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Semanário no Papel - Diário Online

 

“Nunca tive dúvidas que queria vir para a Marinha”

9 de Dezembro 2018

Perfil publicado a 01 de Novembro, na edição n.º 948

 

Nome: ANTÓNIO Manuel Fernandes da SILVA RIBEIRO
Naturalidade: Pombal
Idade: 61 anos
Profissão: Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas
Passatempos: Escrever; Ver e acompanhar provas de ciclismo
Signo: Balança

 

Futebolistas, polícias, médicos astronautas ou, quem sabe, comandantes de navio. Quem nunca atravessou relvados na exiguidade de um quarto, auscultou corações recorrendo a copos de plástico ou salvou o mundo com o desembainhar de um ramo de árvore? Na infância, o imaginário preenche os sonhos das crianças e torna-se a realidade das brincadeiras de rua, no pátio de casa ou no próprio quarto onde o cenário se transforma num “faz-de-conta” inatingível aos mais cépticos, que é como quem diz, aos adultos. Entretanto a criança cresce e os heróis da meninice desaparecem. Acontece que ainda existem, entre nós, aqueles que não esquecem e transportam para a vida adulta o que, para muitos, não ultrapassa os primeiros anos de escola. À pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, António Silva Ribeiro soube a resposta desde tenra idade.

Nasceu e foi criado no seio de uma família bem estruturada, sólida, na Quinta da Formiga, uma pequena aldeia no concelho de Pombal, terra que relembra com visível carinho evocando a ama ‘Lélé’, o professor Vitorino e as educadoras de infância, Mariazinha e Graciete, “que me ensinaram a escrever os primeiros ‘Ó’s’ e os primeiros ‘II’s’. E ainda conservo esses caderninhos de duas linhas onde escrevi as primeiras letras”, confessa. Todos os dias atravessava a linha de comboio para ir estudar. Essas questões de segurança preocupavam os pais e, por isso, almoçava em casa dos avós que viviam no centro da vila, relativamente perto da escola primária. Aqui, desde cedo se destacaram as capacidades académicas de que era dotado ao entrar, directamente, para a segunda classe. “Quando entro para a escola já sabia ler e escrever e por isso fiz apenas uma prova de passagem da primeira para a segunda classe e nem frequentei as aulas da primeira. Isso ajudou-me pela vida fora porque sempre fui mais novo que os meus colegas e até na carreira militar isso foi muito importante. Sou o Oficial mais novo do meu curso da Escola Naval e já era o mais novo do liceu”.

O gosto pela Marinha, esse, nasce em casa dos avós. “O meu avô Samuel foi muito importante na educação que tive. Era uma pessoa austera, reformado da Marinha (foi sargento) e sempre me incutiu valores fundamentais como a disciplina, a organização, o respeito pelos outros, a honestidade e a seriedade. A casa dele era uma espécie de museu
da Marinha onde tinha vários quadros e artefactos que tinha trazido das suas comissões. Esteve em Macau muitos anos, no Japão… visitou vários países. Nunca tive dúvidas que queria vir para a Marinha por causa deste despertar de vocação do meu avô, das visitas diárias que eu fazia a casa dele e das conversas que tínhamos, das sugestões que me fazia…foi essa vivência, à hora de almoço, enquanto eu andava na escola primaria, que despertou em mim este ideal de vir para a Marinha e que acabou por transformar a minha vida de forma definitiva, estando eu há 44 anos a servir os portugueses”, conclui.

Termina o terceiro ano do liceu na terra natal quando, por força da crise que podia ditar o fecho do Colégio Marquês de Pombal, mudou-se para Coimbra. Frequentou o quarto e quinto ano no colégio S. Pedro, ingressando depois na, denominada hoje, Escola José Falcão onde concluiu o sétimo ano. Uma instituição à qual não poupa elogios: “era um
liceu extraordinário, com professores de uma categoria cientifica e pedagógica invejável. Tinha os metodólogos que eu lembro com saudade e também com grande orgulho. Uma escola que formou gente de grande craveira, fruto daquilo que eram as condições físicas e académicas resultantes da elevadíssima qualidade dos professores e dos métodos de ensino”, destaca Silva Ribeiro.

Ingressou, em 1974, no curso de Marinha da Escola Naval onde obteve a licenciatura em Ciências Militares-Navais, numa altura, recorda, “conturbada e ainda com resquícios do 25 de Abril”. Se voltasse atrás no tempo, tomava a mesma decisão porque a carreira militar sempre foi a sua vocação. “Não me arrependo da decisão que tomei e ainda hoje sinto grande orgulho. Era aquilo que eu queria fazer toda a minha vida e voltava a tomar a mesma decisão e a fazer o mesmo sem dúvida nenhuma. A carreira militar é preciso ter aptidão para ela, ter sentido de serviço aos portugueses, é preciso admitir sacrifícios familiares, pessoais, de toda a natureza mas, quem esteja disposto a ter esse tipo de entrega à causa pública e ao serviço público, é plenamente realizado e encontra aqui formas de realização de concretização daquilo que são os seus anseios fundamentáveis para ter uma vida feliz, digna, honrada e patriótica”, enaltece. Em 1978 é promovido ao posto de guarda-marinha e, na altura nos EUA, especializou-se em Hidrografia pelo “Naval Oceanographic Office” e depois em Oceanografia Costeira pela “Louisiana State University”.

Já com trinta anos de idade apercebeu-se que “deixaria de estar nos navios e passaria a ter um trabalho de cientista de gabinete”, funções que não se coadunavam com a sua índole de “mente agitada e inquieta”. Decidiu, por isso, após terminar o curso de promoção a Oficial Superior no Instituto Superior Naval de Guerra, que a vida académica não
terminaria por aí. Na mesma rua desta instituição existia o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) onde alguns professores eram comuns. É assim que surge a inclinação para as áreas de ciência políticas, relações internacionais e estratégia e resolve tirar o Mestrado em Estratégia dedicando-se, especificamente, à Teoria da Estratégia e ao Planeamento Estratégico. É precisamente este último campo que acaba por preencher onze anos da sua vida no Estado Maior da Armada onde entrou como Capitão Tenente e saiu como Contra Almirante.

Nunca almejou vir a ser professor mas foi no vão das escadas do ISCSP que o convite para o ser surgiu e aí, mais uma vez, a inquietude de espírito e a ambição intelectual falaram mais alto. “Eu ia a subir as escadas no ISNG e a descer ia o professor Óscar Soares Barata que me interpela e diz que tinha lido os meus artigos questionando se eu queria dar aulas ali. Eu respondi que me sentiria muito honrado. Fui depois falar com ele sobre isso e comecei a dar aulas na altura em que saiu o professor Almirante Quesada de Andrade e o General Garcia Leandro, dos quais fui assumindo as aulas das cadeiras que leccionavam”. Para que se sentisse ainda “mais habilitado a leccionar” começou a preparar o Doutoramento em Ciência Política fazendo depois a agregação em Estratégia. Todo este percurso é feito simultaneamente ao da carreira militar, uma realidade que, sublinha, beneficiou ambas as partes: “Percorrer os dois caminhos ao mesmo tempo foi útil também para a Marinha porque a formação académica que fui adquirindo e o conhecimento das investigações que fui realizando no quadro da minha carreira académica…todo esse conhecimento pu-lo sempre ao serviço da Marinha. Não existem artigos ou livros meus que não tenham tido grande utilidade para a a Marinha e para as Forças Armadas”, conclui.

Tem publicados dezasseis livros, três dos quais no estrangeiro. Dos livros publicados, dois dissertam a teoria da estratégia, cinco versam o planeamento estratégico aplicado ao Estado, à defesa nacional, à segurança nacional e à Marinha, um é sobre o debate ao terrorismo (em parceria) e oito abordam temas de história militar e marítima ou história da hidrografia. Proferiu mais de 130 conferências e tem mais de 300 artigos publicados em jornais e revistas nacionais e estrangeiras. Os discursos que faz são todos escritos por ele, logo (não só por isso, mas também), a escassez de tempo é uma constante. Está, por isso, a fazer uma pequena pausa nos livros que começou a escrever mas prevê retomá-los quando terminar a carreira.

Foram muitos os cargos desempenhados e os estatutos alcançados mas Silva Ribeiro não consegue enaltecer um em detrimento dos outros. Distingue apenas o mais difícil de exercer. “Todos me preencheram senão não os teria desempenhado. O primeiro cargo que desempenhei foi o de Imediato de um navio patrulha. Eu era muito jovem, terminei a Escola Naval com vinte anos, aprendi muito com os comandantes, com os sargentos e também com os jovens, com os praças. Depois no Instituto Hidrográfico com o rigor da investigação cientifica. Aprendi muito também no Estado Maior com os chefes que tive e oficiais que chefiei que muito me ajudaram no meu percurso a conhecer as complexidades da gestão de um ramo das Forças Armadas e na construção do seu futuro. E depois nos
cargos como Oficial General, como Superintendente do Material… mas, o cargo mais difícil que eu tive foi ser Director Geral da Autoridade Marítima e Comandante Geral da Polícia Marítima pelas circunstâncias em que encontrei esses dois órgãos e pelo nível de exigência que tem o desempenho dessas funções mas também pelo conjunto de problemas que encontrei e tive de resolver. Felizmente aí também tive exemplos muito relevantes de
militares, de civis, polícias marítimos…. de todas as pessoas que se uniram a mim e me ajudaram a resolver esses problemas e a colocar esses órgãos nos lugares de prestígio, reconhecimento e desempenho funcional que têm hoje e que são motivo de orgulho para todos nós. Depois disso fui Chefe de Estado-Maior da Armada que é aquilo que qualquer oficial da Armada ambiciona desempenhar.”, enaltece Silva Ribeiro.

Já no que concerne às diversas condecorações, medalhas e louvores que recebeu, há uma que destaca visivelmente emocionado: a da Ordem de Timor-Leste atribuída pelo Presidente da República pela ajuda prestada na independência de Timor.

Hoje, mais precisamente desde o dia 1 de Março do ano corrente, desempenha o cargo de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, órgão militar superior da República Portuguesa. Sucedeu no cargo ao general Pina Monteiro que atingiu a idade da reforma e, por sua vez, tomou posse no seu anterior cargo (chefe do Estado-Maior da Armada) o almirante António Mendes Calado.

Alcançado o sonho de infância que foi além até da imaginação fértil de uma criança, e sendo, actualmente, ainda professor catedrático convidado do ISCSP e professor militar da Escola Naval, o pleno da vida profissional e académica foi atingido. A este feito, com um brilho nos olhos que se intensifica ao falar, António Silva Ribeiro não tem dúvidas de quem merece receber os louros. “Sou o que sou pela mulher que tenho e pelos dois filhos que
tenho. Nunca dediquei a atenção devida à minha família devido à carreira académica e militar, da qual sempre resultou num excessivo empenhamento profissional. E eu só consigo garantir a actuação nessas duas áreas graças ao extraordinário apoio que recebo da minha mulher que se sacrificou muito pela educação dos nossos filhos. Quando era mais jovem andava embarcado e não tinha tempo, quando estavam na fase dos dez ou doze anos eu já andava nas vidas agitadas da carreira militar e académica. Tudo isto que consegui deve-se, principalmente, ao esforço da minha mulher”.

E ainda…

“O meu pai nasceu numa família humilde em Macedo e a minha mãe em Pombal. O meu avô paterno tinha sido emigrante no Brasil e depois instalou-se em Pombal onde desenvolveu a sua actividade. O meu pai estava a estudar na Escola Industrial Infante D. Henrique no Porto mas teve de deixar os estudos por dificuldades financeiras do meu avô e veio com ele para Pombal. A minha mãe foi sempre uma pessoa com uma inteligência superior. Apesar de não ter tido condições para estudar sempre foi uma pessoa que se dedicou muito ao estudo. Era uma autodidacta, tinha um conhecimento invulgar de história e da área da saúde. Estudava livros de anatomia e outras matérias relacionadas com as ciências médicas e também livros de história e eu surpreendia-me com os conhecimentos que ela tinha da história portuguesa e das personalidades relevantes no nosso país.”

“O Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) é hoje uma faculdade da Universidade de Lisboa mas ele surgiu em 1906 na Sociedade de Geografia e foi criado por Luciano Cordeiro (civil) e Ernesto de Vasconcelos (capitão de fragata) por causa do ultimato inglês e a afirmação da soberania das colónias ultramarinas no século XVI. O ISCSP foi criado como escola colonial e, em 1929, o ministro das colónias, comandante João Belo, atribui-lhe o estatuto de Escola Superior Colonial e depois mais tarde confere-lhe o estatuto de Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina. Tem professores relevantes dos quais ainda existem alguns, vários com obras de grande relevância nacional e internacional.”

“Sempre tive grande facilidade e gostei muito de escrever. É claro que fui aperfeiçoando mas nasci com esse dom, daí a faculdade de conseguir passar com relativa facilidade as ideias para o papel e isso tem-me ajudado imenso. Sou eu que escrevo os meus discursos embora os meus assessores contribuam com ideias e sempre foi assim apesar de hoje ter muito pouco tempo. Quando terminar a minha carreira militar virão mais livros mas agora não tenho tempo. Conferências ainda faço mas cada vez mais de improviso.”

“Pombal, a terra natal, fica onde sempre esteve…no meu coração. O meu pai vive lá ainda. Temos lá o nosso passado. Não sei se um dia irei para lá viver, mas é uma decisão que ainda não estou a pensar tomar. Neste momento estou a pensar no meu futuro nas Forças Armadas e na Universidade quando acabar a minha carreira militar.”
“Sempre gostei da área do planeamento estratégico porque este serve sobretudo para construir o futuro das organizações e tem aplicação militar e civil e eu durante os onze anos trabalhei sempre na construção da marinha do futuro porque na marinha nós planeamos o futuro a 30 anos e isso é uma função de um planeador estratégico.”

“Nunca ambicionei os cargos que tive. Ambicionei, sim, cumprir bem todas as minhas funções nesses cargos. Essa foi a minha grande ambição. Evidentemente que se me perguntar se quando entrei na Escola Naval tinha o sonho de ser Almirante, sim, eu olhava para o Almirantes com grande consideração e respeito e uma grande distância e ambicionava um dia a ser como eles mas para isso tem de se ter uma carreira impoluta e de grande desempenho e também tem de se ter sorte e a ajuda dos subordinados.”
“Tinha sempre o sonho de ser Almirante mas nunca ambicionei ser Chefe de Estado-Maior da Armada nem Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Fui escolhido para esses cargos que têm uma componente não só a ver com a competência militar mas com o conjunto de outras competências reconhecidas por pessoas externas à estrutura militar (tem intervenção do Ministro da Defesa, do Governo, do Presidente da República…que fazem escolhas de acordo com os critérios que considerem adequados para o desempenho dos cargos e os objectivos pretendidos pelas Forças Armadas).”

“Impressionou-me a visita que fiz ao Museu PO.RO.S – Museu Portugal Romano em Sicó, em Condeixa, pela simpatia como fui recebido. De Condeixa, no meu passado, só há um percurso que o meu pai fazia que era ir a Miranda do Corvo, onde havia um mercado à quarta-feira, e os resineiros iam lá. A minha vivência era essa e também o facto de saber que o Dr. Saúl, dono do colégio onde eu andava, era de lá. O museu surpreendeu-me pela qualidade, imaginação, pela narrativa histórica que tem com grande modernidade tecnológica. Conta a história da região com recurso à tecnologia e isso é inovador. Fiquei surpreendido com a qualidade da estrutura cultural que Condeixa tem.”

“Sentar-me na minha secretária com uma folha de papel em branco para escrever um artigo é como eu descanso. Sou um apaixonado pelo ciclismo, até cheguei a participar nalgumas corridas de bicicleta quando era jovem. Acompanho as provas de volta a França e Portugal…o meu herói é o Joaquim Agostinho. Depois o tempo que eu gasto é com os meus trabalhos académicos, não considero mais uma sobrecarga, eu descanso a fazê-lo. Os grandes prejudicados disto são os meus amigos que não tenho tempo para eles. Tenho sempre grande dificuldade em ter tempo para ir almoçar com um amigo ou antigos alunos de escola ou liceu. É por isso é que eu digo que esta carreira militar, vivida como eu a vivi, de forma empenhada e intensa, e colocando ainda em cima uma carreira académica, tem exigências e imposições que obrigam uma pessoa a fazer opções. Eu fi-las e tive sempre apoio da minha família e a vontade e a força e saúde para continuar nesta actividade.”

“Os militares têm limites de tempo de posto e de idade. Quando terminar este cargo que desempenho vou dedicar-me, essencialmente, à carreira académica e acabar alguns livros que tenho adiantados e que parei porque em 2011 tive um problema de saúde e tive de abrandar o volume de trabalho. Tinha três livros quase prontos e desde essa altura não lhes consegui pegar porque, entretanto, fui assumindo responsabilidades cada vez maiores. Quero fazer isso e quero terminar a minha carreira pública como professor do ISCSP onde tenho uma grande amizade com colegas professores e grande estima dos meus alunos a quem quero dedicar os últimos anos da minha vida activa.”

 

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