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Outubro é dedicado a quem luta diariamente contra o cancro da mama

21 de Outubro 2023 Jornal Campeão: Outubro é dedicado a quem luta diariamente contra o cancro da mama

Outubro pinta-se de rosa em homenagem a todas as mulheres que sofrem e lutam, diariamente, contra o cancro da mama. Durante este mês são várias as campanhas realizadas de forma a consciencializar as pessoas para esta doença, tendo como objectivo principal alertar as mulheres e a sociedade sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do cancro de mama.

No dia 19 assinalou-se o Dia Mundial do Cancro da Mama e dia 30 é o Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama, duas datas que servem de alerta e luta para milhares de sobreviventes.

Segundo estudos, o cancro da mama é o mais frequente em Portugal e em todo mundo e atinge maioritariamente o sexo feminino, sendo que cerca de um em cada 100 cancros da mama desenvolvem-se no homem.

Em 2020, no nosso país estima-se que sete mil mulheres tenham sido diagnosticadas com cancro da mama e 1.800 tenham morrido com esta doença.  Natália Amaral, secretária-geral da Direcção da Liga Portuguesa Contra o Cancro do Núcleo Regional do Centro (LPCC.NRC), revela que este é um “número bastante grande”. “A incidência do cancro da mama está a aumentar. Aparecem sete mil novos casos por ano”, constata, afirmando que as campanhas de sensibilização são fundamentais para que as mulheres conheçam a causa e recorram ao diagnóstico precoce.

 

Prevenção pode salvar vidas

O diagnóstico precoce do cancro da mama é essencial e pode mesmo salvar vidas. É importante estar atentos aos mínimos detalhes e alterações que possam ocorrer nos peitos. Natália Amaral assume que quanto mais cedo for diagnosticado, maior probabilidade tem a cura. “Isto não é uma doença que tem uma sentença de morte, mas é uma doença que diagnosticada atempadamente tem um prognóstico muitíssimo bom. Se conseguirmos que o diagnóstico precoce e o próprio rastreio encontre tumores ou trate tumores com menos de dois centímetros temos um prognostico óptimo e quase que podemos falar em cura”.

Um diagnóstico precoce poderá, em alguns casos, evitar tratamentos mais dolorosos como a mastectomia radical e o uso de quimioterapia. Desta forma, é aconselhado a que as mulheres façam uma mamografia anual ou em cada dois anos. A mamografia permite visualizar nódulos na mama, antes que este possa ser sentido ou palpado pela mulher, bem como eventuais microcalcificações.

Contudo, Natália Amaral chama a atenção para que as mulheres recorram ao auto-exame da mama. “Sempre que tomam banho olhem-se ao espelho e examinem através da palpação nos seios de forma a detectar alguma alteração. Caso haja alguma variação deve recorrer de imediato ao médico”, declarou.

Se diagnosticado e tratado precocemente, o cancro da mama tem uma taxa de cura superior a 90%. A prevenção e diagnóstico precoce são fundamentais para o aumento da sobrevivência e manutenção da qualidade de vida da mulher.

 

“Vencer e Viver”

“Vencer e Viver” é um movimento de entreajuda da LPCC.NRC que visa o apoio a todas as mulheres, familiares e amigos desde que é diagnosticado um cancro da mama. Formado há mais de 30 anos, baseia-se no contacto pessoal entre a mulher que se encontra a viver uma situação de particular vulnerabilidade e uma voluntária, que vivenciou uma situação semelhante. “Este movimento é de entreajuda e isso significa que é um apoio de igual para igual, entre pares, que se realiza por parte de alguém que já é mais experiente numa determinada situação e que recorre a essa sua mesma experiência para poder ajudar alguém que se encontra numa fase mais inicial, mais fragilizada emocionalmente”, refere Sónia Silva, psicóloga e responsável da Unidade de Voluntariado da LPCC.NRC.

Consideradas sobreviventes desta doença, as voluntárias são uma parte fundamental no apoio multidisciplinar de quem está a começar a passar pelo processo doloroso da descoberta de um cancro. “A ajuda de um voluntário que passou pela experiência é muito importante porque muitas vezes é aqui que se adquire um testemunho de esperança e de que vale a pena lutar contra esta doença”, sublinha a psicóloga.

O movimento “Vencer e Viver” é também muito procurado por mulheres que já superaram a doença numa vertente mais virada para a promoção da qualidade de vida, uma vez que disponibiliza materiais ortopédicos, tais como: prótese mamária, fato de banho, cabeleiras, lenços e todo um conjunto de matérias que são indispensáveis ao longo do processo de luta.

Sónia Silva revela que neste momento o grupo “Vencer e Viver” necessita de mais voluntárias porque “os pedidos de mulheres que precisam, quer do apoio emocional da voluntária quer neste aconselhamento para a utilização do material ortopédico, são crescentes e a resposta nem sempre é suficiente”.

A responsável da Unidade de Voluntariado afirma que a pessoa que frequenta o movimento “sai a sentir-se que não está sozinha, que há sempre alguém que já partilhou um sofrimento muito semelhante ao seu”. Segundo Sónia Silva muitas mulheres quando passam por uma doença oncológica por vezes sentem-se sozinhas, sendo que ao frequentarem o grupo conhecem pessoas que já viveram esta experiência e que a superaram, por isso a esperança é outro sentimento que é logo aumentado. “O objectivo também é fomentar a ideia de que viver um cancro da mama, apesar de ser uma experiência adversa, é possível sobreviver e ter qualidade de vida, sermos bonitas e voltar aos nossos papéis sociais anteriores à doença”, sublinha a psicóloga referindo que o testemunho da voluntária passa muito por aí.

 

Liga Portuguesa Contra o Cancro assinala Outubro Rosa com caminhada por Coimbra

De forma a assinalar “Outubro Rosa” (campanha de prevenção para o cancro da mama), a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) organizou a caminhada “Pequenos Passos, Grandes Gestos”, que teve como principal objectivo alertar a população para a importância da prevenção, visto que o cancro da mama é uma doença que afecta muita gente e o número de casos tende a aumentar significativamente nos próximos anos.

De acordo com a psicóloga e responsável da Unidade de Voluntariado do Grupo Regional do Centro da LPCC, Sónia Silva, o cancro da mama “é uma doença que pode chegar a todos nós, não só a partir de uma certa idade, não só a um dos géneros. Os homens também têm que estar de alerta para a possibilidade de terem cancro da mama”.

Na caminhada, que teve início na Praça da República e terminou no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, participaram cerca de 400 pessoas (desde sobreviventes e familiares a profissionais de saúde), apesar do alerta para as condições climáticas adversas, que acabaram por não se verificar, o que fez com que tudo se tornasse mais fácil.

A participar nesta caminhada, Corália Simões é uma sobrevivente do cancro da mama, tendo sido diagnosticada em Agosto de 2021, que chama à atenção para a importância dos rastreios e da prevenção no geral, tendo sido num rastreio, através de uma mamografia, que foi detectado. “Se estou aqui como estou, neste momento, foi também porque eu era muito vigilante com a minha saúde e acho que o facto de fazermos as mamografias, de estarmos com as pessoas que podem dar-nos esse apoio, como a Liga, é importante para a nossa sobrevivência”, refere.

Membro da Liga desde Dezembro de 2022, altura em que terminou os tratamentos, considera ter sido importante juntar-se a este movimento não só para ocupar o seu tempo, por estar privada de exercer a sua actividade profissional, como para ajudar outras mulheres que estejam a passar pela mesma situação.

Depois de sobreviver ao cancro, Corália Simões afirma que encara o seu dia-a-dia como se fosse “o melhor dia da vida”.

Por sua vez, Ana Sofia Silva encontra-se ainda em fim de tratamento, mas está já livre da doença. Foi diagnosticada em Dezembro de 2022 e considera que o processo gera “introspecção, revolta, negativismo e muito medo do futuro”. Relembra que “a prevenção é algo que tem de ser mais trabalhado e mais pensado, de forma a não chegar à situação de ser necessário um tratamento tão agressivo. A prevenção é essencial seja em que idade for”. Considera que depois da doença passou a olhar para a vida como “uma nova oportunidade” e passou a ter necessidade de “aproveitar todos os momentos”.

Apesar de a adesão a esta iniciativa ter vindo a aumentar de ano para ano, Sónia Silva (psicóloga da LPCC) afirma que “a sensibilização nunca é demais e não se esgota. É preciso fazê-la ao longo de todo o ano”.

 

Ana Sofia Silva (à esq.) e Corália Simões (à dir.) são duas sobreviventes do cancro da mama que ultrapassaram, recentemente, a doença e que se juntaram à Caminhada “Pequenos Passos, Grandes Gestos” para dar apoio a outras mulheres

 

 

Cristiana Dias e Inês Calado
»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 19/10/2023]