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“O músico que só souber música será sempre um triste músico”

30 de Março 2018

Perfil publicado a 01 de Março de 2018, na edição n.º 915

 

Nome: VIRGÍLIO Alberto Valente CASEIRO

Naturalidade: Ansião

Idade: 69 anos

Profissão: Maestro, Docente e Musicólogo

Passatempos: Pitch and Putt (modalidade de Golfe)

Signo: Caranguejo

Maestro mas, acima de tudo, uma “figura cultural”. É assim que o vice-presidente e elemento do Coro dos Antigos Orfeonistas, Manuel Rebanda, define Virgílio Caseiro: “além de maestro destaco-lhe as diversas vertentes da sua formação cultural multifacetada pois é um poeta, um pintor e um pedagogo excelentes. Tem pinturas e poemas maravilhosos e é visível a admiração nutrida pelas crianças que acompanha e foi acompanhando ao longo dos anos”.

Virgílio Caseiro, como mormente é conhecido, iniciou a aprendizagem em música ainda muito novo, com o barbeiro da terra onde nasceu, Ansião, uma vila do distrito de Leiria. Aos 16 anos mudou-se para Coimbra e sentiu-se deslumbrado com a capacidade de resposta desta cidade. Quando chegou, relembra, trazia dois objetivos em mente: “um, continuar a estudar música, que era o que mais me agradava, e outro, estudar Engenharia Mecânica, porque o meu pai era industrial de automóveis”. Simultaneamente, inscreveu-se no Orfeon Académico onde foi 1.º tenor, iniciou também a sua prestação na tuna académica e fez ainda parte do grupo de danças regionais G.E.F.A.C. (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra).

Nunca chegou a concluir o curso de engenharia mecânica até porque cedo percebeu que tinha criado uma falsa relação de aprendizagem e de noção do que, efetivamente, seria esta área: “no primeiro ano consegui chumbar a tudo. Não me estupidifiquei, simplesmente as solicitações eram tantas que me deixei embebedar por essa riqueza de resposta e o curso, francamente, não me entusiasmava, porque eu quando pensava em Engenharia Mecânica pensava em mexer em carros, coisa que não tinha nada a ver porque o curso eram derivadas, integrais, resistências de materiais, cálculo, matemáticas gerais…era complicado”, explica Virgílio Caseiro.

Em 1969 ingressou no serviço militar e optou, definitivamente, pela carreira musical. Casou quando terminou a tropa, tinha na altura 22 anos, e à esposa não poupa elogios: “Casei muito bem porque a minha esposa é uma jóia e consegue levar por diante uma caminhada difícil que é aturar-me”.

Com as modificações académicas decorrentes do 25 de Abril, e já a cantar no Orfeon desde 1972, teve oportunidade de dar aulas de matemática e ciências, aproveitando os conhecimentos adquiridos no curso de Engenharia Mecânica. Em 1978 terminou o Curso Superior de Canto, no Conservatório de Música de Coimbra, e licenciou-se em 1988 em Ciências Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa completando depois o mestrado na mesma área pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Por esta altura começou a dar aulas de música como profissional livre: “Comecei a dar aulas na ACM – Associação Cristã da Mocidade de Coimbra – numa sala que era uma lavandaria com máquinas de lavar, com cinco cordéis esticados e lençóis a secar e foi aqui que fui descobrindo a vertente lúdica da aprendizagem da expressão musical que depois se foi aperfeiçoamento. Francamente, depois de ter passado por uma panóplia de aliciamentos e hipóteses e soluções como a musica coral, instrumental e dança, foi aquela que me conseguiu preencher mais e estimular que é a expressão musical com crianças, porque acho que os mais novos são um poço de novidades”.

Virgílio Caseiro já percorreu o mundo, mas afirma nunca ter viajado em lazer. Reitera que foi em Coimbra que teve sucesso porque soube ter a lucidez para se enquadrar onde realmente era preciso: “Não nos podemos deixar embebedar por aquelas noções momentâneas de riqueza. Convidaram-me para ir para Lisboa dar aulas mas, convenhamos, em Lisboa eu não faço falta nenhuma! Em Lisboa há muitos músicos profissionais, bailarinos, artistas profissionais…é em Coimbra que eu sou preciso”. São afirmações como esta, sublinha Santos Cabral, Presidente do Coro dos Antigos Orfeonistas, que tornam o maestro “numa pessoa única, um modelo como cidadão e como artista, que consegue conciliar uma postura firme e conjugá-la ao mesmo tempo com o bom humor que sempre o caracterizou”.

Entre a década de 80 a 90 foi Maestro do Coro de Professores de Coimbra, criou e dirigiu a Orquestra da Câmara de Coimbra e o Grupo de Música medieval e renascentista “Ars Musicae”. Foi também maestro do Coro do Hospital Pediátrico de Coimbra e da Orquestra Clássica do Centro (além de co-fundador deste projeto nascido em 2003), e ainda professor adjunto na Escola Superior de Educação de Coimbra durante vários anos. Esteve 16 anos no comando do Orfeon Académico de Coimbra.

Hoje além de professor de música na ACM, é ainda o maestro titular do Coro dos Antigos Orfeonistas, onde cessará funções no dia 8 de Julho do ano corrente, concluídos, assim, 15 anos com essa responsabilidade artística, precisamente no dia em que celebra 70 anos.

Os projectos, afirma, nascem a cada momento embora sinta já ter alcançado a plenitude no foro afetivo: “Tenho dois filhos e quatro netos. O ciclo familiar está cumprido. Vou desta terra para Marte – se o cemitério for em Marte – com a consciência tranquila: deixei tantos descendentes quantas pessoas investi na terra, eram duas, ficarão quatro”.

A nível profissional, no entanto, há ainda uma meta por completar: “Durante o tempo de professor era impossível porque as cordas vocais ressentem-se, um professor ou canta ou dá aulas. Mas agora, com este repouso matinal que tenho, talvez seja este o meu último projecto: gravar as “Novas Canções para Coimbra”.

E ainda…

Todo o pai gosta que o filho vá para médico. Se não for médico que seja advogado. Se não for advogado então que seja engenheiro. Eu, como médico não podia ser porque via sangue e desmaiava, advogado também não porque nunca tive grandes dotes laudatórios, acabei por ir para Engenharia Mecânica.”

A melhor gratificação que podia ter, independentemente do dinheiro que possa ter ganho, é ir na rua e um aluno meu ver-me do outro lado da rua e atravessar para me vir dar um abraço…este é dos melhores salários que recebi e que ainda hoje continuo a receber. É um estado de graça.”

“Não casem com músicos, porque os músicos, com todos os predicados que têm, assumem descompensações que lhes complicam a vida, desde a realização de trabalho num tempo possível, o nível de ocupação, a noção do valor e do tempo….coisa que os funcionários públicos não têm, entram e saem a horas certas e às 17h30 já podem estar a beber um café com a mulher e os filhos.”

Não podemos confundir autoridade com poder. O ‘Não quero que faças isto’ ou ‘não quero que faças aquilo’, isso é poder e este é sempre agressivo. A autoridade não. Na autoridade sou eu que me ponho no círculo e depois são os outros elementos que me empurram para o centro e dizem ‘vai para o centro, tu mereces ser líder desta gente’ e aí a liderança é consensual. Foram estes princípios simples, básicos e humildes que estiveram presentes na minha actuação enquanto docente e me possibilitaram fazer aquilo que faço hoje. Os professores que tenham uma cultura geral consolidada têm mais predisposição para conversar com os alunos e entendê-los porque, na diferença em que há do que o professor tem para ensinar e aquilo que o aluno tem para aprender, todos os alunos (a não ser que tenham fraqueza mental e, esses, têm tratamento particular) se apercebem de que lado está o professor e de que lado está o aluno, de que lado está o respeito e a autoridade e de que lado está o poder.”

Adorei e adoro trabalhar com crianças. É onde me sinto bem e é onde vou tentar prolongar ao máximo da minha existência e da minha saúde.”

“Há muita gente que diz que se voltasse atrás fazia tudo igual. Eu não. Eu fazia diferente. Eu durante muitos anos interrogava-me ‘porque será que muitas pessoas quando viajam de avião gostam de ir à janela?’ E depois apercebi-me que na janela têm uma perspetiva diferente da terra, vêem Coimbra e a Figueira da Foz ao mesmo tempo…conseguem ter noção de proximidade de uma coisa que está longínqua…a velhice é um bocado isso, é conseguir subir na pirâmide da vida ficando num ponto de auscultação visual em que vemos as coisas e sabemos que vão acontecer assim e por isso dizem que os velhos são chatos e tantas vezes exclamam ‘tem calma que para cá virás!”

“O criador da Faculdade de Biomédica do Porto, Abel Salazar dizia, em relação à medicina que o médico que só souber medicina será toda a vida um triste médico e eu adaptei isso à música porque acho que ele estava cheio de razão…um músico que só souber musica será sempre um triste músico.”

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