Coimbra  16 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

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Presidente da Câmara de Coimbra respira optimismo pelo já feito e pelo que falta fazer

9 de Março 2024 Jornal Campeão: Presidente da Câmara de Coimbra respira optimismo pelo já feito e pelo que falta fazer

José Manuel Silva é uma figura multifacetada que pretende deixar uma marca indelével em Coimbra, uma cidade à qual quer transmitir a sua energia. Além das realizações académicas e profissionais, José Manuel Silva tem uma extensa lista de contribuições para a comunidade e para a medicina em geral. Desde a sua actuação como Bastonário da Ordem dos Médicos até ao envolvimento em questões sociais e políticas, demonstrou sempre um compromisso com o bem-estar da sociedade. A liderança como presidente da Câmara Municipal de Coimbra está a pouco mais de meio do primeiro mandato e a sua visão para os próximos anos mostra um compromisso contínuo com o progresso e com o desenvolvimento da cidade.

 

Campeão das Províncias [CP]: A abertura de um centro tecnológico de uma empresa multinacional aqui na cidade e a intenção de transformar parte do iParque em área industrial são bons sinais para Coimbra?

José Manuel Silva [JMS]: Estamos a corrigir os erros que Coimbra cometeu no passado. A cidade negligenciou empresas, resultando na escassez de oportunidades de emprego para os jovens. Isso forçou-os a procurar trabalho noutras regiões do país ou até mesmo a emigrar. A ausência de empresas impede o investimento, a criação de empregos e a estabilidade familiar, contribuindo para o declínio do município. O crescimento de Coimbra depende da participação de pessoas de todos os níveis sociais, não apenas dos mais ou menos qualificados. Todos desempenham um papel na sociedade. Para atrair diferentes indústrias, é crucial disponibilizar mais espaços adequados. Coimbra tem perdido investimentos por falta de zonas industriais preparadas. O mundo empresarial actual exige agilidade, não é compatível com longos períodos de espera. A construção do novo Palácio da Justiça irá permitir disponibilizar espaço para empresas na Torre do Arnado. O centro tecnológico da Accenture já criou 120 empregos e tem planos para se expandir ainda mais. O Hospital da Luz estabeleceu um centro administrativo em Coimbra, gerando também dezenas de empregos. Coimbra está a abrir-se para as empresas, atraindo talentos e trabalhando no desenvolvimento de novas zonas industriais. No entanto, isso exige tempo e recursos financeiros, os quais a cidade não possui sozinha. Estamos a progredir nesse sentido e acreditamos que os resultados estarão à vista a curto, médio e longo prazo.

 

[CP]: Qual é a avaliação sobre o desempenho de Coimbra como Município convidado na BTL (Bolsa de Turismo de Lisboa) e quais foram os principais destaques e contribuições da cidade no evento em termos de turismo e imagem de Coimbra?

[JMS]: Também aqui quebrámos velhos paradigmas. Coimbra deixava-se ignorar, não por falta de um potencial patrimonial arquitectónico e cultural absolutamente extraordinário, mas por passividade. Talvez seja por isso que perdemos, por exemplo, a candidatura a Capital Europeia da Cultura, porque as coisas simplesmente não aconteciam. De repente, as coisas começaram a acontecer de forma contínua e é preciso trabalhar nesse contínuo. A vários níveis, incluindo tudo o que tem a ver com a marca Coimbra, o turismo, as empresas, a cultura e os nossos clusters, a educação, a saúde e a tecnologia. É necessário trabalhar tudo em simultâneo para que a marca se afirme de forma muito forte.

Pela primeira vez na BTL, Coimbra foi o município convidado. Nunca o tinha sido por alguma razão. Agora, mais uma vez, foi devido à proactividade do nosso trabalho e ao grande esforço desenvolvido pelo nosso vice-presidente, Francisco Veiga. Ser o município convidado na BTL deu-nos uma visibilidade muito particular. Fomos um dos centros das atenções da BTL e a nossa riqueza em termos de cultura, história e património é tal que os italianos dizem que Coimbra é a Florença portuguesa. Temos uma concentração de património e somos uma das cinco únicas universidades a nível mundial que é considerada património pela UNESCO.

A Universidade destaca-se por si só, a Biblioteca Joanina e o Portugal dos Pequenitos também são referências icónicas da cidade. Mas é preciso trabalhar como um conjunto turístico da cidade, especialmente para aumentar o número de pernoitas em Coimbra e, com isso, estimular a economia local. Estamos a trabalhar nisso, mas precisamos de mais oferta hoteleira.

Hoje, o turismo é uma das principais indústrias mundiais e Coimbra não só pode beneficiar em termos turísticos, mas também na hotelaria, na restauração, no comércio e também na bilheteira dos nossos monumentos e museus, bem como na taxa turística.

 

 

[CP]: A taxa turística serviu para financiar a presença de Coimbra na BTL?

[JMS]: Serviu. Embora a nossa participação na BTL não tenha sido megalómana, obviamente implicava custos. Não precisámos de retirar fundos de outros sectores, pois esta taxa financia o investimento no turismo e está em constante crescimento, o que nos permite obter um financiamento que não sobrecarrega os nossos cidadãos e contribui para mitigar os efeitos negativos do turismo, como o aumento da produção de resíduos e a degradação dos espaços, os quais exigem investimento na sua manutenção. A taxa turística proporciona-nos uma maior flexibilidade financeira para desenvolvermos esse trabalho. É fundamental seguirmos este caminho, portanto era totalmente incompreensível e prejudicial a Coimbra todo o movimento, especialmente no Partido Socialista, contra a taxa turística. Essa oposição é apenas um obstáculo ao futuro, ao progresso e à capacidade de financiamento de Coimbra para investir no turismo e em outros serviços.

 

[CP]: Mas não será um contrassenso convidar a visitar Coimbra quando a cidade está virada do avesso com obras?

[JMS]: As pessoas que visitam Coimbra não têm problemas com as obras. Deslocam-se por outros meios, normalmente a pé. Coimbra concentra o seu património nas zonas históricas, portanto, não são afectadas. Por outro lado, quem nos visita vê que a cidade está em progresso, não está parada no tempo. É uma cidade que não é apenas tradição, mas também construção, inovação e preparação para o futuro. Portanto, não há prejuízo para o turismo pelo facto de termos uma cidade em revolução. Isso dá às pessoas uma boa imagem de uma cidade dinâmica. Coimbra terá um meio de transporte colectivo, eléctrico, amigo do ambiente, que circulará numa via dedicada, com uma velocidade nunca antes vista em Coimbra. Isso proporcionará às pessoas um novo meio de transporte. Quem nos visita vê uma cidade em modernização, o que é positivo para a imagem de Coimbra.

 

 

[CP]: A iniciativa conjunta com a Universidade e autoridades judiciais para construir um campus da Justiça em Coimbra teve sucesso em vincular as forças políticas? Há garantias de compromisso do próximo Governo?

[JMS]: Coimbra demonstrou mais uma vez, ao contrário do que era habitual no passado, a sua união, capacidade de diálogo, e intervenção para fazer pressão positiva e evitar que Coimbra seja deixada para trás, como costumava acontecer. Antes do início da campanha eleitoral, a Universidade, o sector judicial e a Câmara Municipal demonstraram determinação na construção do Palácio da Justiça. Todas as forças políticas comprometeram-se com este projecto e não deixaremos de cobrar esse compromisso ao futuro Governo. Estaremos vigilantes para garantir que isso aconteça, pois a construção do Palácio da Justiça trará vários benefícios. Além de contribuir para o desenvolvimento da cidade, aumentando o movimento na rua da Sofia e proporcionando espaços para empresas, melhorará as condições de trabalho no exercício da justiça. Esperamos que assim seja, pois trará benefícios económicos, como a poupança ao Estado de 850 000 euros por ano em rendas.

 

[CP] Nas reuniões da Assembleia Municipal têm sido levantadas várias questões. Uma delas prende-se com a venda em hasta pública de património municipal.

[JMS]: Coimbra possui numerosos recursos subutilizados. Estamos a tirar partido de alguns, guardados no cofre há 30 anos, sem qualquer utilidade ou benefício para ninguém. Não se trata de vender estes recursos simplesmente para obter dinheiro e gastá-lo aleatoriamente. O nosso objectivo é investir no desenvolvimento do concelho.

É lamentável que a oposição socialista rotule este processo como uma venda a preço de saldo. Não se trata disso, mas sim de seguir a lei e vender pelo melhor preço possível, de acordo com o valor de mercado. Isso trará um encaixe financeiro necessário para a Câmara Municipal, que actualmente possui receitas limitadas para investir nas pessoas, no concelho e nas associações locais. Estes investimentos, embora pequenos, irão melhorar a qualidade de vida e fortalecer o turismo, um dos nossos objectivos.

Além disso, planeamos instalar um órgão de tubos sinfónico na Sala Dom Afonso Henriques, no Convento São Francisco. Também estamos a investir na disponibilização de 10 jazigos no cemitério da Conchada, através de uma hasta pública para concessão. Este é um exemplo de como estamos a gerir os recursos municipais de forma eficaz. Ao rentabilizar estes activos municipais, não só garantimos a sua preservação, como também geramos fundos para investimentos necessários. Este é o princípio básico da boa gestão municipal, algo que nunca foi realizado antes devido à falta de capacidade das gestões anteriores.

 

[CP]: Na Baixa de Coimbra, para além de iniciativas que têm promovido, ainda não se viu mudanças estruturais. Esta tem sido a parte mais difícil do mandato?

[JMS]: Não é que seja difícil, mas é mais lenta. Como referido, não temos músculo financeiro para fazer tudo aquilo que Coimbra necessita. Por isso, uma das nossas preocupações tem sido, naturalmente, o aumento da receita. No caso da Baixa, trabalhámos no empréstimo que apresentámos à Assembleia Municipal no ano passado. O lote 2 está em fase final de aprovação. Aguardamos a decisão do Tribunal de Contas e pensamos que todas as questões colocadas pelo Tribunal de Contas foram resolvidas. Portanto, em breve teremos condições para adquirir mais alguns imóveis na Baixa e recuperá-los. O aumento de capital permitirá que o projecto seja executado, uma vez que o mesmo foi aprovado. O Fundo Coimbra Viva iniciou o procedimento burocrático para a construção da primeira residência de estudantes na Baixa, que é também da nossa iniciativa. Este reforço do Fundo Coimbra Viva é necessário, mas toda esta tramitação burocrática e legislativa não nos permite fazer tudo de repente. Agora que a estratégia foi definida e está a ser cumprida, começará a dar resultados. Mas não será imediato, não conseguimos resolver problemas de 30 anos em apenas dois. Acho que todas as pessoas entendem isso. O que apresentámos foi um programa e uma estratégia que vão nesse sentido e que estão a ser implementados. Estamos a fazê-lo de forma controlada para investir na Baixa de Coimbra. Isso contribuirá para mudar o paradigma da Baixa, incluindo a abertura da Avenida Central, onde o anterior executivo desperdiçou 630.000 euros numa obra que agora tem que ser refeita. Portanto, são processos de investimento que estão a dar resultados. A verdade é que esses investimentos não foram feitos no passado e agora a estratégia está a ser implementada e cumprida.

 

[CP]: A Unidade Local de Saúde leva apenas dois meses de actividade. Como tem acompanhado estes primeiros passos?

[JMS]: A Unidade Local de Saúde é uma entidade de grande dimensão. A gestão desta unidade será extraordinariamente complexa e difícil. Mas prefiro recorrer a uma frase que utilizo em múltiplas circunstâncias: mais do que os modelos, tudo depende das pessoas. Se houver uma boa gestão, qualquer modelo pode funcionar bem. A vontade do Estado, que é obviamente responsável em última instância pela forma como os vários modelos de gestão da saúde funcionam, é fundamental, pois depende muito do financiamento. Com financiamento suficiente, podemos ter a Unidade Local de Saúde a funcionar bem. Devemos dar tempo para que essa experiência seja desenvolvida e exigir que os seus resultados sejam avaliados. Infelizmente, em Portugal, toda a gente quer fazer a sua reforma, mas depois ninguém avalia os resultados dela. Vamos saltando de reformas em reformas sem nunca completarmos as anteriores, porque a palavra “reforma” tornou-se numa banalidade eleitoral. Todos prometem reformas, mesmo que não saibam do que estão a falar, e depois sentem-se obrigados, quando eleitos, a fazer a sua reforma sem sequer terem completado o processo da reforma anterior. Portanto, temos esta falha que penaliza muito o país: saltamos de reforma em reforma sem nunca completarmos as anteriores, sem as avaliarmos e divulgarmos os resultados dessa avaliação. Esta é mais uma reforma que pode correr bem ou mal, dependendo de como for conduzida. Vamos dar o benefício da dúvida e exigir que haja uma avaliação imparcial e que esta seja publicada.

 

[CP]: Quais são as próximas prioridades para o que falta deste mandato, cerca de um ano e meio?

[JMS]: Continuarmos nos vários sectores a desenvolver a nossa estratégia. Vamos continuar a apostar, como foi na BTL, no turismo e nos grandes eventos. A realização de grandes eventos no concelho é crucial, pois atraem pessoas, investimento e são fundamentais para o reforço da marca. Vamos continuar a recuperação das escolas. Vamos continuar a apostar no meio ambiente. Vamos continuar a apostar na cultura. Eu diria que estamos num processo de intensificação das actividades, porque a máquina está agora oleada e está a produzir resultados. O problema da falta de autocarros está resolvido com a maior injecção de sempre de autocarros novos. Vamos adquirir mais, privilegiando os tamanhos intermédios dos autocarros, que se adaptam muito melhor às necessidades. Além disso, estamos a realizar manutenção preventiva nos autocarros de reserva. Os constrangimentos provocados pelas obras ainda causam atrasos, mas o problema das avarias constantes foi resolvido. Recordo que não existia um plano de renovação da frota na Câmara Municipal e, agora, estamos a implementá-lo. Isso exige financiamento, pois os veículos são caros. Por exemplo, neste aumento da frota, a Câmara investiu 3 milhões de euros. Este é um serviço muito deficitário, onde a Câmara tem que investir cerca de 8 milhões de euros por ano para compensar a tarifa social que pratica, tornando os transportes mais atractivos para a sua utilização. Gostaríamos que fosse ainda mais no futuro, com autocarros novos, cumprimento de horários e redução dos custos de utilização. A introdução do MetroBus em Coimbra é também essencial. Temos três grandes obras em curso, incluindo as obras do Metro. Estamos a fazer obras que deveriam ter sido feitas há muitos anos. As obras subterrâneas são as que demoram mais tempo, mas são essenciais para garantir o funcionamento eficaz do MetroBus. As coisas têm que ser feitas assim para garantir o bom funcionamento do transporte público na próxima década. Estamos a coordenar todas as obras para garantir que tudo seja concluído com sucesso.

 

[CP]: Apresentou um programa para 8 anos, continua com a mesma vontade de continuar?

[JMS]: Não é propriamente uma vontade. Diria que temos a obrigação de conduzir o projecto que nos propusemos desenvolver em Coimbra, numa missão de serviço público.

Candidatámo-nos com um programa que alguns consideravam ambicioso, assumindo-o na campanha eleitoral, sem demagogia. Não tenho dúvidas de que, ao final dos 8 anos, se formos reeleitos, ele estará cumprido e Coimbra estará completamente diferente.

Desenhámos uma estratégia que leva ao cumprimento desse programa e coloca Coimbra num ciclo de desenvolvimento sustentável e progressivo. Nos anos 80, Braga era a 14.ª cidade do país, enquanto Coimbra já era a 11.ª; hoje, Braga é a sétima. Muitas pessoas em Coimbra parecem não querer aprender com essa realidade e comparação.

Coimbra não entrou em declínio por causa de Braga, mas sim por causa das pessoas que vivem aqui, e é preciso mudar algumas mentalidades e o ritmo da cidade. Precisamos de introduzir factores de desenvolvimento, atrair empresas, melhorar a mobilidade e acessibilidade, com uma estratégia sustentável e amiga do ambiente, melhorando a qualidade de vida. Não podíamos continuar como estávamos, com os nossos jovens a sair do concelho por falta de oportunidades de trabalho. Estamos a mudar esse paradigma com uma Câmara aberta, que recebe todos e colabora na construção de soluções para tornar Coimbra competitiva e em crescimento nacional, sem medo de comparações com outras cidades e concelhos.

 

Entrevista: Luís Santos/ Joana Alvim

Publicada na edição do “Campeão” em papel de quinta-feira, dia 7 de Março de 2024