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Paliçadas de madeira são solução viável para proteger sapais no Mondego

12 de Dezembro 2021 Jornal Campeão: Paliçadas de madeira são solução viável para proteger sapais no Mondego

A protecção e conservação de sapais no estuário do Mondego tem na instalação de paliçadas de madeira uma das soluções mais viáveis, revelam resultados preliminares de um projecto científico coordenado pela Universidade de Coimbra (UC).

De acordo com dados avançados por Tiago Verdelhos, coordenador do projecto ReSEt (Restauro de sapais estuarinos com vista à sustentabilidade), que testa quatro soluções distintas para obstar ao risco de desaparecimento dos sapais face às alterações climáticas, a instalação de estacas de madeira destaca-se nos resultados obtidos na acumulação de sedimentos, no impacto na paisagem e na viabilidade económica.

O projecto, iniciado em 2019 e que se estende até final do ano, passou pela instalação na margem direita do rio Mondego, junto à localidade de Vila Verde, na Figueira da Foz, de quatro células experimentais construídas com técnicas de ecoengenharia: uma paliçada de madeira, uma tela de geotêxtil, sacos de geotêxtil com areia e uma zona de plantas autóctones, para avaliar qual delas promove uma maior taxa de sedimentação.

Embora Tiago Verdelhos avise que os dados obtidos relativos à acumulação de sedimentos “precisarão de ser confirmados com o decorrer do tempo, para ver se no longo prazo a resposta é similar”, os resultados preliminares apontam a maior taxa de sedimentação na célula de sacos de geotêxtil com areia, seguida da de estacas de madeira, daquela onde está instalado o tecido geotêxtil “preso nas estacas” e da zona de plantas, que possui uma acreção “ligeira” de sedimentos

Os investigadores possuem ainda uma chamada “célula de controlo”, sem nenhuma estrutura ou plantas, onde, em alguns meses, há acumulação de sedimentos e noutros vai erodindo, ficando a ideia, no total, de “que haverá ali alguma erosão”, frisou o investigador.

Já na análise realizada envolvendo quer o custo de cada técnica, quer a sua instalação, manutenções necessárias e retirada do local, mas também o próprio impacte ambiental, a solução “mais adequada e mais prática de aplicar é a solução das estacas de madeira”, disse Tiago Verdelhos.

“Porque é uma solução que fica mais barata, o custo não é tão elevado, a sua aplicação requer algum trabalho, mas não é muito complicado e, depois, todo o impacto visual ou ambiental que pode ter é mais reduzido. E as estacas de madeira removem-se com alguma facilidade”, sublinhou.

Embora a célula de sacos de geotêxtil com areia “funcione, depois de instalados não saem do sítio” e tenha apresentado “as maiores taxas de sedimentação”, os problemas estão relacionados com a instalação e remoção, que requer a intervenção de maquinaria pesada e por ser “a mais cara de todas”, pois a instalação da célula custou “quase dez vezes mais do que as estacas de madeira”.

Já a tela geotêxtil, se é de instalação fácil, é igualmente “um material caro, quase cinco vezes mais do que as estacas de madeira”, e a célula “tem apresentado alguns problemas, já necessitou de manutenção por duas ou três vezes”, explicou o investigador.

“Temos um resultado e depois temos de analisar vários factores. Ou seja, para instalações deste género, de pequena e média dimensão, parece-nos que utilizar estacas de madeira é uma solução mais interessante do que as outras”, observou Tiago Verdelhos

Para além da questão dos sapais estuarinos, ameaçados de desaparecimento com a subida do nível do mar, o projecto científico inclui ainda uma investigação sobre a possibilidade da protecção e conservação da fauna autóctone do estuário do Mondego, utilizando um tanque de aquacultura como viveiro.

A ideia, cujos dados obtidos ainda terão de ser avaliados, passou por deixar entrar a água do estuário, capturando peixes e crustáceos no tanque e, posteriormente, aferir da sua quantidade e diversidade.

O projecto ReSEt reúne 15 investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente das universidades de Coimbra (MARE-UC) e de Lisboa (MARE-UL), e do Instituto para a Sustentabilidade e Inovação em Engenharia Estrutural (ISISE) e do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.