamos a vender mais um bocadinho”, frisou a empresária.

A redução na produção teve consequências imediatas na produção de leite, sobretudo no de ovelha, que é utilizado na produção do Queijo do Rabaçal DOP juntamente com o de cabra.

O presidente da APRORABAÇAL – Associação de Produtores do Rabaçal, Fernando Brás, disse que a produção de leite de ovelha reduziu mais de 40 por cento e o preço baixou drasticamente, baixando de 1,20 euros por litro até aos 70 cêntimos.

“Tivemos de reduzir o preço, não tivemos outra alternativa”, lamenta o produtor, que, no seu caso, teve ainda de reduzir dos 700 litros de leite diários para os 420/450 litros.

Com cerca de 1300 ovelhas, Fernando Brás diz que, neste período, “é trabalhar para aquecer, porque as rações estão ao mesmo preço e tem de se alimentar o gado, embora não seja como era”.

No entanto, alerta que os produtores “não aguentam mais do que dois ou três meses” nesta situação.

Fernando Brás lamenta, contudo, que muitos dos produtores de queijo estejam a utilizar muito leite de cabra e vaca numa zona de DOP.

“Os produtores do queijo de cabra não estão a sofrer tanto”, salienta o produtor, que critica a inexistência de medidas para o sector.

“Somos obrigados a trabalhar e não podemos fazer ‘lay-off’, porque não dá para fechar os portões e deixar o gado sozinho lá dentro”, enfatiza o dirigente associativo.

Para o presidente da APRORABAÇAL, que está no sector há 30 anos, os produtores só têm duas situações: “Ou tratam e ordenham ou secam os animais e não têm rendimento”.

Segundo Fernando Brás, os que “tiverem estrutura aguentam-se, mas os outros não vão sobreviver”, estimando que, no sector, a nível nacional, “60 a 70 por cento dos actuais produtores vão desaparecer”.

“Tudo baixou, mas o preço das farinhas não desceu”, frisa ainda o dirigente.

O Queijo Rabaçal DOP é um queijo curado de pasta semidura a dura, branco-mate, produzido de forma artesanal a partir de uma mistura de leites de ovelha e cabra por acção do coalho de origem animal.

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