Coimbra  19 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Penela: Ex-presidente do PS sem “explicação” para fichas falsas

3 de Maio 2018 Jornal Campeão: Penela: Ex-presidente do PS sem “explicação” para fichas falsas

Um ex-líder do PS de Penela, acusado de falsificação de documento, afirmou, hoje, em Tribunal estar inocente, mas não conseguiu dar uma explicação para a existência de inscrição fraudulenta de militantes.

O ex-presidente da Concelhia do PS de Penela Renato França e o antigo secretário-coordenador da Secção socialista penelense Rui Horta são acusados pelo Ministério Público de inscreverem de forma fraudulenta 52 militantes, com fichas com dados falsos, bem como de introduzirem boletins de voto desses pretensos militantes e de forjarem a assinatura dos mesmos nos cadernos eleitorais nas eleições de 2012 para a Distrital do PS e na escolha do líder do partido em 2013, em que António José Seguro venceu contra Aires Pedro.

No início do julgamento, Renato França alegou sempre  inocência relativamente ao caso, referindo que as 52 fichas foram entregues por um militante da Secção da Sé Nova, em Coimbra, Fernando Pereira,  que lhe referiu, num contacto telefónico, ser portador de “algumas fichas de militantes que gostariam de se inscrever em Penela”.

Posteriormente, terá agendado um encontro com esse militante, que não conhecia antes do contacto telefónico, e com Rui Horta, que “ficou na posse das fichas” e  as haverá validado e “ reencaminhado para a sede nacional”.

Questionado pelo juiz sobre se não tinha procurado inteirar-se de quem eram essas 52 pessoas, Renato França disse que não e também não questionou o porquê da inscrição de um número tão elevado de pessoas para uma Secção que não teria mais de 60 militantes. “É um aumento exponencial, porque é que esta gente quer ir toda para Penela?”, perguntou o juiz.

Renato França, que integrou a lista de Pedro Coimbra, vencedor nessas eleições, afirmou que, perante notícias, em 2012, antes das eleições distritais, sobre irregularidades nas fichas de militantes, enviou uma carta para a direcção nacional do partido e, como não houve resposta, foi para eleições “a pensar que não haveria qualquer problema”.

“Estava preocupadíssimo e não foi ver quem é que eram os militantes que estavam naquelas fichas?”, perguntou a magistrada do Ministério Público.

Sobre as descargas de votos com fichas falsas nas eleições para a Distrital do PS nesse ano, o arguido sublinhou que “não foi detectada qualquer anomalia”, referindo que a votação decorria num ambiente informal, em que poderia haver momentos em que algum dos delegados das listas não estivesse presente na mesa de voto.

“Só pode ter sido um dos senhores a praticar isto; é a única explicação lógica”, observou o juiz. “Não sei dizer, não consigo dar uma explicação; aquilo foi numa colectividade, estavam lá muitas pessoas”, respondeu o arguido.

Depois de Renato França, depôs Rui Horta, que teve um discurso muito semelhante ao do camarada, referindo que a inscrição de 52 militantes numa secção que teria cerca de 60 militantes não o deixou nem preocupado nem satisfeito.

Rui Horta confirmou o encontro com o militante da Sé Nova, Fernando Pereira, que entregou as 52 fichas e diz que as viu e assinou “em cima do capô de um carro”.

“O Renato França viu as fichas ou não?”, questionou a procuradora, altura em que Rui Horta olhou para o outro arguido. “Não olhe para ele, olhe para mim”, comentou a magistrada do Ministério Público, citada pela Agência Lusa.

Ao contrário do que disse Renato França, o ex-secretário-coordenador referiu que foi o presidente da Concelhia a ficar com as fichas e que as enviou para Lisboa.

O julgamento continua amanhã (sexta-feira), às 09h30.

Este processo surge na sequência de um outro, também de fichas falsas de militantes do PS, no distrito de Coimbra, em que o Ministério Público determinou a suspensão provisória, não avançando para julgamento, apesar de ter concluído que 18 militantes teriam cometido o crime de falsificação.

Entre os militantes estava o ex-deputado à Assembleia da República Rui Duarte, que foi líder concelhio do PS/Coimbra.