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O poético Senhor da Medicina preventiva

17 de Agosto 2018 Jornal Campeão: O poético Senhor da Medicina preventiva

Publicado a 24 de Maio de 2018, na edição n.º 927

 

Nome: Polybio Serra e Silva
Naturalidade: Penacova – Coimbra
Idade: 90 anos
Profissão: Médico aposentado e professor catedrático jubilado
Passatempos: Escrever; ‘bandoleiro’ na Associação dos Antigos Tunos da UC
Signo: Touro
Adora rimar e, durante anos, acordava, tanto de Verão como de Inverno, com um mergulho em piscina de água fria. Celebrou, precisamente, há quatro dias, 90 anos. Nasceu na vila de Penacova, onde viveu até à idade de entrar na escola primária. Mas já antes dos sete anos a sua boa caligrafia chamava à atenção a alguns professores conhecidos da família. Fez os primeiros anos de instrução na Escola de Almedina e foi em Coimbra que deu seguimento a toda a sua formação académica. Frequentou a Escola Industrial e Comercial Brotero e concluiu depois o, denominado hoje, ensino secundário, na Escola Secundária José Falcão (conhecida, à época, por Liceu de Coimbra). “E foi aí que conheci, como minha professora de francês, a esposa de Miguel Torga, que era uma mulher espectacular. Depois de passar uns 40 anos sem a ver encontrámo-nos um dia, paramentados, na Capela da Universidade e ela, sem estar comigo há tanto tempo, dirige-se a mim chamando-me pelo nome”, recorda.
Na adolescência almejava vir a ser engenheiro porque gostava muito de matemática, física e química; chegou mesmo a matricular-se nesse curso aquando do ingresso no ensino superior. No entanto, é por esta altura que fica órfão de mãe o que o leva a recordar “quanto se orgulharia ela de ter um filho médico”. “O meu irmão já estava a tirar Engenharia, uma das minhas irmãs dedicava-se à costura e a outra seguiria Físico-Químicas. Portanto, ou seria eu ou mais ninguém. E no mês seguinte pedi transferência de curso e assim fui para Medicina com vontade de seguir Engenharia.”
Em 1959 licencia-se em Medicina, defendendo a tese de licenciatura que apresentou e que já deixava antever o seu percurso profissional e a sua fixação pela prevenção cardiovascular: “O laboratório no diagnóstico precoce da aterosclerose”. Foram várias as peripécias ocorridas ao longo deste curso a que deram o nome de “Parto a sorrir”, em
alusão aos dois vulgares sentidos da palavra “parto”. Em 1973 concluiu, com distinção e louvor, o doutoramento académico, defendendo a Tese: “Aterogénese experimental no rato”. Sete anos depois foi aprovado, por unanimidade, para Professor agregado sendo, em 1990, admitido nos mesmos moldes para Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (UC). Ao longo destes anos foi investigador e director científico de um projecto do Instituto de Alta Cultura e bolseiro deste Instituto e da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também sócio fundador, primeiro presidente e actual presidente Honorário da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose.
Durante o curso de Medicina integrou, na qualidade de músico, a Tuna Académica da UC, na qual assumiu, posteriormente, o cargo de Presidente, enquanto ainda frequentava o quinto ano no ensino superior. E é também por isso que Polybio Serra e Silva se considera uma pessoa multifacetada: “No meu quinto ano de Medicina fui, simultaneamente, presidente da TAUC (hoje sou Sócio Honorário), vice- presidente da Direcção Geral da Associação Académica, presidente da Comissão Central da Queima das Fitas, delegado de curso e ainda fazia parte de um Grupo de fados e guitarradas. O certo é que, nesse ano, subi a minha nota dois valores, portanto, parece que aquela velha máxima de “se alguém tiver muita pressa de que alguma coisa lhe façam, deve pedir a quem tem muito que fazer
e não a quem nada tem que fazer’ faz todo o sentido, quando falo de mim”, conclui.
Jubilou-se em Maio de 1998 e, desde então, mantém uma vida activa, entre palestras, 30 minutos de actividade física diária, em bicicleta fixa ou natação, escrita e dedicação à Fundação Portuguesa de Cardiologia, onde é presidente do Conselho Científico e, desde a sua fundação, da Direcção da sua Delegação do Centro que, recentemente, comemorou o seu 18.º aniversário. Por altura da sua jubilação liderou, como Coordenador Geral, em parceria com a Associação Dentária Portuguesa (ADP) e 25 médicos especialistas em diversas áreas, nomeadamente em Medicina Dentária, a formação contínua na área da odontologia com uma carga horária de 908 horas, o que permitiu aos odontologistas
adquirir a carteira profissional.
Associou, durante vários anos, “dois topos de carreira, em dedicação exclusiva”: professor catedrático da FMUC e director dos Serviços de Medicina II dos HUC e tem vários trabalhos publicados, em poesia e prosa, todos de carácter científico, direccionados para a Medicina Preventiva. “Um poético cafezinho” foi o último livro publicado, sendo editado em breve o “Vossemecê Senhor vinho – do bom e do mau uso”, em defesa dos benefícios desta bebida
desde que “ingerida com conta e medida”. Entre outras distinções, recebeu a Medalha de Serviços Distintos, Grau “Ouro”, do Ministério da Saúde, foi galardoado com a Medalha de Mérito da Ordem dos Médicos e distinguido com uma “Homenagem à Excelência” pela Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Em 2017 recebeu o Prémio “Nunes Correa Verdades de Faria”, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Fez ainda parte dos fundadores da Associação dos Antigos Tunos da UC, tendo sido primeiro presidente e ‘bandoleiro’, deste organismo, do qual é, actualmente, presidente honorário.
Para a sua longevidade revela, prontamente, o segredo: “não fumar (já fui fumador de 60 cigarros por dia e mercê da minha força de vontade, passei de um dia para o outro, de 60 para zero); beber pouco, tendo em atenção que “vinho há só um que é o tinto e mais nenhum” e, quanto à quantidade, “muito não deveis dizer, antes deveis ripostar porque é de muito bom-tom, ao almoço e ao jantar quero tinto pouco e bom.” E, enquanto esta receita funcionar, Polybio Serra e Silva não tem dúvidas: “até morrer, mesmo que nada mais faça, continuarei (pelo menos) a pedalar em bicicleta fixa e a escrever livros.”

E ainda…

“Não tive uma família matriarcal. Ambos mandavam. Costumo dizer que era uma família Varela, mandava ele e mandava ela. Tive uma mãe espectacular de quem tenho uma saudade enorme, saudade que também tenho, igualmente, de meu pai.”
“Já suportei cinco enfartes do miocárdio, uma intervenção cirúrgica à carótida direita, outra à vesícula, outra à coluna vertebral e, mais recentemente, às cataratas e glaucoma…mas as garotas continuam a dizer que tenho muito charme e cá me vou convencendo disso e assim arrastando a minha cruz.”
“Um dia chegámos a Lisboa, eu e os colegas de curso, indo eu como Delegado de Curso; o Ministro veio à porta, dizendo que só podia receber três pessoas e lá fui eu com mais dois colegas. Estivemos algum tempo em conversa, num acanhado sofá, que me obrigou a um “bailado nadegal” (de acordo com os movimentos ministeriais), que me autorizou, quando saímos e um dos meus colegas, o Rocha Alves, perguntou, como correu, a eu responder: ‘já sabes que eu com os ministros sou cu cá cu lá’. E era o que se tinha passado ali realmente.”
“A minha mulher actual é a minha terceira encarnação, é o meu terceiro casamento. A primeira chamava-se Aurora e esta também é Aurora. Voltei às origens… É uma mulher extraordinária, ‘pau para toda a colher’, tão depressa varre o gabinete como vai fazer uma conferência.”
“Há três tipos de água que enganam os homens: a água-pé, a chuva’molha tolos’, e as lágrimas das mulheres.”
“Vivi o 25 de Abril com uma certa euforia. Continuo, contudo, a admirar, sob diversos aspectos, a obra de Salazar mas, muito principalmente, a de Bissaya Barreto; já escrevi, a este propósito, um artigo de opinião, revoltado com o tratamento que teve quem tanto deu a esta cidade… não o deixaram dar a última lição, quando eu até dei duas últimas lições: uma primeira, mandada fazer oficialmente pelos meus pares académicos e depois outra, para os amigos, com o anfiteatro dos HUC cheio e que está publicada, quase toda em prosa rimada”.
“Sempre fui muito recto. Embora o homem seja um animal político, eu não tenho partido. Sou Polybio mas não sou político”.
“Ambiciono aquilo que Miguel Torga dizia e muito bem, que retenho na memória, há tantos anos: ‘pois eu gosto de crianças, já fui criança também, não me lembro de o ter sido mas o ver reproduzido o que fui sabe-me bem. É como se de repente a minha alma espelhasse no cristal duma nascente e tudo o que fui voltasse à pureza da semente.”
“Estou muito triste com Coimbra por verificar que ela era a terceira cidade do país e, actualmente, se a considerarmos a trigésima devemos estar a fazer-lhe um grande favor; é certo que continua, para mim, a ter mais encanto, mas parece envolvida por uma esburacada rede que deixa fugir inestimáveis valores que fazem com que as lágrimas do meu pranto não cheguem para ser uma luz que lhe dê vida”.