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Penela: Vagar molda companhia teatral de actores lisboetas

6 de Agosto 2018

Um casal de actores lisboetas decidiu trocar a capital pela aldeia de Chanca, Penela, onde criou uma companhia de teatro, moldada, hoje em dia, pelo vagar característico da pacatez do meio.
O jornalista da Agência Lusa João Gaspar conta que, diariamente, quando André Louro sai de casa para levar os dois filhos à escola faz questão de ouvir na TSF as informações sobre “o trânsito infernal” de Lisboa. Dá-lhe “um gozo tremendo”, confessa, pois André pode conduzir sem pressa e de sorriso feito.
Há cinco anos, Louro e a mulher, Catarina Santana, decidiram rumar ao concelho de Penela, à pequena aldeia da Chanca, com 40 habitantes, onde só havia uma criança. Para além da igreja e do parque infantil à entrada da povoação, a aldeia pode dizer que também possui uma companhia profissional de teatro, apta a apresentar espectáculos no Brasil e em Macau.
“Foi uma decisão de âmbito familiar à procura de melhor qualidade de vida”, assinala Catarina Santana.
André Louro aponta para um vale, que se vê do terraço da casa, para enaltecer como as pessoas da aldeia lidam, diariamente, com aquela beleza. “Isso influi na maneira de ser das pessoas”, acentua, fazendo notar que a vista dá “uma escala” e um horizonte aberto, enquanto numa cidade ele é entrecortado por prédios.
“O tempo aqui é outro; aqui, tenho outro tipo de tempo, outro tipo de espaço, outra relação com a comunidade, menos anónima, mais saudável”, opina Catarina Santana.
Depois de se terem mudado para a aldeia, no final de 2013, André e Catarina formalizaram a Companhia da Chanca, em 2015, e decidiram estrear o primeiro espectáculo, “O sítio”, no terraço da sua casa, onde estiveram 80 pessoas (o dobro da população da terra).
Tratou-se de “uma forma de agradecer aos vizinhos”, explicam, aludindo a dois anos em que receberam batatas, couves, ovos e galinhas.
Durante os quase cinco anos na Chanca, já foram questionados, com estranheza, sobre o motivo da transferência para uma pequena aldeia.
Segundo o casal, a vivência neste ambiente também foi moldando a própria companhia, que assume o seu lugar no próprio nome. Viver na Chanca “influencia o processo criativo”, reconhecem os actores.
“Ao estarmos numa escala muito mais pequena, ao vermos o mundo em ponto pequeno, isso abre-nos espaço e tempo para compreendermos melhor o mundo no seu sentido global”, argumenta Catarina.
Ambos encaram a aldeia como um espaço “muitíssimo inspirador”, possuindo na casa um pequeno estúdio e um anexo onde vão recebendo outros artistas que trabalham com eles, numa espécie de residências artísticas.
O segundo espectáculo, “O nome”, já conta com mais de 80 sessões e têm apresentações agendadas para o Brasil, no ‘FestLuso’, em Teresina, no final de Agosto, e em Macau, também num festival, em Setembro.
Depois de anos em Lisboa e no estrangeiro, é pela aldeia que André e Catarina pretendem continuar a viver e a criar peças de teatro inspiradas por um tempo diferente.

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