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Penacova cede moinhos a padaria para preservar saber ancestral dos moleiros

7 de Abril 2021 Jornal Campeão: Penacova cede moinhos a padaria para preservar saber ancestral dos moleiros

A preservação dos conhecimentos ancestrais ligados à actividade dos moleiros de Penacova é o principal objectivo de um protocolo que o Município celebrou esta quarta-feira com uma padaria local, agora responsável por dois moinhos de vento.

“O concelho tem uma tradição muito grande nesta área, quer de moinhos de vento, quer de água”, que neste caso também são chamados azenhas, afirmou o vereador da Câmara João Azadinho.

Numa cerimónia em que foi assinalado o Dia Nacional dos Moinhos, João Azadinho disse à agência Lusa que o trabalho dos moleiros é “uma arte que está a perder-se”, o que levou a autarquia, presidida pelo socialista Humberto Oliveira, a firmar o acordo de cooperação com a Padaria do Largo, situada no centro de Penacova.

O vereador da Cultura e do Turismo realçou a importância da parceria com a empresa de panificação, que tem vindo a empenhar-se na reposição do ciclo tradicional do pão, da sementeira à moagem dos cereais e cozedura, a fim de preservar antigas técnicas de cultivo, de construção e manutenção dos moinhos e de produção desse alimento milenar, que na zona é sobretudo broa, pão à base de milho, por vezes misturado com farinha de centeio ou trigo.

Sendo dona de dois moinhos de vento em condições de produzir farinha, a Câmara de Penacova pretende salvaguardar os saberes associados ao sector, já que os dois últimos moleiros do concelho, Lino e Arménio, têm mais de 70 anos e em geral, no país, “são cada vez menos as pessoas” aptas a partilhar com as novas gerações conhecimentos que têm valor histórico e etnológico.

“A cedência destes moinhos irá permitir a salvaguarda de um ofício ancestral do concelho de Penacova, dando-lhe a relevância de outrora. O desenvolvimento e divulgação da arte de moleiro irá gerar a criação de novos postos de trabalho”, segundo o texto do protocolo.

Além de desejar “uma maior dinamização do concelho”, a autarquia quer “assegurar a passagem de conhecimento técnico, educar e sensibilizar para as questões de sustentabilidade ambiental, económica e social”.

“Pretende-se, assim, afirmar a produção artesanal tradicional de farinha e a sua posterior transformação em pão como um setor dinâmico, inovador e sustentável, que contribui ativamente para a riqueza e diversidade do património cultural e para o desenvolvimento económico do concelho”, de acordo com os outorgantes.

No momento em que o turismo “vive um período de profunda transformação, mais do que sítios diferentes ou oportunidades de descanso, as pessoas viajam (…) à procura de novas experiências, novas vivências, onde a conservação dos recursos naturais, o conhecimento da cultura local e o desenvolvimento sustentável dos destinos ocupam um lugar relevante”.

“A recuperação e perpetuação de tradições e memórias ligadas aos moleiros constitui (…) uma experiência diferenciadora, com uma dimensão cultural de valorização de produtos endógenos de qualidade”, defendem.

Com a presença de Humberto Oliveira, a assinatura do documento decorreu no moinho “Vitorino Nemésio”, que integra um conjunto de moinhos na Portela de Oliveira, freguesia de Sazes do Lorvão.

No concelho, “existem quatro grandes núcleos de moinhos”, incluindo em Gavinhos, Aveleira e Serra da Atalhada, estando dois destes exemplares da arqueologia industrial “prontos a moer”, sublinhou João Azadinho.